sexta-feira, 22 de maio de 2026

A quinta dos Animais ao almoço



Sexta-feira tem ganho um estatuto quase litúrgico. Não pela pressa do fim de semana, nem pelo alívio burocrático das horas que terminam, mas por aqueles almoços onde a conversa se estende para lá da mesa e nos devolve a estranha sensação de que ainda é possível pensar o mundo com tempo. Entre garfadas, cafés demorados e livros espalhados como pequenos manifestos, viajámos do ronronar — esse som primitivo e reconfortante que parece guardar a essência inteira do animal — até Orwell e à inevitável brutalidade da frase: “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”.

Falou-se da quinta dos animais, mas também da nossa. Das hierarquias invisíveis, dos instintos que fingimos domesticar, da delicada fronteira entre civilização e natureza. E como sempre acontece nestes encontros, a conversa desviou-se para aquilo que verdadeiramente importa: a diferença dos sexos, os equilíbrios impossíveis entre o que é biológico, cultural, desejado ou imposto. Não para encontrar respostas definitivas — felizmente ainda desconfiamos delas — mas para manter viva a possibilidade de perguntar.

Há qualquer coisa de profundamente raro nestes almoços: a capacidade de saltar do ensaio político para o comportamento felino, da literatura para o corpo, da teoria para o riso, sem perder coerência. Como se pensar também pudesse ser uma forma de amizade. Como se os livros servissem precisamente para isto: abrir portas inesperadas entre pessoas que ainda se permitem conversar sem cronómetros.

No fim, ficou a sensação de que talvez a verdadeira utopia esteja aqui. Não nas grandes revoluções, mas nestas mesas de sexta-feira onde ainda há tempo para discutir Orwell, animais, homens, mulheres e o mundo — enquanto a comida arrefece.

Um bj utópico

Dri

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Entre o Estreito de Ormuz e a Esperança: Pensar o Mundo Hoje


 Num tempo em que o mundo parece oscilar entre a incerteza e o medo, a leitura do livro Esperança, do Papa Francisco, surge como um convite profundo à reflexão e, sobretudo, à resistência interior. Não uma resistência feita de força bruta, mas de uma confiança teimosa na possibilidade de um futuro mais humano.

As palavras do Papa ecoam com uma simplicidade desarmante: a esperança não é ingenuidade, é escolha. E talvez nunca tenha sido tão urgente escolhê-la como agora. Hoje, ao vermos notícias sobre o agravamento do conflito no Irão e a abertura do Estreito de Ormuz — um dos pontos mais sensíveis do equilíbrio geopolítico mundial —, somos confrontados com a fragilidade das estruturas que sustentam a paz.

O mundo parece, mais uma vez, inclinar-se para a tensão, para a divisão, para o medo do outro. E é precisamente neste cenário que a mensagem de Esperança ganha ainda mais força. O Papa Francisco recorda-nos que a esperança não ignora a dor nem fecha os olhos à realidade. Pelo contrário, nasce no meio dela. Cresce nas fissuras da história, onde ainda é possível escolher o bem.

Mas o que significa falar de utopia num mundo assim?

Durante muito tempo, a palavra “utopia” foi tratada como sinónimo de algo inalcançável, quase infantil. No entanto, talvez devêssemos resgatá-la. Não como fuga à realidade, mas como horizonte. A utopia é aquilo que nos impede de aceitar a injustiça como normal, a guerra como inevitável, a indiferença como destino.

A utopia é, afinal, uma forma de esperança em movimento.

Num mundo marcado por conflitos, crises energéticas, desigualdades profundas e medos coletivos, pensar num “mundo melhor” pode parecer distante. Mas é precisamente esse pensamento que nos mantém humanos. Cada gesto de solidariedade, cada escolha ética, cada palavra que constrói em vez de destruir , tudo isso são pequenas expressões de uma utopia possível.

Talvez não possamos fechar estreitos nem evitar guerras com as nossas próprias mãos. Mas podemos abrir caminhos dentro de nós e à nossa volta. Podemos escolher não alimentar o ódio, não ceder ao cinismo, não desistir do outro.

O livro Esperança não oferece soluções mágicas. Oferece algo mais exigente: um convite à transformação interior que, lentamente, pode transformar o mundo.

E talvez seja aí que tudo começa.

Entre o ruído das notícias e o peso da realidade, a esperança continua a ser um ato radical. E a utopia, longe de ser um sonho distante, pode ser o primeiro passo concreto para um mundo que ainda não existe,  mas que depende de nós para começar a nascer.

Bj utopico

Dri


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O poder de um post it



Hoje descobri que um post it não é só um quadrado colorido que serve de memorando.

Este quadrado colorido pode ser um sopro ou um começo quando escrevemos a frase certa e o colamos perdido dentro de um livro.
Dentro desse livro, podemos encontrar várias frases escritas em pequenos post-its que, na verdade, ficam ali silenciosas a espera do momento certo de fortalecer quem as lê. Diria mesmo que há um poder secreto em cada frase escrita, pois estes post its, espalhados ao longo do livro, estão carregados de intenções, de pausas para respirar ou simplesmente para fortalecer.

Assim este livro, deixa de ser apenas um conjunto de páginas encadernadas, para se tornar um companheiro , um mapa feito de letras com pulsação, com palavras que respiram e histórias que abraçam,.

Uma frase pode não mudar o mundo inteiro, mas pode mudar um dia. E às vezes, é de um dia que nós precisamos para continuar.

Olhemos para estes posts its como sementes prontas a florir em novas etapas. 

Porque todo o caminho de cuidado começa com uma decisão silenciosa,  uma frase que acende uma luz e a partir de hoje com um post it colorido.

Bj utópico
Dri

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Conhecem o amor que não faz barulho?

14 de fevereiro: o dia dos amor, dos afectos......

Coloquei Barry White na playlist da Apple Music e decidi escrever sobre um tipo de amor que não faz barulho, que não precisa de plateia e não exige promessas eternas porque ele simplesmente fica. É o amor que nasce na amizade.

O Amor na amizade é quando alguém entende o nosso silêncio, que envia mensagem a dizer estou aqui ou simplesmente acredito em ti. 

A amizade é o único amor que começa sem expectativas e, ainda assim, transborda em significado pois não nasce da paixão, mas nasce da nossa escolha diária em ouvir, ficar e entender mesmo quando seria mais fácil fugir.

Se o mundo tivesse mais amizades com amor e menos amores sem amizade, talvez tudo fosse mais leve.

Feliz dia de São Valentim aos meus verdadeiros amigos que são um porto seguro no meio das tempestades e riso nos dias comuns. São aqueles que conhecem as minhas versões mais fortes e também as mais frágeis  e ainda assim permanecem. São casa, mesmo quando o mundo parece estrada. Cada um, da sua maneira, carrega um pedaço da minha história e lembra-me, todos os dias, que não existe riqueza maior do que ter com quem dividir a vida.

Bj utopico
Dri


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Os anos do meu pai





Hoje é dia de anos: o dia de anos do meu pai. O pai que está presente no tempo, nos gestos calmos e no riso dos netos que o rodeiam.

Como filha, vejo nele o homem que sempre soube escutar antes de falar e sentir antes de agir. Hoje, vejo também o pai que se transformou em avô sempre atento, paciente, afectuoso. A forma como ele interage com os netos tem o mesmo cuidado com que constrói a música: sem pressa mas com verdade.

Foi essa sensibilidade que o levou a criar o álbum Círculo D’Harmonias, onde cada faixa é uma parte do seu tempo, da sua calma e da sua história. No seu circulo de Harmonias disponível no Spotiy e na Apple Music:

- No “Préludio”, reconheço o início de tudo: a base, o primeiro passo, o tom certo para começar.
- Em “A Little Blue” a serenidade que ele carrega no olhar, aquela calma que atravessa gerações.
- Em “A Little Swing”, está a leveza do quotidiano, o riso, a alegria
- em “Ode a D. Dinis” revela o respeito profundo pela história, pela cultura e pelas raízes , valores que ele passa aos netos sem discursos, apenas pelo exemplo.
- Em “Contemplação”, encontro o pai: observador, presente, em silêncio mas sempre presente.

A equitação é uma das suas grandes paixões. Vejo-o a cavalo com o mesmo equilíbrio com que compõe atento ao ritmo, à respiração, ao momento exato. Ali, como na música, o meu pai ensina que conduzir não é dominar, é escutar.

Os netos veem nele segurança e ternura.Um colo que acolhe, um olhar que valida, uma presença que fica. Para eles, o avô não é passado, pois é brincadeira, aprendizagem e tempo de qualidade.

Para mim, o meu pai transforma vida em som.
E eu, como filha, vejo o homem que se reinventa sem perder a essência. Vejo o pai que cria, que cuida e que deixa um legado que se ouve e se sente.

O meu pai não marca apenas o tempo, marca pessoas e gerações.

Parabéns, pai.
Que continues a transformar dias em harmonias e amor em presença

Bj utopico

Dri

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A historia do Cabaz...



Para mim as quartas-feiras não são apenas dias úteis: são pontos de encontro. São dias em que os almoços de amigos funcionam como âncoras no meio da pressa do mundo, lembrando que a vida também se constrói à mesa.
Foi num desses almoços de quarta-feira que surgiu a rifa.  Cada um comprou o seu número com a leveza de quem não espera ganhar, mas quer participar. 
O cabaz acabou por sair ali, no meio do grupo, como se tivesse escolhido sozinho o seu destino. Um cabaz cheio de coisas pensadas para bons momentos: sabores para partilhar, detalhes para saborear devagar, convites silenciosos à pausa e à celebração. Não era apenas um conjunto de produtos, mas um manifesto: a vida é melhor quando é dividida.

E é aí que entra a simbologia do brinde que podemos fazer com este cabaz ou nos almoços de quarta feira, pois brindar não é sorte nem acaso. O brinde simboliza o coletivo, a alegria que não precisa de dono, o gesto simples de erguer o copo e dizer: “que bom estarmos aqui”.

Dos brindes nascem, naturalmente, as resoluções para 2026, mas não como listas exigentes, mas sim como as intenções possíveis:
- continuar a aparecer às quartas-feiras, mesmo sem rifa;
- valorizar os momentos improváveis que acabam por ser os mais importantes;
- brindar mais vezes em conjunto
- lembrar que a sorte maior é pertencer a um grupo que ri junto.

Neste mundo em que vivemos,  o verdadeiro prémio esteve sempre ali: à mesa, entre amigos, numa quarta-feira qualquer que acabou por ser especial.
Bj utopico
Dri

sábado, 29 de novembro de 2025

Os jantares de Natal....



Há jantares de Natal que começam no calendário em Novembro.
Ontem foi um deles. Na verdade, os membros deste jantar chegaram à minha vida sem aviso, como quem entra pela porta da sala com gargalhadas e histórias ainda por contar. E, sem perceber bem como, dei por mim adotada por um grupo que não combina em nada… e que, ao mesmo tempo, combina em tudo.
Somos todos diferentes quer nos ritmos, nas manias, nas gargalhadas e até nas tempestades que carregamos. Mas partilhamos a mesma missão : viver com leveza, rir e pôr o coração no sítio certo cada vez que nos sentamos à mesa.
E é isso que faz nascer a mística destes jantares de Natal que já começam em novembro porque esperar até dezembro seria desperdiçar oportunidades de celebrar.
Nestes encontros, há sempre um brinde que antecede a conversa, uma conversa que antecede a gargalhada, e uma gargalhada que, inevitavelmente, antecede o momento em que o restaurante nos lembra que talvez estejamos a rir um bocadinho alto demais. Mas é assim mesmo: alegria não vem com botão de volume.
As prendas são as mais originais. Temos prendas com todas as classificações: umas úteis, outras absolutamente inúteis, mas todas perfeitas porque carregam a nossa marca e a nossa a espontaneidade do “vi isto e lembrei-me de ti”.
No fim, ninguém sabe bem se celebra o Natal, a amizade, ou a sorte de termos tropeçado uns nos outros na vida.
E quando a noite avança e alguém liga a música, lá vamos nós: a gingar ao som da kizomba, desalinhados mas felizes, como quem dança não para acertar o passo, mas para agradecer à vida o momento.
Por isso, ergamos o copo  pelo Natal, por nós, por este grupo improvável e essencial.
Um brinde às noites que nos encontram juntos.
E outro às gargalhadas que nos expulsam dos restaurantes, mas nunca do coração uns dos outros

Bj utópico 
Dri

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Outono em Madrid


Madrid respira outra textura quando o outono chega.
A cada manhã, o caminho foi um mosaico de cores: ocres, dourados, ferrugem que brilham sob um sol já tímido.
Por sorte o local de trabalho, neste días, foi o Parque do Retiro que se transforma num espelho do tempo.
Os passos sobre o tapete de folhas soam como cartas antigas sendo abertas.
O vento brinca com as sombras e faz parecer que o mundo é feito de véus que cobrem uns ou outros que revelam.
As pessoas apressadas passam, cheias de relatórios, prazos, e-mails por responder, mas o parque insiste em falar mais alto, com uma calma quase insolente.
Trabalho? Sim , mas por instantes que,foram breves, a cidade convidou à pausa.Um café na Plaza Maior e por um segundo o tempo derreteu.As cores dissolveram-se e o laranja virou âmbar, o verde confunde-se com o cobre, e o céu parece pintado à mão, como se alguém tivesse decidido misturar mel e cinza.
E então, no meio da pressa, algo desperta:o som das folhas dançando sozinhas.

E amanhã ? amanhã é dia de voltar ao Porto, a minha cidade.
Levo comigo o som das folhas, o perfume do cafe , e essa certeza suave de que o tempo também sabe ser gentil.
Madrid fica em mim como um suspiro morno de outono.
O Porto, esse, espera -me com o coração aberto e com o cheiro do mar que nunca se esquece.

Bj utópico 
Dri

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

O Vento, os Direitos Humanos e a Música


O vento sopra, não pede licença, não conhece fronteiras, porque ele simplesmente é assim. E talvez seja por isso que ele me faz pensar nos direitos humanos, porque, como o vento, estes deveriam pertencer a todos, sem passaporte, sem muro, sem condição. O vento não pertence a ninguém, e talvez seja o professor mais antigo de liberdade que o planeta conhece pois ele sopra sobre todos: ricos e pobres, certos e errados, santos e pecadores. O vento não escolhe lados, apenas circula, logo ele é mais justo que muitos sistemas humanos.

Nos anos 60, quando as ruas cantavam a liberdade e os cabelos dançavam soltos, um poeta chamado Bob Dylan transformou o vento em pergunta: “How many roads must a man walk down?”
A arte, naquele tempo, foi a respiração dos que não podiam gritar, foi mural, foi melodia, foi poema ou mesmo resistência.

E foi isso que hoje tentei lembrar aos meus alunos: que cada traço, cada palavra, cada acorde é uma semente de futuro. Não apenas o futuro deles, mas o futuro de uma geração que precisa aprender a sentir antes de decidir, a sonhar antes de desistir.

Conclusão hoje o vento, Dylan, os direitos humanos e alunos, tudo se misturou no meio de um turbilhão, mas ainda acredito que um simples sopro de arte pode mover montanhas mais firmes que qualquer estrutura de poder.

Porque o vento não se vê, mas sente-se. E assim também é a liberdade.

Bj utópico
Dri

sábado, 4 de outubro de 2025

Jazz


 Algumas presenças chegam silenciosas, e outras chegam como quem sabe que veio para ficar. A Jazz chegou assim, a nossa  Jack Russell, mas com uma intensidade que preencheu todos os cantos da  casa. 

No início, foi só curiosidade: um olhar que observava, cada gesto, cada respiração. Aos poucos, tornou-se companhia, confidente e afeto que não se mede. 

O Dia do Animal já não é apenas uma data. É um aviso do que significa existir lado a lado com outra vida que não fala, mas se faz ouvir com cada gesto, cada toque, cada pulo de alegria. A Jazz trouxe-nos uma nova forma de celebrar: não com palavras, mas com presença.

Ao acordar com um olá a abanar a cauda, a partilhar silenciosamente o sofá, as suas pequenas travessuras  lembram-nos que a família não se limita a quem partilha sangue, mas também àqueles que tornam os dias mais leves e o coração maior.

E assim, neste Dia do Animal, celebramos a nossa Jazz. Celebramos cada instante que nos lembra que o amor pode caber em quatro patas, e que, às vezes, a maior lição de vida vem de um olhar curioso e de um coração que nos escolheu para ser o seu mundo.

Bj utópico

Dri



quarta-feira, 1 de outubro de 2025

A música e eu

Cresci com a música. Não apenas com os sons que vinham da rádio ou do walkman, mas com a música que o meu pai carrega dentro dele.

Ele tem o hábito de encher o silêncio com melodias, com acordes que entram pela sala, atravessam as paredes e se escondem na memória.

Foi assim que desde pequena aprendi que a música não é apenas som. A música é presença, é afeto que se transforma em notas, é uma herança invisível que molda quem somos, sem pedir licença. A música está em tudo desde o respirar lento das manhãs, no silêncio carregado de lembranças, no barulho da rua, no riso que escapa sem pedir licença ou até mesmo na tristeza que dá ritmo ao choro ao embalar um coração cansado.

A música fez parte da minha infância e da minha adolescencia, mas sempre me acompanhou em todos os caminhos que percorro. E hoje esta ligação à musica atravessa gerações e idiomas com o meu filho e os meus sobrinhos.

Com a música hoje vejo um avô que oferece canções como quem oferece colo. E um neto que recebe notas musicais como quem recebe raízes. E, juntos, criam um espaço onde o tempo não para, porque o que vibra é eterno.

Talvez seja isso a música: um abraço que não conhece idade. 

E quando o dia parece mudo, basta fechar os olhos para que alguma nota escondida desperte dentro de nós.

Bj utópico

Dri


sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Primeira Semana de Aulas

Passou a tua primeira semana de aulas do 6º ano e todos os dias quando te ouço a falar das tuas aventuras, imagino como escreverias o teu primeiro dia se o blog fosse teu:

"Hoje eu acordei com o sol a entrar pela janela. Era meu primeiro dia de escola com onze anos. Na roupa do  uniforme, as cores pareciam mais vivas, e o cheiro do lanche lembrava-me a aventura dos intervalos. Segurei a mochila como se fosse um baú de tesouros, cheio de lápis que prometiam histórias, cadernos que guardavam sonhos, e uma garrafa de água que, na minha imaginação, me podia transformar em qualquer coisa que eu quisesse ser naquele dia.

Quando cheguei à escola, as paredes sussurravam boas-vindas, e cada colega parecia uma personagem de uma banda desenhada com seus próprios poderes secretos. Sentei-me na cadeira, e percebi que este dia não seria só mais um dia de aulas: seria o começo de um universo inteiro que eu ainda nem sabia que podia explorar.

E então, respirei fundo e sorri. Porque, mesmo com o coração a bater forte e a ansiedade a fazer cócegas na barriga, eu sabia que aquele primeiro dia de escola aos onze anos seria só o primeiro capítulo de uma história que eu escreveria com cores, aventuras e sonhos que nunca acabam."

Porque, mesmo que ele esteja a começar esta nova aventura sozinho, eu sei que estarei sempre aqui para cada passo, cada queda e cada vitória.

Bj utópico

Dri


quarta-feira, 23 de julho de 2025

Youtubers, política e redes sociais: quem está a influenciar os jovens portugueses?

Estava a ver uns vídeos no YouTube, quando comecei a pensar : será que os nossos adolescentes estão mesmo a aprender política nas escolas ou estão a formar a sua opinião a ver TikToks, lives no Instagram e stories de influencers? A verdade é que, com a campanha para estas autárquicas, começo a pensar:  E se os youtubers e influencers forem hoje os “professores” de política da nova geração?

Penso que os jovens têm opiniões, causas que os movem (ambiente, igualdade, saúde mental, etc.) e vontade de participar. Só que muitas vezes não se revêm na política “à antiga”: cheia de discursos, debates que mais parecem gritaria e promessas que ninguém cumpre.

Então, onde é que eles vão procurar informação? Nas redes sociais, no TikTok, no YouTube, no Insta, no X (ainda me custa não chamar Twitter ). E quem aparece nesses feeds? Os criadores de conteúdo que eles seguem todos os dias. São eles que falam “à maneira deles” sobre temas sociais, votações, injustiças, leis.

Mas serão estes influencers, formadores de opinião?

Muitos influencers usam as suas plataformas para dar visibilidade a causas importantes, alertar para fake news, ou até explicar temas políticos de forma simples e direta. Às vezes um vídeo de 1 minuto no TikTok consegue fazer mais do que 3 anos de aulas de Cidadania. Mas também há o lado negativo: opiniões mal fundamentadas, desinformação, populismo, ou até manipulação. Quando alguém com milhões de seguidores dá uma opinião sem saber bem do que fala, pode estar a influenciar milhares de jovens que ainda estão a formar a sua visão do mundo.

E isso levanta uma nova questão importante: quem está a ensinar os jovens a pensar criticamente?

Os políticos esquecem, mas adolescentes têm direitos, e não só o direito de estudar , mas também o direito à informação, à participação e à liberdade de expressão. Aliás, em vários países já se fala em dar o direito de voto aos 16 anos.

Se os jovens portugueses estão a formar as suas opiniões políticas no YouTube e no TikTok, então está na hora de apostar na educação para os media e nas escolas, ensinar a distinguir opinião de facto, pedir mais responsabilidade a quem influencia e acima de tudo, dar voz aos jovens nas decisões que também os afetam.

Porque a política não é só votar de 4 em 4 anos. A Política é tudo aquilo que influencia no nosso dia a dia; o preço dos transportes, a qualidade da escola, as mudanças climáticas, a forma como tratamos os outros.

Talvez os nossos políticos e partidos, precisem uma formação de bem-vindos à política versão adolescentes digitais.

Bj utópico

Dri

sábado, 19 de julho de 2025

Verão, Coldplay e Abraços Proibidos


O verão tem este dom: aquece os corpos, mas também aumenta os impulsos, muda as rotinas, solta o que está preso. Talvez por isso tantas verdades venham à tona quando os dias ficam longos demais e as noites, curtas demais para esconder desejos.

Esta semana, uma imagem roubou os holofotes num concerto dos Coldplay em Boston. A kiss cam, usada para mostrar casais apaixonados, expôs uma traição ao vivo, num mar de pessoas e luzes. Estavam abraçados, sorrindo, sem perceber que estavam a ser filmados. O momento que devia ser íntimo tornou-se público, mesmo viral. Originando mesmo que um dos atores se tenha demitido por ser CEO de uma empresa americana .

E hoje, como se o universo gostasse de repetir cenas com outros atores, vi um encontro breve na praceta atrás da minha casa. Dois corpos, dois sorrisos contidos, um abraço longo como quem carrega saudade e urgência ao mesmo tempo. Durou pouco. Depois, cada um seguiu para um lado diferente.

O verão aquece a pele  e promete  liberdade, mas também traz verdades incómodas. Nem sempre o amor aparece com alianças ou promessas claras. Às vezes, o amor está  escondido num concerto, noutras vezes numa praceta por quinze minutos roubados de uma tarde de sábado.

E a traição, afinal, é sempre mais sobre o que falta do que sobre o que sobra.

Bj utopico 

Dri

domingo, 13 de julho de 2025

No calor das audiências, o frio das relações — e o papel do direito


Esta semana senti o calor na temperatura mas também no ar parado das salas de audiência de diferentes cidades que carregam o sol, mas também o silêncio abafado das mágoas mal resolvidas. Foi em diferentes salas do norte do país que ouvi o mesmo eco, o mesmo cansaço e os mesmos conflitos com nomes e rostos diferentes. Era o silêncio que gritava entre um “ela não deixa” e um “ele não cumpre”. As paredes bege, os olhares endurecidos de pais e mães sentados frente a frente, como se ainda estivessem em guerra, mesmo depois do fim do amor.

Assim foi mais uma semana mergulhada em processos de responsabilidades parentais, ou seja, um nome bonito para o que, muitas vezes, é só uma guerra disfarçada pela palavra protecção num cenário de guerra de uma sala de audiencias.

Nestas salas, vi pais e mães que não se escutam. Não por falta de voz, mas por falta de vontade. Mas também vi quem fala alto mas não ouve, vi quem aponta dedo, mas não vê. E vi crianças a ser tratadas como armas, como troféus, como provas de quem “ganha” a luta.

E no meio disso tudo, a Advogada, que também é mulher, filha e mãe, mas que com imparcialidade tentou mediar o impossível, tentou que nascesse a sensatez onde só há raiva acumulada e orgulho ferido. Ser advogada não é só no papel: é carne, é alma, é cansaço, é ver o ego de alguns intervenientes gritar mais alto que o bem-estar da criança, é sentir que, muitas vezes, o que falta não é regra nem lei, mas a empatia. Diria mesmo que falta escuta em todos os intervenientes.

Saí de algumas salas com uma sensação de cansaço e dei por mim, a caminho do escritório, a pensar naqueles pequenos seres que dependem tanto dos adultos que ainda não aprenderam a amar sem condicionar, sem controlar, sem ferir. Ser advogada, nestes casos, não é só aplicar o direito. É carregar histórias mal contadas, mágoas que não cabem nos autos, decisões que nunca são neutras.

Mas ainda assim, sigo. Sigo porque acredito que, entre tanta rigidez, ainda há espaço para todos os intervenientes destes processos conseguirem o recomeço. Nem todos sabem como, mas todos podem aprender a mudar as suas praticas, as suas posturas e o seu cuidado.

E talvez, só talvez, escrever sobre isso seja também uma forma de lembrar: não basta ser pai ou mãe ou avó ou avô ou tio ou tia ou filho ou irmão, advogado, juiz, psicólogo, assistente social ou procurador no papel. É preciso ser, de verdade, na escuta, na presença e no cuidado.

Bj utópico

Dri

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Quem somos, afinal?


Esta pergunta ecoou em mim, pela primeira vez, na adolescência, quando mergulhei nas páginas do livro O Mundo de Sofia.  Na altura, achei que era só mais um livro — uma perspectiva filosófica, diziam os adultos. Mas, hoje ao ouvir os discursos do Dia de Portugal, descobri que aquela pergunta ficou: quem somos? Talvez tenha ficado nas gavetas da memória como uma pedra no sapato ou como uma semente no coração.

A verdade é que hoje, tantos anos depois, ao escutar o discurso da Lídia Jorge — aquela voz que carrega a lucidez serena de quem já viu muito — fui levada de volta ao Mundo de Sofia e das interrogações. Lídia Jorge disse: “Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou.”

E então pensei que podia responder à adolescente que leu o Mundo de Sofia que somos todos mistura.
Mistura de histórias, de dores, de conquistas e silêncios. Somos a criança curiosa e o velho que já desistiu de perguntar. Somos o corpo que dança e a mente que questiona. Somos o que herdámos e o que escolhemos ser. Não há uma identidade pura porque mesmo na natureza não há uma raiz sem ramos.

Dentro de mim vivem as raízes dos meus pais, dos meus avós e dos meus bisavôs, mas vive também a diáspora dos que foram, a esperança dos que vieram, os fantasmas do que foi feito em nome de algo maior ou menor.

E talvez por isso a pergunta não seja só “quem somos”, mas também de quem venho? e quem quero ser agora? Neste mundo que gira cada vez mais depressa, onde nos exigem certezas, talvez o mais revolucionário seja parar e abraçar a complexidade.

Talvez sejamos todos um pouco do Mundo de Sofia. ou seja, filósofos por dentro, mesmo quando ninguém vê.

Bj utópico
Dri

PS- Amanhã tenho de ir a biblioteca dos meus pais procurar o Mundo de Sofia. Ler O Mundo de Sofia aos 40 será como revisitar a adolescencia. Na adolescência, aquele livro era uma revelação em cada página pois cada conceito era uma descoberta, cada filósofo era uma revelação. Hoje, já conheço muitas das perguntas, já tropecei em algumas respostas, mas há uma nova camada: a da experiência. A leitura agora é menos sobre “aprender” e mais sobre “lembrar”. E talvez o segredo esteja aqui perceber que a filosofia continua a perguntar por nós, mesmo quando andamos distraídos com a pressa dos dias.

terça-feira, 3 de junho de 2025

O dia da Criança....


No dia 01 de Junho festejamos o Dia da Criança, mas só hoje tive tempo de escrever sobre esta data. O Dia da Criança não deve ser só mais uma data para balões coloridos e brinquedos embalados. É um convite à consciência. Um alerta de que, por trás dos sorrisos infantis, há uma realidade que ainda grita por justiça, equidade e respeito. 
Ser criança é viver com os olhos abertos para o espanto, é transformar caixas em castelos, é colher estrelas no quintal. É acreditar que o mundo pode ser justo, que os adultos sabem todas as respostas e que o amanhã é sempre uma promessa de aventura.

Mas, neste mundo que construímos, quantas crianças têm o direito de apenas ser? Quantas podem brincar sem medo, sonhar sem limites, crescer sem pressa?

Todos os dias, vejo um fosso doloroso entre a teoria e a prática, um sistema jurídico, que apesar de prever garantias robustas, permanece muitas vezes inoperante diante dos direitos das crianças. Como defendo os direitos da criança ainda são uma utopia para muitas infâncias atravessadas pela desigualdade social, pela violência doméstica, pela negligência. Como li outrora, negligenciar uma criança é amputar o seu futuro em silêncio.

A efetividade dos direitos das crianças não depende apenas da sua previsão normativa, mas de uma atuação concreta do Estado e da sociedade civil. E é aí que falhamos — quando olhamos sem ver, ouvimos sem escutar e calamo-nos diante da desigualdade.

No Dia da Criança, mais do que homenageá-las com presentes, precisamos questionar: o que temos feito para que os direitos das crianças deixem de ser uma utopia e se tornem realidade? Que mundo estamos a construir para elas — e com elas?

Acredito que a esperança deve continuar a ser cultivada como flor teimosa no asfalto. Porque ainda acredito num tempo em que toda criança terá voz, vez e valor. Um tempo em que ser criança será, de fato, sinónimo de proteção, afeto e oportunidade.

Feliz Dia da Criança, todos os dias para que o futuro que desejamos para elas comece com as escolhas que fazemos hoje.

Bj utópico

Dri

quinta-feira, 29 de maio de 2025

As feridas da alma em Lampedusa


É 01h da manhã. A casa está em silêncio, mas cá dentro há um ruído que não me larga. Sinto uma urgência que não me deixa adormecer — a urgência de escrever.
Hoje escrevo com o som suave de Morricone que embala os pensamentos, enquanto a minha cadela dorme tranquila, deitada ao meu lado. Há uma paz estranha neste cenário, mas também um peso no peito. Porque escrever, para mim, é isso: uma forma de resistir à indiferença, de gritar baixinho ao mundo que há coisas que não podemos ignorar. As palavras são pequenas lanternas que acendemos na escuridão. E esta noite, talvez alguém, em algum lugar, as veja… e acorde também.

No dia 27 de Maio , por razões profissionais assisti ao seminário “Migrações: Acolher e Integrar, que desafios?”, uma iniciativa do Município de Valongo. Era só mais uma manhã a falar sobre migrações, pensava eu. Mas não era. Nada foi “só”.
O Dr. Pietro Bartolo, médico de Lampedusa e ex-eurodeputado, subiu ao palco com a voz serena de quem carrega o peso do mundo… e, ainda assim, continua de pé. Conhecido pela sua incansável atuação humanitária junto de migrantes no Mediterrâneo, Pietro Bartolo não nos trouxe apenas dados. Trouxe-nos vidas.

Passaram-se mais de 48 horas e ainda escuto a sua voz. Ainda vejo as imagens. Ainda sinto as histórias.
A sua humildade fez o auditório inteiro estremecer. Com palavras nuas e olhos cansados, fez-nos sentir — na pele e na alma — a dor de quem parte sem saber se chega.Mas também a dor de quem fica para acudir, cuidar, acolher. E que dor é essa, que se cola ao peito como o sal numa ferida aberta.

Pietro Bartolo diz que as feridas da alma são difíceis de curar.E diz isso com a autoridade de quem viu mais do que devia, de quem segurou mãos que já não tinham força, de quem ouviu silêncios que gritavam.

Lampedusa deixou de ser uma ilha distante. Ganhou cheiro, rosto, lágrimas.E eu...ganhei inquietude.

Fico a pensar: quantas fronteiras cabem dentro de uma só vida?
E quem somos nós, se não cuidarmos uns dos outros?

Amanhã, o mundo continuará a girar com a mesma pressa de sempre. Mas eu vou levá-lo comigo — o olhar de Pietro Bartolo, as histórias que não cabem em manchetes, a certeza de que a empatia é uma escolha diária. Porque ouvir, sentir e depois calar… não é opção. Que este texto seja semente. Que nos empurre, mesmo que devagarinho, para um lugar onde ninguém tenha que fugir para poder viver.

Bj utópico
Dri

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Saudade



Hoje recebi uma mensagem simples. Daquelas que, à primeira vista, poderiam passar despercebidas num dia cheio. Mas não passou. Uma mensagem de um amigo. Um amigo que vive do outro lado da fronteira – em Espanha, onde o idioma é outro, o tempo tem outro ritmo, e onde a palavra saudade... simplesmente não existe.

Mas como lhe explicar o que é saudade?

Vou lhe dizer que: Saudade é uma palavra que só existe no português. Mas mais do que uma palavra, é um sentimento. É quando alguém está longe, mas ainda assim muito perto de nós. É quando algo passou, mas continua a viver em forma de memória viva. É querer perto, mesmo entendendo que nem sempre dá. É presença na ausência.

Ele talvez, mesmo sem entender tudo vá responder : “Entonces, yo también te tengo... esa cosa sin nombre.”

E nesse momento, percebemos que talvez não seja mesmo preciso traduzir. Porque sentimentos, quando são verdadeiros, atravessam qualquer idioma. E que a saudade – essa que sentimos- é uma prova bonita de que viver tem sido real, e amizade tem valido a pena.

No meu mundo, a saudade não é dor – é poesia viva. É a lembrança de que, mesmo longe, estamos sempre juntos na amizade

Bj utopico

Dri

terça-feira, 25 de março de 2025

Cidades da minha vida: a surpresa chamada Sitges

O relógio marca 23:18 e uma conversa de WhatsApp, traz a saudade do mar, do sol a aquecer a pele, da brisa salgada a emaranhar os cabelos. Saudades de um lugar que me prendeu sem eu sequer perceber: Sitges.

Não foi uma cidade planeada, não foi um destino de ferias, foi um destino de trabalho. Mas há lugares assim que chegam de mansinho e, quando damos por nós, já deixaram marca. Foi exatamente isso que aconteceu com Sitges.

Lembro-me da primeira vez que a vi. O mar azul intenso a beijar a areia dourada, as ruas estreitas cheias de vida, os edifícios brancos com varandas floridas. Uma espécie de encanto natural misturado com uma energia vibrante. A cada esquina, um detalhe a fazer-me suspirar. Pequenos cafés com mesas na calçada, lojas de artistas locais, o cheiro do Mediterraneo a envolver tudo. Uma cidade que respira arte, liberdade e leveza.

Passear pelo Passeio Marítimo é um daqueles pequenos luxos que fazem a vida valer a pena. O sol a descer devagar, pintando o céu de laranja e rosa. Os grupos de amigos reunidos, os casais de mãos dadas, as crianças a correr. Um cenário simples, mas que me encheu de paz.

Mas Sitges também é feita de pessoas. Os amigos que fiz por lá deram um brilho especial à cidade. As conversas despreocupadas entre tapas e copos de vinho, as gargalhadas espontâneas , a sensação de pertencimento que só um lugar que acolhe bem pode oferecer. Talvez seja isso que me faça sentir saudades.

Talvez seja essa a magia de Sitges. Um lugar onde o tempo desacelera, onde se vive sem pressa, onde a felicidade se encontra nos detalhes. Uma surpresa que ficou. Uma cidade que me prende e me chama de volta.

Hoje, senti saudades. E sei que, mais cedo ou mais tarde, voltarei.


Bj utopico
Dri

A quinta dos Animais ao almoço

Sexta-feira tem ganho um estatuto quase litúrgico. Não pela pressa do fim de semana, nem pelo alívio burocrático das horas que terminam, mas...