quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Matemática e outras ciências exatas

 Tudo começou com uma coisa muito simples: um professor de Matemática e uma partilha no grupo de amigas.

Até aqui, nada de extraordinário.

Só que, como acontece frequentemente nestes grupos, uma simples partilha rapidamente evoluiu para uma investigação científica.

Primeira pergunta:

— Quantos anos terá?

E pronto.

Entrou a Matemática.

Porque uma idade, sozinha, não serve para nada. É preciso comparar.

Fazer uma subtração.

Calcular a diferença.

Depois alguém pergunta:

— Mas isso representa que percentagem?

Percentagem?!

E lá fomos nós buscar a calculadora.

Depois veio a regra de três simples .

Depois outra conta.

Depois alguém:

— Espera, fizeste mal.

E outra:

— Não, não. Está certo.

E eu:

— Façam novamente porque agora já não sei nada. 

A esta altura, já não estávamos a falar de um professor de Matemática.

Estávamos perante um problema matemático complexo com múltiplas variáveis.

-Idade.
-Altura.
-Diferenças.
-Proporções.
-Percentagens.

E assim se formou uma espécie de departamento informal de Matemática Aplicada ao Quotidiano.

Método científico:

1. Observar.
2. Comentar.
3. Levantar uma dúvida.
4. Fazer contas.
5. Desconfiar do resultado.
6. Fazer novamente.
7. Mandar para o grupo.

E se ninguém souber a resposta?

Não há problema.

Abrimos uma nova investigação. 

Porque há problemas de Matemática com uma solução.

E depois há aqueles que envolvem um professor de Matemática e amigas com demasiado tempo para fazer contas.

Esses são claramente os mais complicados.

Mundo Utópico da Dri 

Nota científica: qualquer semelhança com pessoas ou professores reais é pura coincidência. A Matemática, essa, é rigorosamente aplicada.

sábado, 12 de setembro de 2026

Recomeçar é voltar a pintar

 Hoje na festa de anos do meu filho , enquanto via os adolescentes a pintar , descobri que a vida pode ser uma tela.

Começamos a pintá-la sem saber muito bem o que estamos a fazer. Escolhemos cores, fazemos riscos, experimentamos formas. Algumas resultam. Outras nem por isso.

Há fases em que olhamos para a tela e pensamos: isto não era nada o que eu tinha imaginado.

Podemos mudar a cor. Acrescentar uma camada. Cobrir aquilo de que já não gostamos. Fazer um risco por cima de outro. Recomeçar.

Na vida fazemos exatamente o mesmo.Mudamos de ideias. Mudamos de pessoas. Mudamos de sonhos. Mudamos de caminho.E, às vezes, aquilo a que chamamos “recomeçar” é simplesmente continuar a pintar com outras cores.

Tenho cada vez mais vontade de ser como Miró: não ter medo de deixar espaço para o inesperado, de misturar cores improváveis, de desenhar sem precisar que tudo faça sentido para os outros.

Talvez a vida seja uma tela que tenha a nossa marca com as cores dos dias felizes, os riscos dos dias difíceis, os borrões dos erros e aquelas pequenas manchas que, vistas de longe, acabam por fazer parte da composição.

E se amanhã não gostar do que pintei hoje?

Posso sempre pegar novamente no pincel.

Recomeçar não é apagar a nossa história.
É acrescentar-lhe uma nova cor. 

Mundo Utópico da Dri

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O regresso dos almoços de sexta-feira

 Há tradições que regressam sem precisarem de grande anúncio.E os almoços de sexta-feira são uma delas.

Depois de uma pausa, voltámos à estrada. E rapidamente percebi que estes almoços têm muito de corrida de rali.

Há curvas apertadas.Contracurvas.Acelerações inesperadas.
Momentos em que o carro vai mais baixo do que gostaríamos.

E, como em qualquer bom rali, o importante não é evitar todas as curvas, mas saber controlá-las.

Porque num almoço de sexta nunca sabemos bem o que vai acontecer. Começamos com uma conversa tranquila, passamos por um tema mais complicado, aceleramos numa opinião, travamos numa decisão e, quando damos por isso, já estamos noutra curva completamente diferente.

Mas uma boa equipa sabe que não precisa de ter uma estrada direita, mas precisa é de saber navegar.

E aqui entra uma figura fundamental: o fiel da balança.

Aquela pessoa que mantém a cabeça fria quando o resto da equipa já está a fazer drift.

Protege os dados, segura a informação, chama-nos à realidade quando é preciso e, sobretudo, ajuda a manter a equipa dentro da estrada.

Porque num rali, tal como na vida e no trabalho, não basta ter um bom piloto.

É preciso uma boa equipa: uns aceleram, outros travam, uns arriscam a curva, outros avisam que talvez seja melhor não abusar e há sempre aquele que, no meio da confusão, consegue dizer:“Calma. Vamos lá controlar isto.”

E talvez seja essa a verdadeira magia dos nossos almoços de sexta, pois não é apenas comer parar, mas para:

  • conversar;

  • alinhar ideias;

  • rir;

  • resolver coisas que durante a semana parecem enormes.

E, sobretudo, é voltar à estrada juntos com algumas curvas pelo caminho. Mas com a certeza de que, enquanto houver equipa e um bom fiel da balança, conseguimos chegar ao fim da etapa.

Sexta-feira voltou.
A equipa também.
E o rali está oficialmente aberto.


Mundo Utópico da Dri




quinta-feira, 3 de setembro de 2026

As gravatas da nossa vida

 Ontem, num jantar, dei por mim a olhar para as paredes.

Não eram quadros, nem fotografias, nem aquelas decorações que normalmente tentamos interpretar num restaurante. Eram gravatas.

Gravatas às riscas, às bolas, lisas, mais discretas, outras bastante exuberantes.

E cada uma tinha uma história.

Ou pelo menos era isso que a decoração nos convidava a imaginar.

Fiquei a pensar como é curioso aquilo que escolhemos vestir e como, muitas vezes, acaba por dizer qualquer coisa sobre nós.

As riscas parecem-me organizadas. Pessoas que gostam de saber para onde vão, que fazem listas, que têm planos , mesmo que depois a vida trate de os alterar.

As bolas são outra coisa. Têm qualquer coisa de descontraído, de divertido. Talvez pertençam a quem não leva tudo tão a sério e ainda consegue encontrar graça no meio da confusão.

As lisas parecem mais seguras. Discretas. Não precisam de chamar a atenção.

E depois há as gravatas que não cabem em nenhuma destas categorias.

Talvez sejam as melhores.

Porque também nós somos assim.

Temos dias às riscas e dias às bolas.

Dias em que sabemos exatamente o que queremos e outros em que andamos completamente às voltas.

Há momentos em que somos discretos e outros em que precisamos de ocupar espaço.

Há fases em que queremos controlar tudo e outras em que simplesmente deixamos acontecer.

E talvez seja essa a graça de olhar para aquelas gravatas penduradas numa parede: perceber que não existe uma gravata que defina uma pessoa inteira.

Somos feitos de muitas versões.

Do profissional que aparece durante o dia, do pai ou da mãe ao jantar, do amigo que faz rir, da pessoa que chega a casa cansada e já não quer falar com ninguém.

Somos aquilo que mostramos e também aquilo que ninguém vê.

Por isso, talvez a pergunta não seja “que gravata usarias?” Mas parte de ti está hoje ao comando?A das riscas?A das bolas?A mais discreta?Ou aquela que decidiu, simplesmente, aparecer sem seguir padrão nenhum?

No fundo, talvez aquelas gravatas nas paredes fossem apenas decoração.

Mas fiquei a pensar que, se cada uma pudesse realmente contar uma história, provavelmente descobriríamos que por trás de cada padrão existe uma pessoa cheia de contradições, escolhas, memórias e dias bons e maus.

Tal como nós e talvez seja isso que torna cada pessoa interessante: nao o padrão que escolheu mostrar, mas tudo aquilo que existe por baixo da gravata.

Mundo Utópico da Dri



domingo, 30 de agosto de 2026

Montargil

Há lugares que parecem feitos para nos lembrar que a vida também pode ser devagar.

Dias de férias em que o relógio deixa de mandar, o corpo pede descanso e a única preocupação é decidir entre a piscina, uma sesta ou mais um mergulho. 

Montargil tem esse encanto.

O verde, a água, o calor do Alentejo, os finais de tarde dourados… e aquela sensação maravilhosa de que, por alguns dias, não precisamos de ir a lado nenhum.

Só ficar.

Ficar na conversa.
Ficar dentro de água.
Ficar a ver o pôr do sol.
Ficar com quem gostamos.

E talvez seja isso que procuramos nas férias: não fazer mais, mas sentir mais.

Guardar imagens como esta, que daqui a uns anos nos façam fechar os olhos e voltar exatamente àquele momento.

Porque há férias que passam.

E há férias que ficam. ❤️

Montargil, verão e a doce arte de não ter pressa.

Bj Utópico Dri 



sábado, 29 de agosto de 2026

Feliz 12.º aniversário!

 Ok… chegámos oficialmente à fase em que a mãe já não percebe metade do vocabulário.

“Farmar aura”, “sigma”, “bro”, “cringe”, “W”, “L”…

Agora temos um pré-adolescente a entrar oficialmente na adolescência, com opiniões fortes, respostas rápidas e com uma capacidade extraordinária para dizer “já vou” e aparecer 40 minutos depois.

Mas, no meio de todo este novo idioma, das mudanças de humor e desta maravilhosa aventura chamada adolescência, continuo a olhar para ti e a pensar: como é possível aquele bebé ter chegado já aos 12 anos?

Espero que continues a “farmar aura” pela vida fora, mas que seja aura de pessoa boa, divertida, generosa, corajosa e com personalidade própria. Que tenhas confiança para seres tu, mesmo quando todos à tua volta parecem querer ser iguais. Que saibas rir de ti próprio, porque isso vai dar muito jeito nos próximos anos. E que nunca percas essa capacidade de te entusiasmares, de sonhar e de viver as coisas à tua maneira.

A adolescência chegou e eu prometo tentar acompanhar as trends, perceber o vocabulário e não passar demasiada vergonha em público.

Feliz 12.º aniversário!

Que este novo nível seja um verdadeiro W. E lembra-te: podes até ser o rei de “farmar aura”… mas para mim vais ser sempre o meu menino. ❤️

Amo-te daqui até à lua e sim, isso ainda é uma expressão permitida.

Bj utópico

Dri

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O Pianista

 Esta manhã, enquanto “Shallow” tocava ao piano, as pessoas serpenteavam entre o buffet: umas com pratos na mão, outras à procura do café, algumas ainda meio adormecidas.

Havia conversas, risos, cadeiras a arrastar e, aqui e ali, o choro de um bebé.

Porque um pequeno-almoço de hotel com crianças também pode, em certos momentos, ser uma espécie de cenário de guerra. 

A minha mesa ficava perto do pianista. Bebia o meu americano devagar e fiquei a observá-lo.E pensei: qual será a sensação de tocar piano neste cenário? O pianista  sabe que não tem propriamente uma plateia. As pessoas estão ali para comer. Algumas conversam, outras procuram os ovos mexidos, há crianças a pedir sumo e bebés que decidiram anunciar ao mundo que já acordaram.

E ele toca.

Foi impossível não me lembrar do filme  O Pianista de Roman Polanski, e da imagem tão forte de um homem agarrado à música quando tudo à sua volta parecia ter perdido o sentido. A lembrança do filme não será pela história deste, naturalmente — as situações são incomparáveis — mas pela imagem de alguém agarrado ao piano enquanto tudo acontece à sua volta.

Aqui, felizmente, a “guerra” é apenas a do pequeno-almoço familiar. 

Mas há qualquer coisa de bonita naquele pianista continuar a tocar, mesmo sabendo que provavelmente será ouvido por muito menos pessoas do que aquelas que estão na sala.

Ele toca.

Nós comemos.

As crianças fazem barulho.

As conversas continuam.

E, no meio de tudo, há música.

Pensei que talvez seja essa a particularidade de alguns músicos: conseguem transformar-se em banda sonora da vida dos outros, mesmo quando quase ninguém dá por isso.

Mundo Utópico da Dri

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Piscina Infinita

 Há lugares onde o silêncio parece fazer parte da decoração.

Uma piscina infinita, rodeada de palmeiras, água morna e um céu nublado que, apesar de tudo, não consegue roubar o calor ao dia.

À volta, quase ninguém fala.

Há pessoas nas espreguiçadeiras a ler. Um bebé dorme tranquilamente ao colo da mãe. Outro, mais adiante, parece ter decidido que o melhor lugar do mundo é precisamente aquele onde está, embalado pelo som da água.

Entro na piscina. A água está morna, o corpo agradece e começo a nadar. Umas piscinas para cá, outras para lá. Sem pressa. Só o som discreto da água e a minha respiração.

Até que, enquanto recupero o fôlego junto à borda, começo a ouvir uma conversa.

Um casal jovem que falava da sua relação Mais concretamente, de ciúmes ( Eu não queria ouvir. Juro. Mas há conversas que chegam até nós sem pedir licença.) 

Ele parecia incrédulo com alguma coisa que ela dizia.E então ouvi: Eu gosto que tenhas ciúmes.

Parei! 

Ela continuou a explicar.Para ela, o ciúme era uma prova de amor. Uma demonstração de interesse. Uma espécie de confirmação de que o outro se importa.

Ele parecia cada vez mais abismado. Eu, confesso, também.Mas ela tinha uma coleção inteira de argumentos para defender aquela ideia.

Comecei a pensar que neste discurso se está a confundir, amor com posse, preocupação com controlo, intensidade com sofrimento e ciúme com paixão.

Talvez porque fomos ensinados a acreditar que, quando alguém gosta realmente de nós, tem medo de nos perder.E esse medo, em algumas relações, acaba transformado numa espécie de certificado de amor.

“Se tem ciúmes, é porque gosta.” - Mas será?Será que amar alguém significa querer saber onde está, com quem está, porque demorou a responder, quem comentou aquela fotografia ou porque é que olhou para determinada pessoa?

Será que o ciúme aproxima?

Ou vai, pouco a pouco, diminuindo o espaço que cada um precisa para continuar a ser quem é?

Uma relação tóxica nem sempre começa com alguém que controla e alguém que sofre.

Às vezes começa com duas pessoas que aprenderam a chamar amor a coisas que, vistas de fora, nos parecem completamente diferentes.

E talvez seja essa uma das partes mais difíceis das relações: perceber que nem tudo aquilo que sentimos é necessariamente saudável só porque é intenso.

Voltei a nadar. Depois saí da água e aproveitei os poucos raios de sol que finalmente apareceram para me deitar na espreguiçadeira e secar.

Talvez a verdadeira piscina infinita de uma relação seja ter alguém ao lado sem deixar de ter espaço para ser quem somos.

Mundo Utópico da Dri

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Killing Me Softly

Killing Me Softly

Há encontros que começam com um copo.

E depois há aqueles que começam com um copo e acabam por nos dar uma história inteira para contar.

Foi num bar de hotel, algures no Alentejo.

O ambiente era daqueles em  que estão famílias jovens espalhadas pelas mesas, casais a conversar, grupos de amigos, copos a tilintar….

Ao fundo, uma cantora começou a cantar Killing Me Softly. 

E foi então que reparei neles, sentados ao balcão, lado a lado.

Ele, de whisky na mão.

Ela, com um Baileys.

Ambos vestidos de branco, num contraste quase cinematográfico com a madeira escura do bar.

Ele falava.

Ela ouvia.

Ele continuava a falar.

Ela continuava a olhar.

E a música dizia killing me softly…

Não sei se ele estava a contar a história da vida dele , a explicar o mundo, a falar do trabalho, de uma viagem ou simplesmente a aproveitar uma audiência particularmente paciente.

Ela, entretanto, tinha desenvolvido uma técnica admirável: olhar 

Olhava para ele.

De vez em quando sorria.

Dava um gole no Baileys.

E voltava a olhar.

há qualquer coisa fascinante nos encontros que observamos de longe, pois nunca sabemos a história toda.

Por isso não sei se ela estava encantada com aquilo que ele dizia ou se, interiormente, já estava a cantar:Strumming my pain with his fingers…”

Porque, afinal, ninguém quer ser “killed softly” logo no primeiro encontro.

Ou quer?

Mundo Utópico da Dri


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Mulheres conservadoras: uma nova conversa sobre o que significa ser mulher

 Nos últimos tempos, começou a surgir com cada vez mais força uma expressão que me desperta curiosidade: “mulheres conservadoras”.

Não porque me identifique com o conceito. Não sou uma mulher conservadora. Mas porque acho interessante observar aquilo que esta nova temática está a revelar sobre a forma como as mulheres estão a olhar para a sua própria vida.

Nas redes sociais, multiplicam-se mulheres que falam de família, casamento, maternidade, feminilidade, cuidado da casa, papéis tradicionais e de uma vontade de recuperar determinados valores que consideram ter-se perdido. Algumas apresentam esta escolha como uma espécie de regresso às origens. Outras como uma reação ao cansaço de uma sociedade onde parece que temos de ser tudo ao mesmo tempo.

E talvez seja precisamente aí que esteja a parte mais interessante desta conversa:

  • Porque é que este discurso está a encontrar tanto espaço agora?

  • Será apenas uma tendência das redes sociais?

  • Será uma reação a algumas mudanças sociais das últimas décadas?

  • Ou será que existe realmente uma geração de mulheres cansada da ideia de que tem de conquistar tudo, provar tudo e conseguir conciliar tudo?

Não tenho respostas definitivas. Gosto mais de observar esta mudança e pensar sobre ela.

Durante muitos anos, a luta das mulheres esteve muito ligada à possibilidade de escolher: estudar, trabalhar, ter independência, amar quem quisessem, decidir se queriam ou não ser mães, construir uma vida diferente daquela que lhes estava destinada.

Por isso, é curioso assistir agora a mulheres que dizem escolher precisamente alguns desses papéis tradicionais, mas por vontade própria. E aqui está a questão que me parece mais importante: Quando uma mulher escolhe uma vida tradicional, essa escolha deixa de ser feminista?

Não sei se a resposta é assim tão simples.

Também não acho que devamos romantizar o passado. Muitas das limitações impostas às mulheres nesse passado eram tudo menos bonitas. Mas também não precisamos de fingir que todas as mulheres desejam exatamente o mesmo tipo de vida.

Talvez o verdadeiro desafio esteja em aceitar que a liberdade também pode produzir escolhas com as quais não concordamos.

Uma mulher pode querer uma carreira exigente. Outra pode querer dedicar-se aos filhos. Outra pode querer as duas coisas. Outra pode não querer nenhuma. E talvez nenhuma delas precise de uma etiqueta para justificar a sua escolha.

O que me interessa nesta nova conversa sobre as “mulheres conservadoras” não é decidir quem tem razão.É perceber o que esta tendência diz sobre o nosso tempo.

Porque todas as tendências sociais nascem de alguma coisa. E quando tantas mulheres começam a falar de uma vida mais simples, de família, de feminilidade ou de papéis tradicionais, talvez valha a pena perguntar o que estão realmente a procurar. Será pertença? Será estabilidade?Será uma reação à velocidade do mundo. Será uma escolha?

Não sou conservadora.Mas acredito que devemos conseguir olhar para esta temática sem medo, sem rótulos e sem transformar imediatamente uma escolha diferente da nossa numa ameaça.

Afinal, se lutámos tanto para que as mulheres pudessem escolher o seu caminho, talvez devêssemos também aprender a respeitar os caminhos que não escolheríamos para nós.

E essa reflexão, para mim, é muito mais interessante do que decidir quem é conservadora e quem não é.

Mundo Utópico da Dri



sábado, 22 de agosto de 2026

Alentejo

 Entre campos dourados, oliveiras antigas, aldeias brancas e estradas que parecem não ter fim, existe uma tranquilidade difícil de explicar. Aqui, o tempo parece andar mais devagar e cada paisagem convida a parar, respirar e simplesmente estar.

No Alentejo, há beleza nas coisas simples: um café bebido numa praça tranquila, o cheiro da terra aquecida pelo sol, o sabor de um pão alentejano acabado de cortar ou o silêncio de um fim de tarde pintado de laranja.

É uma terra de horizontes largos e de histórias guardadas nas pedras dos castelos, nas ruas estreitas das aldeias e nas mãos de quem mantém vivas as tradições.

Talvez seja isso que torna o Alentejo tão especial: a capacidade de nos lembrar que não precisamos de correr sempre. Que viajar também pode ser parar para olhar, escutar e sentir .

E quando o sol se põe sobre os campos, deixando o céu em tons de fogo, percebemos que há lugares que ficam connosco muito depois de partirmos.

O Alentejo é assim: uma pausa bonita no caminho, um lugar onde o coração aprende novamente a andar devagar.

 


Mundo utópico da Dri 



sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Essa Tal Liberdade: quando a música nos devolve a nós próprios

 Há músicas que não se ouvem apenas. Sentem-se.

Quando começam a tocar e, sem percebermos muito bem como, alguma coisa dentro de nós muda. O corpo abranda, a memória desperta e somos levados para lugares que já não existem da mesma forma, mas que continuam a viver dentro de nós.

Foi assim que voltei a ouvir “Essa Tal Liberdade”, na voz de Alexandre Pires e Seu Jorge.

A liberdade de fechar os olhos e deixar que uma música nos leve para outro tempo. Para aqueles anos em que tudo parecia possível, em que as emoções eram vividas sem tantas reservas e em que certas canções ficaram ligadas a pessoas, noites, viagens, amores, encontros e despedidas.

Há músicas que guardam pedaços da nossa história. Basta ouvirmos os primeiros acordes para uma memória aparecer inteira: uma rua, uma casa, uma voz, um abraço, uma gargalhada. Às vezes até nos lembramos de quem éramos naquele momento — e percebemos o quanto mudámos desde então.

“Essa Tal Liberdade” fala-nos precisamente dessa vontade de sermos livres, de deixarmos para trás aquilo que nos prende e de voltarmos a escolher a nossa própria vida.Mas talvez exista uma outra liberdade, mais silenciosa, que a música nos oferece: A liberdade de sentir sem explicar.

A liberdade:

  • De voltar atrás por alguns minutos.

  • De matar saudades sem precisar de dizer de quem.

  • De sorrir por uma lembrança que ninguém mais conhece.

  • De dançar, mesmo quando o dia lá fora está cinzento.

  • De deixar o coração viajar para onde quiser.

E talvez seja por isso que algumas músicas nunca envelhecem. Nós envelhecemos. As nossas vidas mudam. As pessoas seguem caminhos diferentes. Os lugares transformam-se. Mas há canções que permanecem exatamente onde as deixámos — à espera de que um dia voltemos a carregá-las no coração.

Hoje, ao ouvir “Essa Tal Liberdade”, pensei em todas essas pequenas versões de mim que ficaram espalhadas pelo caminho.

Mas senti gratidão pelas memórias bonitas, por aquelas que me doeram e me fizeram crescer, pelas pessoas que passaram pela minha vida e sobretudo, pela liberdade de ainda podermos sentir tudo isso através de uma simples música.

Porque talvez a verdadeira liberdade seja esta: podermos fechar os olhos, ouvir uma canção e, durante alguns minutos, sermos novamente quem quisermos.

Hoje, escolho ser aquela pessoa que ainda sabe dançar com as memórias e que ainda acredita que há músicas que não se ouvem porque apenas se sentem.

Bj Utópico Dri



terça-feira, 11 de agosto de 2026

Sobre diárias e menus .....

Foi durante um café que começámos a falar de diárias. Não de despesas, nem de contas, nem propriamente do valor que se recebe para almoçar. Falávamos das diárias como conceito. Daqueles menus que aparecem à porta dos restaurantes e que dizem, de uma forma muito simples, o que há para comer naquele dia.

O conceito de diária, tem qualquer coisa de simples, pois não promete experiências, não fala em degustações e não anuncia desconstruções, pois é apenas uma refeição. E talvez seja precisamente aí que começa o que é bom na gastronomia portuguesa.

Se falarmos de gastronomia portuguesa, de repente tínhamos uma lista enorme de coisas que são boas: o pão, o azeite, os queijos, o peixe, os mariscos, a carne, as sopas, os enchidos, o arroz, as batatas..... Porque talvez a nossa riqueza não esteja apenas nos produtos, mas na forma como os juntamos e no tempero

Talvez a gastronomia portuguesa tenha pormenor de não precisar de explicar demasiado, pois um bom peixe não precisa de uma história de vinte linhas ou um caldo verde não precisa de ser reinventado. Aliás há pratos que são tão nossos que basta dizermos o nome e já sabemos quase tudo.

Falámos também dos menus e fiquei a pensar que talvez a diária seja uma pequena instituição portuguesa. Há qualquer coisa de reconfortante em chegar a um restaurante e perguntar:

— O que é a diária hoje?

E alguém responder. Sem grandes cerimónias. Sem precisarmos de escolher entre vinte e sete possibilidades. Ou seja, a capacidade de nos fazer felizes sem grande complicação com uma mesa, um prato, uma conversa e um café no fim. Se déssemos mais valor a estas pequenas coisas, não transformaríamos necessariamente todos os restaurantes em restaurantes de luxo.

Talvez o nosso maior património gastronómico continuasse a estar naqueles lugares onde se come bem sem ser preciso explicar porquê.

Sem dúvida, que há conversas que começam num café, mas há ideias que ficam connosco muito depois de a chávena estar vazia.

Até porque uma boa refeição raramente acaba quando se termina o prato. Às vezes continua na conversa. Na memória. E, claro, na vontade de voltar.

Foi assim que terminou o café.

A diária ficou por ali.

Mas a gastronomia ficou na conversa.

E talvez tenha sido essa a melhor parte.

Bj utópico,

Dri



quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A sopa com gelo e outras lições improváveis

Há dias que começam com um plano. Outros começam com uma publicação nas redes sociais.

Foi assim que tudo aconteceu: uma loja descoberta quase por acaso, daquelas que nos fazem pensar: "Como é que eu ainda não conhecia isto?". Uma conversa, um convite para almoçar e a certeza de que, às vezes, o algoritmo até acerta.

Depois veio a viagem de Uber. Digamos apenas que o percurso teve mais emoção do que o esperado pois entre desvios, trânsito e aquele momento em que nos perguntamos se o GPS e o motorista estão mesmo a viver a mesma realidade, lá chegámos mas inteiros. E isso já conta como uma vitória.

Mas o verdadeiro protagonista do dia ainda estava para aparecer. O calor apertava tanto que alguém resolveu inovar e servir... sopa com gelo.

Há quem diga que a criatividade não tem limites. Eu acrescentaria que o calor também não. A partir daí, a questão deixou de ser se fazia sentido, mas passou a ser simplesmente aceitar que há dias em que a realidade consegue ser mais criativa do que qualquer guião.

E talvez seja essa a maior reflexão.

Passamos tanto tempo à procura de planos perfeitos que nos esquecemos de que são os momentos inesperados que acabam por ficar na memória. Não foi a loja, nem sequer o Uber atribulado que tornaram este dia especial mas foi a sucessão de pequenas histórias, o riso partilhado e a capacidade de transformar um detalhe tão improvável como uma sopa com gelo numa daquelas recordações que serão contadas vezes sem conta.

Porque, no fim de contas, há dias em que o melhor investimento não está nas compras, nem nas deslocações, nem no almoço: está  na boa disposição.

Bj utópico 

Dri








domingo, 26 de julho de 2026

Avós: o amor que nos ensina a abrandar


 Há amores que chegam de rompante e outros que crescem devagar, como uma árvore que cria raízes profundas. O amor entre avós e netos pertence a essa segunda categoria. Não faz barulho, não pede atenção, simplesmente existe. E talvez por isso seja um dos mais puros que conhecemos.

Os avós têm um dom raro: fazem-nos sentir que o tempo pode esperar. Ao lado deles, as horas correm mais devagar. Há sempre tempo para ouvir uma história repetida pela décima vez, para preparar aquele bolo que sabe sempre à infância ou para um abraço que parece curar os dias mais difíceis.

Ser avó ou avô é muito mais do que ver uma família crescer. É voltar a viver a infância através dos olhos dos netos, é ensinar sem impor, é amar sem esperar nada em troca. É descobrir que o coração consegue aumentar de tamanho quando chega um neto.

E os netos... os netos são a continuidade da vida. São a alegria que ilumina os dias, o motivo para voltar ao parque, brincar no chão, rir das pequenas coisas e acreditar que o futuro vale sempre a pena.

A pandemia lembrou-nos daquilo que tantas vezes damos por garantido. Houve um tempo em que os abraços ficaram do outro lado de uma janela. Os beijos foram substituídos por acenos e o carinho teve de encontrar outras formas de chegar. Mas, curiosamente, foi nessa distância que percebemos a força deste amor. Nem o vidro, nem os metros de separação conseguiram impedir que avós e netos continuassem ligados.

Hoje, que podemos voltar a abraçar quem amamos, talvez devêssemos fazê-lo com mais intenção. Porque aprendemos, da forma mais difícil, que um abraço nunca é apenas um abraço. É presença. É conforto. É memória. É amor.

Neste Dia dos Avós, que saibamos agradecer a quem nos ensinou tanto sem precisar de grandes discursos. A quem nos mostrou que a riqueza está nos gestos simples, na mesa posta, nas mãos enrugadas que continuam a cuidar e no colo que nunca deixa de existir, independentemente da idade.

Porque os avós não vivem apenas nas fotografias da nossa infância. Vivem em cada valor que nos transmitiram, em cada tradição que mantemos e em cada abraço que hoje podemos voltar a dar.

E que nunca mais precisemos de uma janela para dizer: "Gosto de ti." ❤️

Bj utópico 

Dri 







sexta-feira, 24 de julho de 2026

Sexta-feira: mulheres, chuva e cromos... porque sim!

 Há uma regra que nunca falha nos almoços de sexta-feira: cumprir a sequência do almoço. Ou seja, primeiro chegam os copos.: vinho para uns, água para os mais conscientes e Coca-Cola para aqueles que ainda acreditam que a cafeína é uma filosofia de vida. Segundo aparecem os pratos com as múltiplas alterações ao prato original. Mas a verdade é que uma boa conversa não pode começar de boca seca.

E o tema desta semana prometia: As mulheres têm problemas? Foi só lançar a bomba para se abrir oficialmente mais uma sessão extraordinária da Assembleia da República das Sextas-Feiras.

Descobrimos rapidamente que as mulheres têm problemas, mas também têm soluções. E quando não têm soluções? Inventam novos problemas, só para não deixar a conversa morrer. Afinal, alguém tem de manter o entretenimento.

Pelo meio, alguém puxou pelo Marco Paulo e quando aparece o Marco Paulo já ninguém sabe muito bem se estamos a falar de música ou de terapia de grupo. Entre uma gargalhada e outra, surgiu a inevitável referência à “louca na cama”. Ninguém percebeu exatamente como lá chegámos. Mas também alguém percebe como é que as conversas das sextas chegam onde chegam? Há um GPS próprio para isto  funciona sem satélite.

Lá fora começou a chover e bastaram duas gotas para alguém cantar “Chuva no Telhado”……. E juntos cantamos…...mas não sabemos se a música ficou afinada. A chuva até parecia perceber que estava a assistir a um espetáculo. Isto promete uma ida ao Karaoke.

Quando pensávamos que o assunto já não podia fugir mais do tema inicial, alguém falou em cromos de futebol. Percebemos que as mulheres e os cromos têm muito em comum porque: há os repetidos, há aqueles que toda a gente quer trocar, há os raríssimos e há sempre um que falta completar a coleção.

Quanto à presença masculina, hoje, resumiu-se praticamente a um exemplar.

Dira mesmo um sobrevivente ou um corajoso. Um homem sentado no meio de um autêntico congresso feminino sobre problemas, emoções, teorias, músicas, chuva e cromos. Não sabemos se saiu traumatizado, iluminado ou apenas feliz por ter sobrevivido para contar a história.

No fundo, estes almoços são exatamente isso, pois não interessa o menu, nem interessa o tema, nem sequer interessa se está sol ou chuva.

O importante é que, à sexta-feira, conseguimos provar cientificamente que uma conversa pode começar com vinho, passar pelas mulheres, fazer um desvio pelo Marco Paulo, apanhar chuva no telhado, colecionar cromos de futebol e ninguém achar estranho.

Aliás seria estranho falar apenas de um assunto do princípio ao fim, porque isso não seria um almoço de sexta, mas sim uma reunião.

Conclusão: as mulheres até podem ter problemas, mas os homens têm o azar de pensar que os conseguem resolver

Bj utópico

Dri



quinta-feira, 23 de julho de 2026

O idioma das amizades

Há dias em que penso que a língua é uma espécie de casa antiga: tem portas que já não abrimos, tem janelas que deixámos de usar, tem divisões onde antes vivíamos e agora apenas passamos. Os idiomas que falamos, os que herdámos, os que aprendemos, os que inventamos com quem amamos, na realidade são mapas da nossa história. E, no entanto, às vezes deixamos que a pressa do mundo nos roube a delicadeza de os habitar.

E com o tempo fomos perdendo: o hábito da escrita antiga, da letra desenhada com cuidado, do tempo de escrever sem urgência e das cartas que eram quase um abraço. Hoje escrevemos mensagens rápidas, frases curtas, palavras que chegam mas não pousam. E, quando damos por isso, percebemos que a língua mudou ou fomos nós que mudámos dentro dela.

Nas amizades, a língua é mais do que comunicação: é cuidado. Há amigos com quem falamos num idioma que só existe ali . Diria mesmo que seria uma mistura de memórias, piadas internas, silêncios confortáveis e palavras que não precisam de tradução. É uma língua secreta, feita de confiança. E quando cuidamos dessa língua estamos a cuidar da amizade, a responder com atenção, a escrever com presença, a escolher palavras que não ferem e a oferecer frases que acolhem.

E talvez o melhor exemplo dessa língua que cuida esteja naquele nosso grupo de WhatsApp dos almoços de sexta. Ali, a amizade tem gramática própria: piadas que só fazem sentido para quem viveu as mesmas histórias, indiretas que são mais carinho do que crítica, stickers que substituem abraços, emojis que dizem “estou aqui” sem precisar de mais nada.

Por vezes, é uma língua imperfeita, rápida, cheia de riso, mas profundamente humana.
E cada mensagem, por mais simples que pareça, é uma forma de cuidado. No fundo, a língua é o lugar onde a amizade se torna visível e cuidar da língua, mesmo num grupo de WhatsApp, é cuidar da amizade , da vida e uns dos outros.

Bj utópico

Dri



sexta-feira, 17 de julho de 2026

Sextas-feiras que sabem a Oreo e a sonhos na savana

Mais uma sexta-feira, mais um almoço. Porque, no nosso pequeno ritual semanal, a sexta só começa quando alguém diz: “Vamos?”. E lá fomos nós, atravessando o calor como quem atravessa um deserto com esperança de encontrar um oásis... ou, pelo menos, uma esplanada com um guarda-sol minimamente comprometido com a sua função.

As roupas Tigresse fizeram a sua entrada triunfal, transmitindo a ilusão coletiva de que, por momentos, estávamos num resort qualquer e não a meio de uma sexta-feira de trabalho. E o guarda-sol, coitado, decidiu que também já tinha dado o que tinha a dar e, ao primeiro sopro de vento, levantou voo, como quem recebe uma proposta melhor na mesa do lado.

Entretanto, chegou a estrela do almoço: a mousse de Oreo. Daquelas sobremesas que vêm para a mesa com ar de quem vai durar uns bons minutos... e desaparecem antes de conseguirmos tirar uma fotografia decente. Oficialmente era para partilhar.

Depois chegaram os inevitáveis orçamentos. Porque somos adultos... ou gostamos de fingir que somos. Orçamentos para viagens, para escapadinhas, para planos que começam com um “e se...” e acabam com alguém já a escolher hotéis como se a decisão estivesse tomada. Fazemos contas, abrimos calculadoras, fechamos calculadoras e, no fim, percebemos que sonhar continua a ser gratuito. Felizmente.

E foi aí que a Tailândia entrou na conversa. Entre pesquisas e gargalhadas, já nos imaginávamos numa viagem em grupo, a saltar de ilha em ilha, a descobrir piscinas de um azul impossível, daquelas que parecem ter sido pintadas à mão, a colecionar pores do sol e a terminar os dias com uma massagem tailandesa capaz de desfazer até o cansaço que ainda nem tivemos tempo de acumular. Há viagens que começam quando compramos o bilhete. Outras começam muito antes, à volta de uma mesa de almoço.

Falámos de praias, cidades, malas por fazer, voos por marcar e daqueles destinos que aparecem sempre nas conversas de sexta, como se estivessem só à espera que alguém tivesse coragem de carregar em “reservar”. Ainda não sabemos quando vamos. Mas já sabemos o que vamos vestir.

As conversas seguiram o guião habitual: histórias da semana, desabafos, piadas privadas que já ninguém sabe explicar, teorias completamente absurdas e gargalhadas que fazem qualquer mesa ao lado olhar na nossa direção. É sempre assim. Começa com um comentário inocente e, cinco minutos depois, já estamos a rir de uma coisa que, fora daquele almoço, provavelmente nem teria graça. Mas ali tem. Porque ali quase tudo tem.

E talvez seja isso que torna estas sextas tão especiais. Não é o restaurante, nem a mousse, nem a Tailândia que, por enquanto, só existe nos nossos planos. São as pessoas. A leveza. O tempo que abranda sem pedir licença. A sensação de que, durante umas horas, o mundo pode esperar enquanto nós colecionamos memórias e desenhamos as próximas aventuras.

Porque nestes almoços cabem um guarda-sol rebelde, uma mousse de Oreo, um padrão Tigresse, uma viagem em grupo à Tailândia, piscinas de todas as tonalidades de azul e massagens que, por enquanto, só aconteceram na nossa imaginação.

E, sinceramente? Ainda bem.

Bj utópico,
Dri




sábado, 11 de julho de 2026

O nosso ritual ..............

Há coisas que fazem bem à alma. Para mim, uma delas é este nosso compromisso: tentar juntar as seis, uma vez por mês, à volta de uma mesa.

Nem sempre é fácil. As agendas atropelam-se, os imprevistos aparecem e, desta vez, fomos apenas cinco. Mas quando nos sentamos juntas, a conversa acontece naturalmente.

Somos seis mulheres completamente diferentes. Diferentes nas idades, nos signos, nas profissões, nos feitios, nos ritmos de vida e até na forma como olhamos para o mundo. Há quem seja mais racional, quem decida sempre com o coração, quem fale pelos cotovelos, quem observe primeiro e só depois dê a sua opinião. Há quem viva rodeada de listas e quem prefira improvisar. Quem nunca dispense um bom plano e quem transforme qualquer plano numa aventura.

Talvez seja precisamente essa diversidade que torna estes encontros tão especiais. Não pensamos todas da mesma forma, nem temos de pensar. Discordamos, debatemos, rimos, aprendemos e, muitas vezes, acabamos por sair da mesa com uma perspetiva diferente daquela com que chegámos.

No almoço de hoje houve de tudo um pouco: assuntos sérios, desabafos, gargalhadas, histórias que já conhecíamos mas que adoramos voltar a ouvir, dicas que levamos connosco, algumas fofocas (porque também fazem parte da vida!) e muitos brindes. Pelo meio, uma sangria de pepino bem fresca que soube ainda melhor acompanhada da melhor companhia.

Há uma leveza difícil de explicar nestes encontros. É aquela sensação de podermos ser exatamente quem somos, sem filtros, sem pressas e sem julgamentos. De celebrar as conquistas umas das outras, de ouvir quando é preciso ouvir, de dar colo quando faz falta e de rir até doer a barriga.

Hoje éramos cinco, mas o espírito continuou completo. Porque mais do que o número, importa a vontade de continuar a criar memórias, mês após mês.

No fundo, estes momentos são o nosso pequeno ritual. Um lembrete de que a amizade não precisa de pessoas iguais para ser verdadeira. Precisa apenas de respeito, tempo, disponibilidade e da vontade de continuar presente na vida umas das outras.

E já estamos a contar os dias para o próximo… de preferência, com as seis.

Bj utópico 
Dri


quinta-feira, 9 de julho de 2026

Evita no Coliseu: quando Porto me devolveu Buenos Aires



Hoje a noite foi preenchida com uma ida ao Coliseu para ver Evita foi uma dessas experiências raras em que a cidade muda de temperatura, de ritmo, de alma. Ir ao Coliseu ver Evita com o meu pai tornou‑se uma dessas travessias raras em que o presente se abre, o passado regressa, e uma cidade inteira muda de respiração.

Entrámos no Coliseu como quem entra num lugar que já conhece, mas que guarda sempre uma surpresa. E antes mesmo de o musical começar, o meu pai sorriu com aquele sorriso que anuncia uma memória antiga..

O primeiro acorde abriu uma porta que eu já não sabia que ainda existia. A voz que se ergueu no palco não trouxe apenas Eva Perón, mas  trouxe a minha história com aquela cidade que me ensinou a olhar o mundo com outra intensidade. Buenos Aires tem essa capacidade estranha de nos marcar com uma melancolia bonita, uma espécie de saudade que não dói, mas que pulsa. 

As luzes do palco tinham o brilho das noites de San Telmo, onde o tango se dança com o corpo, mas também com a alma. Os gestos dos atores tinham a cadência do tango que aprendi a reconhecer nas esquinas, nos cafés antigos, nos passos cruzados que contam histórias de amor, perda e reencontro. E a música tinha aquela força que mistura elegância, intensidade e uma certa tristeza luminosa que só Buenos Aires sabe ter.

Enquanto Eva Perón ganhava vida no palco, eu revivia a minha viagem: as ruas coloridas do Caminito, os cafés onde o tempo parece ficar suspenso, as conversas demoradas, os silêncios que dizem mais do que palavras, e aquela sensação de que a cidade nos observa como se soubesse segredos sobre nós.

O Coliseu tornou-se um espelho emocional. Porto respirava com o coração de Buenos Aires. E eu, sentada ali, sentia que as duas cidades  se tocavam por instantes. Aliás  como se o mundo tivesse decidido alinhar memórias, geografias e afetos só para me lembrar de quem eu fui, de quem sou e de quem continuo a ser.

O musical trouxe uma saudade da minha viagem, do tango, da mística, da forma como Buenos Aires me ensinou que há lugares que ficam para sempre dentro de nós, mesmo quando voltamos. Saí do Coliseu com a sensação de ter regressado sem ter viajado. E talvez seja isso que a arte faz: devolve-nos às cidades que amamos, às versões de nós que lá ficaram, às histórias que continuam a dançar dentro de nós.

Hoje Buenos Aires ficou mais perto e a vontade de voltar também .

Bj utópico

Dri



Matemática e outras ciências exatas

  Tudo começou com uma coisa muito simples: um professor de Matemática e uma partilha no grupo de amigas. Até aqui, nada de extraordinário. ...