Falou-se da quinta dos animais, mas também da nossa. Das hierarquias invisíveis, dos instintos que fingimos domesticar, da delicada fronteira entre civilização e natureza. E como sempre acontece nestes encontros, a conversa desviou-se para aquilo que verdadeiramente importa: a diferença dos sexos, os equilíbrios impossíveis entre o que é biológico, cultural, desejado ou imposto. Não para encontrar respostas definitivas — felizmente ainda desconfiamos delas — mas para manter viva a possibilidade de perguntar.
Há qualquer coisa de profundamente raro nestes almoços: a capacidade de saltar do ensaio político para o comportamento felino, da literatura para o corpo, da teoria para o riso, sem perder coerência. Como se pensar também pudesse ser uma forma de amizade. Como se os livros servissem precisamente para isto: abrir portas inesperadas entre pessoas que ainda se permitem conversar sem cronómetros.
No fim, ficou a sensação de que talvez a verdadeira utopia esteja aqui. Não nas grandes revoluções, mas nestas mesas de sexta-feira onde ainda há tempo para discutir Orwell, animais, homens, mulheres e o mundo — enquanto a comida arrefece.
Um bj utópico
Dri
