segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Mulheres conservadoras: uma nova conversa sobre o que significa ser mulher

 Nos últimos tempos, começou a surgir com cada vez mais força uma expressão que me desperta curiosidade: “mulheres conservadoras”.

Não porque me identifique com o conceito. Não sou uma mulher conservadora. Mas porque acho interessante observar aquilo que esta nova temática está a revelar sobre a forma como as mulheres estão a olhar para a sua própria vida.

Nas redes sociais, multiplicam-se mulheres que falam de família, casamento, maternidade, feminilidade, cuidado da casa, papéis tradicionais e de uma vontade de recuperar determinados valores que consideram ter-se perdido. Algumas apresentam esta escolha como uma espécie de regresso às origens. Outras como uma reação ao cansaço de uma sociedade onde parece que temos de ser tudo ao mesmo tempo.

E talvez seja precisamente aí que esteja a parte mais interessante desta conversa:

  • Porque é que este discurso está a encontrar tanto espaço agora?

  • Será apenas uma tendência das redes sociais?

  • Será uma reação a algumas mudanças sociais das últimas décadas?

  • Ou será que existe realmente uma geração de mulheres cansada da ideia de que tem de conquistar tudo, provar tudo e conseguir conciliar tudo?

Não tenho respostas definitivas. Gosto mais de observar esta mudança e pensar sobre ela.

Durante muitos anos, a luta das mulheres esteve muito ligada à possibilidade de escolher: estudar, trabalhar, ter independência, amar quem quisessem, decidir se queriam ou não ser mães, construir uma vida diferente daquela que lhes estava destinada.

Por isso, é curioso assistir agora a mulheres que dizem escolher precisamente alguns desses papéis tradicionais, mas por vontade própria. E aqui está a questão que me parece mais importante: Quando uma mulher escolhe uma vida tradicional, essa escolha deixa de ser feminista?

Não sei se a resposta é assim tão simples.

Também não acho que devamos romantizar o passado. Muitas das limitações impostas às mulheres nesse passado eram tudo menos bonitas. Mas também não precisamos de fingir que todas as mulheres desejam exatamente o mesmo tipo de vida.

Talvez o verdadeiro desafio esteja em aceitar que a liberdade também pode produzir escolhas com as quais não concordamos.

Uma mulher pode querer uma carreira exigente. Outra pode querer dedicar-se aos filhos. Outra pode querer as duas coisas. Outra pode não querer nenhuma. E talvez nenhuma delas precise de uma etiqueta para justificar a sua escolha.

O que me interessa nesta nova conversa sobre as “mulheres conservadoras” não é decidir quem tem razão.É perceber o que esta tendência diz sobre o nosso tempo.

Porque todas as tendências sociais nascem de alguma coisa. E quando tantas mulheres começam a falar de uma vida mais simples, de família, de feminilidade ou de papéis tradicionais, talvez valha a pena perguntar o que estão realmente a procurar. Será pertença? Será estabilidade?Será uma reação à velocidade do mundo. Será uma escolha?

Não sou conservadora.Mas acredito que devemos conseguir olhar para esta temática sem medo, sem rótulos e sem transformar imediatamente uma escolha diferente da nossa numa ameaça.

Afinal, se lutámos tanto para que as mulheres pudessem escolher o seu caminho, talvez devêssemos também aprender a respeitar os caminhos que não escolheríamos para nós.

E essa reflexão, para mim, é muito mais interessante do que decidir quem é conservadora e quem não é.

Mundo Utópico da Dri



sábado, 22 de agosto de 2026

Alentejo

 Entre campos dourados, oliveiras antigas, aldeias brancas e estradas que parecem não ter fim, existe uma tranquilidade difícil de explicar. Aqui, o tempo parece andar mais devagar e cada paisagem convida a parar, respirar e simplesmente estar.

No Alentejo, há beleza nas coisas simples: um café bebido numa praça tranquila, o cheiro da terra aquecida pelo sol, o sabor de um pão alentejano acabado de cortar ou o silêncio de um fim de tarde pintado de laranja.

É uma terra de horizontes largos e de histórias guardadas nas pedras dos castelos, nas ruas estreitas das aldeias e nas mãos de quem mantém vivas as tradições.

Talvez seja isso que torna o Alentejo tão especial: a capacidade de nos lembrar que não precisamos de correr sempre. Que viajar também pode ser parar para olhar, escutar e sentir .

E quando o sol se põe sobre os campos, deixando o céu em tons de fogo, percebemos que há lugares que ficam connosco muito depois de partirmos.

O Alentejo é assim: uma pausa bonita no caminho, um lugar onde o coração aprende novamente a andar devagar.

 


Mundo utópico da Dri 



sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Essa Tal Liberdade: quando a música nos devolve a nós próprios

 Há músicas que não se ouvem apenas. Sentem-se.

Quando começam a tocar e, sem percebermos muito bem como, alguma coisa dentro de nós muda. O corpo abranda, a memória desperta e somos levados para lugares que já não existem da mesma forma, mas que continuam a viver dentro de nós.

Foi assim que voltei a ouvir “Essa Tal Liberdade”, na voz de Alexandre Pires e Seu Jorge.

A liberdade de fechar os olhos e deixar que uma música nos leve para outro tempo. Para aqueles anos em que tudo parecia possível, em que as emoções eram vividas sem tantas reservas e em que certas canções ficaram ligadas a pessoas, noites, viagens, amores, encontros e despedidas.

Há músicas que guardam pedaços da nossa história. Basta ouvirmos os primeiros acordes para uma memória aparecer inteira: uma rua, uma casa, uma voz, um abraço, uma gargalhada. Às vezes até nos lembramos de quem éramos naquele momento — e percebemos o quanto mudámos desde então.

“Essa Tal Liberdade” fala-nos precisamente dessa vontade de sermos livres, de deixarmos para trás aquilo que nos prende e de voltarmos a escolher a nossa própria vida.Mas talvez exista uma outra liberdade, mais silenciosa, que a música nos oferece: A liberdade de sentir sem explicar.

A liberdade:

  • De voltar atrás por alguns minutos.

  • De matar saudades sem precisar de dizer de quem.

  • De sorrir por uma lembrança que ninguém mais conhece.

  • De dançar, mesmo quando o dia lá fora está cinzento.

  • De deixar o coração viajar para onde quiser.

E talvez seja por isso que algumas músicas nunca envelhecem. Nós envelhecemos. As nossas vidas mudam. As pessoas seguem caminhos diferentes. Os lugares transformam-se. Mas há canções que permanecem exatamente onde as deixámos — à espera de que um dia voltemos a carregá-las no coração.

Hoje, ao ouvir “Essa Tal Liberdade”, pensei em todas essas pequenas versões de mim que ficaram espalhadas pelo caminho.

Mas senti gratidão pelas memórias bonitas, por aquelas que me doeram e me fizeram crescer, pelas pessoas que passaram pela minha vida e sobretudo, pela liberdade de ainda podermos sentir tudo isso através de uma simples música.

Porque talvez a verdadeira liberdade seja esta: podermos fechar os olhos, ouvir uma canção e, durante alguns minutos, sermos novamente quem quisermos.

Hoje, escolho ser aquela pessoa que ainda sabe dançar com as memórias e que ainda acredita que há músicas que não se ouvem porque apenas se sentem.

Bj Utópico Dri



terça-feira, 11 de agosto de 2026

Sobre diárias e menus .....

Foi durante um café que começámos a falar de diárias. Não de despesas, nem de contas, nem propriamente do valor que se recebe para almoçar. Falávamos das diárias como conceito. Daqueles menus que aparecem à porta dos restaurantes e que dizem, de uma forma muito simples, o que há para comer naquele dia.

O conceito de diária, tem qualquer coisa de simples, pois não promete experiências, não fala em degustações e não anuncia desconstruções, pois é apenas uma refeição. E talvez seja precisamente aí que começa o que é bom na gastronomia portuguesa.

Se falarmos de gastronomia portuguesa, de repente tínhamos uma lista enorme de coisas que são boas: o pão, o azeite, os queijos, o peixe, os mariscos, a carne, as sopas, os enchidos, o arroz, as batatas..... Porque talvez a nossa riqueza não esteja apenas nos produtos, mas na forma como os juntamos e no tempero

Talvez a gastronomia portuguesa tenha pormenor de não precisar de explicar demasiado, pois um bom peixe não precisa de uma história de vinte linhas ou um caldo verde não precisa de ser reinventado. Aliás há pratos que são tão nossos que basta dizermos o nome e já sabemos quase tudo.

Falámos também dos menus e fiquei a pensar que talvez a diária seja uma pequena instituição portuguesa. Há qualquer coisa de reconfortante em chegar a um restaurante e perguntar:

— O que é a diária hoje?

E alguém responder. Sem grandes cerimónias. Sem precisarmos de escolher entre vinte e sete possibilidades. Ou seja, a capacidade de nos fazer felizes sem grande complicação com uma mesa, um prato, uma conversa e um café no fim. Se déssemos mais valor a estas pequenas coisas, não transformaríamos necessariamente todos os restaurantes em restaurantes de luxo.

Talvez o nosso maior património gastronómico continuasse a estar naqueles lugares onde se come bem sem ser preciso explicar porquê.

Sem dúvida, que há conversas que começam num café, mas há ideias que ficam connosco muito depois de a chávena estar vazia.

Até porque uma boa refeição raramente acaba quando se termina o prato. Às vezes continua na conversa. Na memória. E, claro, na vontade de voltar.

Foi assim que terminou o café.

A diária ficou por ali.

Mas a gastronomia ficou na conversa.

E talvez tenha sido essa a melhor parte.

Bj utópico,

Dri



quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A sopa com gelo e outras lições improváveis

Há dias que começam com um plano. Outros começam com uma publicação nas redes sociais.

Foi assim que tudo aconteceu: uma loja descoberta quase por acaso, daquelas que nos fazem pensar: "Como é que eu ainda não conhecia isto?". Uma conversa, um convite para almoçar e a certeza de que, às vezes, o algoritmo até acerta.

Depois veio a viagem de Uber. Digamos apenas que o percurso teve mais emoção do que o esperado pois entre desvios, trânsito e aquele momento em que nos perguntamos se o GPS e o motorista estão mesmo a viver a mesma realidade, lá chegámos mas inteiros. E isso já conta como uma vitória.

Mas o verdadeiro protagonista do dia ainda estava para aparecer. O calor apertava tanto que alguém resolveu inovar e servir... sopa com gelo.

Há quem diga que a criatividade não tem limites. Eu acrescentaria que o calor também não. A partir daí, a questão deixou de ser se fazia sentido, mas passou a ser simplesmente aceitar que há dias em que a realidade consegue ser mais criativa do que qualquer guião.

E talvez seja essa a maior reflexão.

Passamos tanto tempo à procura de planos perfeitos que nos esquecemos de que são os momentos inesperados que acabam por ficar na memória. Não foi a loja, nem sequer o Uber atribulado que tornaram este dia especial mas foi a sucessão de pequenas histórias, o riso partilhado e a capacidade de transformar um detalhe tão improvável como uma sopa com gelo numa daquelas recordações que serão contadas vezes sem conta.

Porque, no fim de contas, há dias em que o melhor investimento não está nas compras, nem nas deslocações, nem no almoço: está  na boa disposição.

Bj utópico 

Dri








domingo, 26 de julho de 2026

Avós: o amor que nos ensina a abrandar


 Há amores que chegam de rompante e outros que crescem devagar, como uma árvore que cria raízes profundas. O amor entre avós e netos pertence a essa segunda categoria. Não faz barulho, não pede atenção, simplesmente existe. E talvez por isso seja um dos mais puros que conhecemos.

Os avós têm um dom raro: fazem-nos sentir que o tempo pode esperar. Ao lado deles, as horas correm mais devagar. Há sempre tempo para ouvir uma história repetida pela décima vez, para preparar aquele bolo que sabe sempre à infância ou para um abraço que parece curar os dias mais difíceis.

Ser avó ou avô é muito mais do que ver uma família crescer. É voltar a viver a infância através dos olhos dos netos, é ensinar sem impor, é amar sem esperar nada em troca. É descobrir que o coração consegue aumentar de tamanho quando chega um neto.

E os netos... os netos são a continuidade da vida. São a alegria que ilumina os dias, o motivo para voltar ao parque, brincar no chão, rir das pequenas coisas e acreditar que o futuro vale sempre a pena.

A pandemia lembrou-nos daquilo que tantas vezes damos por garantido. Houve um tempo em que os abraços ficaram do outro lado de uma janela. Os beijos foram substituídos por acenos e o carinho teve de encontrar outras formas de chegar. Mas, curiosamente, foi nessa distância que percebemos a força deste amor. Nem o vidro, nem os metros de separação conseguiram impedir que avós e netos continuassem ligados.

Hoje, que podemos voltar a abraçar quem amamos, talvez devêssemos fazê-lo com mais intenção. Porque aprendemos, da forma mais difícil, que um abraço nunca é apenas um abraço. É presença. É conforto. É memória. É amor.

Neste Dia dos Avós, que saibamos agradecer a quem nos ensinou tanto sem precisar de grandes discursos. A quem nos mostrou que a riqueza está nos gestos simples, na mesa posta, nas mãos enrugadas que continuam a cuidar e no colo que nunca deixa de existir, independentemente da idade.

Porque os avós não vivem apenas nas fotografias da nossa infância. Vivem em cada valor que nos transmitiram, em cada tradição que mantemos e em cada abraço que hoje podemos voltar a dar.

E que nunca mais precisemos de uma janela para dizer: "Gosto de ti." ❤️

Bj utópico 

Dri 







sexta-feira, 24 de julho de 2026

Sexta-feira: mulheres, chuva e cromos... porque sim!

 Há uma regra que nunca falha nos almoços de sexta-feira: cumprir a sequência do almoço. Ou seja, primeiro chegam os copos.: vinho para uns, água para os mais conscientes e Coca-Cola para aqueles que ainda acreditam que a cafeína é uma filosofia de vida. Segundo aparecem os pratos com as múltiplas alterações ao prato original. Mas a verdade é que uma boa conversa não pode começar de boca seca.

E o tema desta semana prometia: As mulheres têm problemas? Foi só lançar a bomba para se abrir oficialmente mais uma sessão extraordinária da Assembleia da República das Sextas-Feiras.

Descobrimos rapidamente que as mulheres têm problemas, mas também têm soluções. E quando não têm soluções? Inventam novos problemas, só para não deixar a conversa morrer. Afinal, alguém tem de manter o entretenimento.

Pelo meio, alguém puxou pelo Marco Paulo e quando aparece o Marco Paulo já ninguém sabe muito bem se estamos a falar de música ou de terapia de grupo. Entre uma gargalhada e outra, surgiu a inevitável referência à “louca na cama”. Ninguém percebeu exatamente como lá chegámos. Mas também alguém percebe como é que as conversas das sextas chegam onde chegam? Há um GPS próprio para isto  funciona sem satélite.

Lá fora começou a chover e bastaram duas gotas para alguém cantar “Chuva no Telhado”……. E juntos cantamos…...mas não sabemos se a música ficou afinada. A chuva até parecia perceber que estava a assistir a um espetáculo. Isto promete uma ida ao Karaoke.

Quando pensávamos que o assunto já não podia fugir mais do tema inicial, alguém falou em cromos de futebol. Percebemos que as mulheres e os cromos têm muito em comum porque: há os repetidos, há aqueles que toda a gente quer trocar, há os raríssimos e há sempre um que falta completar a coleção.

Quanto à presença masculina, hoje, resumiu-se praticamente a um exemplar.

Dira mesmo um sobrevivente ou um corajoso. Um homem sentado no meio de um autêntico congresso feminino sobre problemas, emoções, teorias, músicas, chuva e cromos. Não sabemos se saiu traumatizado, iluminado ou apenas feliz por ter sobrevivido para contar a história.

No fundo, estes almoços são exatamente isso, pois não interessa o menu, nem interessa o tema, nem sequer interessa se está sol ou chuva.

O importante é que, à sexta-feira, conseguimos provar cientificamente que uma conversa pode começar com vinho, passar pelas mulheres, fazer um desvio pelo Marco Paulo, apanhar chuva no telhado, colecionar cromos de futebol e ninguém achar estranho.

Aliás seria estranho falar apenas de um assunto do princípio ao fim, porque isso não seria um almoço de sexta, mas sim uma reunião.

Conclusão: as mulheres até podem ter problemas, mas os homens têm o azar de pensar que os conseguem resolver

Bj utópico

Dri



Mulheres conservadoras: uma nova conversa sobre o que significa ser mulher

  Nos últimos tempos, começou a surgir com cada vez mais força uma expressão que me desperta curiosidade: “mulheres conservadoras”. Não porq...