sábado, 3 de outubro de 2026

Afinal o que é ser português?

 Será que estamos a dar a devida atenção a tudo o que importa?

Ontem, fui ao cinema assistir a "Santo António, o Casamenteiro de Lisboa", de Ruben Alves.
Este filme, ao explorar os Casamentos de Santo António, aborda temas como Lisboa, as nossas tradições, a memória e, em essência, aquilo que nos define como portugueses. A própria narrativa do filme utiliza uma tradição lisboeta como ponto de partida para questionar o que realmente desejamos manter numa cidade que se encontra em constante transformação.
Ao sair da sala, fiquei a pensar numa questão que, curiosamente, ganhou ainda mais força quando comecei a acompanhar as notícias sobre Cristiano Ronaldo e toda a polémica à volta da Seleção Nacional.
Não foi a polémica em si que me fez refletir.
Mas sim a enorme proporção que ela atingiu.
Ronaldo deixa o estágio, após um desentendimento com o selecionador Jorge Jesus, e anuncia que, a seu tempo, contará a sua versão dos factos. Rapidamente, somos inundados por manchetes, debates acalorados, opiniões diversas, comentários sem fim e discussões por todo o lado.
E eu pergunto-me: estaremos a avaliar as coisas com a perspetiva correta?
É inegável a importância de Ronaldo para o futebol português. Ele é uma figura central na nossa Seleção, e o que aconteceu com ele merece atenção e explicação.Contudo, paralelamente, outras situações importantes estão a decorrer.
As nossas cidades estão a mudar de forma acelerada.
Tradições ancestrais vão desvanecendo-se ou transformando-se radicalmente.
Existem locais que, atualmente, quase não conseguimos reconhecer.
O comércio tradicional desaparece, bairros inteiros mudam de aparência, e festas e costumes que antes marcavam o nosso dia a dia deixam de fazer parte dele.
E estas transformações, por norma, não ocupam as manchetes durante vários dias consecutivos.
Não há conferências de imprensa a respeito.
Não há comentadores a debater o assunto durante horas a fio.
Não há milhares de pessoas a discutir o tema nas redes sociais.
E, possivelmente, reside aqui o cerne do problema.
Damos uma enorme importância ao que acontece durante 90 minutos num campo de futebol, mas dedicamos muito menos atenção ao que se passa ao longo de décadas nas nossas cidades.
O próprio filme de Ruben Alves levanta esta questão fundamental: o que é que pretendemos salvaguardar e o que estamos dispostos a abandonar em nome do progresso?
Não me parece que a preservação de tradições signifique uma aversão ao futuro.
Tampouco acredito que uma cidade precise de permanecer estagnada no tempo para manter a sua identidade portuguesa.
No entanto, existe uma distinção clara entre mudar e perder a nossa essência.Entre evoluir e permitir que tudo o que nos torna únicos se desvaneça.
Talvez seja este o verdadeiro debate que precisamos de ter.
Não se trata de escolher entre a figura de Ronaldo e a salvaguarda das nossas tradições.
Trata-se, antes, de compreendermos por que motivo nos conseguimos mobilizar tanto por uma polémica que pode durar algumas semanas, e tão pouco nos incomodamos com perdas culturais que podem ser irremediáveis.
Hoje, discutimos quem disse o quê, quem saiu da equipa, quem permaneceu, e quem tem razão.
Amanhã, haverá outro jogo, outra controvérsia, outra notícia de destaque.
No entanto, uma tradição que se extingue pode nunca mais regressar.
Um café que fecha as suas portas pode não reabrir jamais.
Uma cidade que vê a sua identidade a desvanecer-se pode continuar atraente, cheia de turistas e de pessoa, mas deixará de ser, precisamente, a mesma cidade.

E talvez seja esta a questão que deveríamos analisar com mais detalhe.

Talvez a pergunta que nos devemos colocar não seja apenas "o que está a acontecer com o Ronaldo?" Talvez a pergunta mais pertinente seja também: "O que é que se passa connosco?"
E, acima de tudo: "O que é que nos escapa enquanto a nossa atenção está focada na mesma coisa?" Essencialmente, talvez a interrogação seja mesmo: será que a nossa perspetiva está correta?

E aí recordo-me de Jorge Palma:
"Ai, Portugal, Portugal, de que estás à espera tens um Pé numa galera e outro no fundo do mar …”

O Mundo Utópico da Dri 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Entre Bogotá e as saudades dos almoços de sexta...

 Hoje, o meu trabalho não me deixou participar do grupo dos almoços de sexta-feira.

Enquanto por aí as conversas, os risos e as histórias da semana se juntavam, e claro, as tão esperadas pataniscas, eu estava a milhares de quilómetros. Estava em Bogotá, a falar de um tema bem diferente: os maus-tratos na infância.

É uma situação que nos faz parar, ouvir e pensar em como é importante proteger quem ainda não consegue se defender sozinho.

Foi um dia de trabalho intenso, com troca de ideias e reflexão.

Mas, confesso, senti saudades.

Sinto falta dos risos à mesa. Sinto falta das conversas que começam com um tema e terminam em outro bem diferente. Sinto falta das piadas que só a gente entende e daquela bagunça típica dos nossos almoços.

Sinto falta até das discussões sobre Inteligência Artificial, das dúvidas existenciais e das conversas sem fim. Às vezes, elas fazem a gente esquecer que o almoço já devia ter acabado há muito tempo.

Hoje, em vez de dividir as pataniscas, dividi ideias sobre uma situação que merece toda a nossa atenção.

E, entre Bogotá e a saudade dos almoços, fiquei certa de que alguns encontros nos ajudam a crescer no trabalho. Outros nos fazem sentir que pertencemos a algum lugar.

Hoje não tive a mesa, mas pensei em vocês. Na próxima semana, espero voltar com histórias, vontade de rir e, se der, umas boas pataniscas à minha espera.

Porque há trabalhos que nos levam longe, mas há pessoas que sempre nos fazem querer voltar.

Mundo Utópico da Dri

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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Será que a IA nos conseguia substituir ?

 Esta foi uma pergunta que ecoou no meu regresso a casa depois do nosso almoço de sexta.

Hoje entre delícias do mar, um vinho novo e as conversas sobre férias, lá fomos parar à Inteligência Artificial.

E a pergunta surgiu-me hoje no trânsito no trajeto para casa: Será que a IA nos conseguia substituir?

A verdade é que, em muitas coisas, já consegue fazer aquilo que antes demorávamos horas a fazer.

Escreve.Resume.Traduz.Calcula.Organiza. Pesquisa.Cria imagens.

Mas depois comecei a pensar no nosso almoço. Será que a IA conseguiria reproduzir aquilo?

Conseguiria juntar cinco pessoas à mesma mesa e fazer com que todas falassem ao mesmo tempo?

Conseguiria alguém começar uma história sobre férias e, cinco minutos depois, estarmos a discutir a origem das delícias do mar?

Conseguiria perceber aquela gargalhada que aparece do nada?

Ou aquela conversa paralela que só duas pessoas entendem?

E, sobretudo, conseguiria criar aquela confusão maravilhosa em que ninguém sabe exatamente quem está a responder a quem, mas toda a gente está a divertir-se?

Talvez a IA consiga imitar muitas coisas. Talvez até consiga inventar uma conversa entre amigos. Mas há coisas que não são apenas informação. Estes nossos momentos são presença, olhares ,gargalhadas, histórias , perguntas ….

Por isso, talvez a pergunta não seja apenas:“Será que a IA nos vai substituir?”

Talvez seja:“O que é que nós fazemos que nenhuma máquina consegue realmente viver por nós?”

E, pensando bem……depois dos nossos almoços de sexta, acho que ainda temos alguma vantagem pelo menos na confusão e na amizade .

Mundo Utópico da Dri 

Mundo Utópico da Dri

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Matemática e outras ciências exatas

 Tudo começou com uma coisa muito simples: um professor de Matemática e uma partilha no grupo de amigas.

Até aqui, nada de extraordinário.

Só que, como acontece frequentemente nestes grupos, uma simples partilha rapidamente evoluiu para uma investigação científica.

Primeira pergunta:

— Quantos anos terá?

E pronto.

Entrou a Matemática.

Porque uma idade, sozinha, não serve para nada. É preciso comparar.

Fazer uma subtração.

Calcular a diferença.

Depois alguém pergunta:

— Mas isso representa que percentagem?

Percentagem?!

E lá fomos nós buscar a calculadora.

Depois veio a regra de três simples .

Depois outra conta.

Depois alguém:

— Espera, fizeste mal.

E outra:

— Não, não. Está certo.

E eu:

— Façam novamente porque agora já não sei nada. 

A esta altura, já não estávamos a falar de um professor de Matemática.

Estávamos perante um problema matemático complexo com múltiplas variáveis.

-Idade.
-Altura.
-Diferenças.
-Proporções.
-Percentagens.

E assim se formou uma espécie de departamento informal de Matemática Aplicada ao Quotidiano.

Método científico:

1. Observar.
2. Comentar.
3. Levantar uma dúvida.
4. Fazer contas.
5. Desconfiar do resultado.
6. Fazer novamente.
7. Mandar para o grupo.

E se ninguém souber a resposta?

Não há problema.

Abrimos uma nova investigação. 

Porque há problemas de Matemática com uma solução.

E depois há aqueles que envolvem um professor de Matemática e amigas com demasiado tempo para fazer contas.

Esses são claramente os mais complicados.

Mundo Utópico da Dri 

Nota científica: qualquer semelhança com pessoas ou professores reais é pura coincidência. A Matemática, essa, é rigorosamente aplicada.


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sábado, 12 de setembro de 2026

Recomeçar é voltar a pintar

 Hoje na festa de anos do meu filho , enquanto via os adolescentes a pintar , descobri que a vida pode ser uma tela.

Começamos a pintá-la sem saber muito bem o que estamos a fazer. Escolhemos cores, fazemos riscos, experimentamos formas. Algumas resultam. Outras nem por isso.

Há fases em que olhamos para a tela e pensamos: isto não era nada o que eu tinha imaginado.

Podemos mudar a cor. Acrescentar uma camada. Cobrir aquilo de que já não gostamos. Fazer um risco por cima de outro. Recomeçar.

Na vida fazemos exatamente o mesmo.Mudamos de ideias. Mudamos de pessoas. Mudamos de sonhos. Mudamos de caminho.E, às vezes, aquilo a que chamamos “recomeçar” é simplesmente continuar a pintar com outras cores.

Tenho cada vez mais vontade de ser como Miró: não ter medo de deixar espaço para o inesperado, de misturar cores improváveis, de desenhar sem precisar que tudo faça sentido para os outros.

Talvez a vida seja uma tela que tenha a nossa marca com as cores dos dias felizes, os riscos dos dias difíceis, os borrões dos erros e aquelas pequenas manchas que, vistas de longe, acabam por fazer parte da composição.

E se amanhã não gostar do que pintei hoje?

Posso sempre pegar novamente no pincel.

Recomeçar não é apagar a nossa história.
É acrescentar-lhe uma nova cor. 

Mundo Utópico da Dri

Nota : não é um Miro mas para mim são sempre as pinturas mais bonitas : as do meu filho

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O regresso dos almoços de sexta-feira

 Há tradições que regressam sem precisarem de grande anúncio.E os almoços de sexta-feira são uma delas.

Depois de uma pausa, voltámos à estrada. E rapidamente percebi que estes almoços têm muito de corrida de rali.

Há curvas apertadas.Contracurvas.Acelerações inesperadas.
Momentos em que o carro vai mais baixo do que gostaríamos.

E, como em qualquer bom rali, o importante não é evitar todas as curvas, mas saber controlá-las.

Porque num almoço de sexta nunca sabemos bem o que vai acontecer. Começamos com uma conversa tranquila, passamos por um tema mais complicado, aceleramos numa opinião, travamos numa decisão e, quando damos por isso, já estamos noutra curva completamente diferente.

Mas uma boa equipa sabe que não precisa de ter uma estrada direita, mas precisa é de saber navegar.

E aqui entra uma figura fundamental: o fiel da balança.

Aquela pessoa que mantém a cabeça fria quando o resto da equipa já está a fazer drift.

Protege os dados, segura a informação, chama-nos à realidade quando é preciso e, sobretudo, ajuda a manter a equipa dentro da estrada.

Porque num rali, tal como na vida e no trabalho, não basta ter um bom piloto.

É preciso uma boa equipa: uns aceleram, outros travam, uns arriscam a curva, outros avisam que talvez seja melhor não abusar e há sempre aquele que, no meio da confusão, consegue dizer:“Calma. Vamos lá controlar isto.”

E talvez seja essa a verdadeira magia dos nossos almoços de sexta, pois não é apenas comer parar, mas para:

  • conversar;

  • alinhar ideias;

  • rir;

  • resolver coisas que durante a semana parecem enormes.

E, sobretudo, é voltar à estrada juntos com algumas curvas pelo caminho. Mas com a certeza de que, enquanto houver equipa e um bom fiel da balança, conseguimos chegar ao fim da etapa.

Sexta-feira voltou.
A equipa também.
E o rali está oficialmente aberto.

Mundo Utópico da Dri




quinta-feira, 3 de setembro de 2026

As gravatas da nossa vida

 Ontem, num jantar, dei por mim a olhar para as paredes.

Não eram quadros, nem fotografias, nem aquelas decorações que normalmente tentamos interpretar num restaurante. Eram gravatas.

Gravatas às riscas, às bolas, lisas, mais discretas, outras bastante exuberantes.

E cada uma tinha uma história.

Ou pelo menos era isso que a decoração nos convidava a imaginar.

Fiquei a pensar como é curioso aquilo que escolhemos vestir e como, muitas vezes, acaba por dizer qualquer coisa sobre nós.

As riscas parecem-me organizadas. Pessoas que gostam de saber para onde vão, que fazem listas, que têm planos , mesmo que depois a vida trate de os alterar.

As bolas são outra coisa. Têm qualquer coisa de descontraído, de divertido. Talvez pertençam a quem não leva tudo tão a sério e ainda consegue encontrar graça no meio da confusão.

As lisas parecem mais seguras. Discretas. Não precisam de chamar a atenção.

E depois há as gravatas que não cabem em nenhuma destas categorias.

Talvez sejam as melhores.

Porque também nós somos assim.

Temos dias às riscas e dias às bolas.

Dias em que sabemos exatamente o que queremos e outros em que andamos completamente às voltas.

Há momentos em que somos discretos e outros em que precisamos de ocupar espaço.

Há fases em que queremos controlar tudo e outras em que simplesmente deixamos acontecer.

E talvez seja essa a graça de olhar para aquelas gravatas penduradas numa parede: perceber que não existe uma gravata que defina uma pessoa inteira.

Somos feitos de muitas versões.

Do profissional que aparece durante o dia, do pai ou da mãe ao jantar, do amigo que faz rir, da pessoa que chega a casa cansada e já não quer falar com ninguém.

Somos aquilo que mostramos e também aquilo que ninguém vê.

Por isso, talvez a pergunta não seja “que gravata usarias?” Mas parte de ti está hoje ao comando?A das riscas?A das bolas?A mais discreta?Ou aquela que decidiu, simplesmente, aparecer sem seguir padrão nenhum?

No fundo, talvez aquelas gravatas nas paredes fossem apenas decoração.

Mas fiquei a pensar que, se cada uma pudesse realmente contar uma história, provavelmente descobriríamos que por trás de cada padrão existe uma pessoa cheia de contradições, escolhas, memórias e dias bons e maus.

Tal como nós e talvez seja isso que torna cada pessoa interessante: nao o padrão que escolheu mostrar, mas tudo aquilo que existe por baixo da gravata.

Mundo Utópico da Dri



Afinal o que é ser português?

  Será que estamos a dar a devida atenção a tudo o que importa? Ontem, fui ao cinema assistir a "Santo António, o Casamenteiro de Lisbo...