quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Piscina Infinita

 Há lugares onde o silêncio parece fazer parte da decoração.

Uma piscina infinita, rodeada de palmeiras, água morna e um céu nublado que, apesar de tudo, não consegue roubar o calor ao dia.

À volta, quase ninguém fala.

Há pessoas nas espreguiçadeiras a ler. Um bebé dorme tranquilamente ao colo da mãe. Outro, mais adiante, parece ter decidido que o melhor lugar do mundo é precisamente aquele onde está, embalado pelo som da água.

Entro na piscina. A água está morna, o corpo agradece e começo a nadar. Umas piscinas para cá, outras para lá. Sem pressa. Só o som discreto da água e a minha respiração.

Até que, enquanto recupero o fôlego junto à borda, começo a ouvir uma conversa.

Um casal jovem que falava da sua relação Mais concretamente, de ciúmes ( Eu não queria ouvir. Juro. Mas há conversas que chegam até nós sem pedir licença.) 

Ele parecia incrédulo com alguma coisa que ela dizia.E então ouvi: Eu gosto que tenhas ciúmes.

Parei! 

Ela continuou a explicar.Para ela, o ciúme era uma prova de amor. Uma demonstração de interesse. Uma espécie de confirmação de que o outro se importa.

Ele parecia cada vez mais abismado. Eu, confesso, também.Mas ela tinha uma coleção inteira de argumentos para defender aquela ideia.

Comecei a pensar que neste discurso se está a confundir, amor com posse, preocupação com controlo, intensidade com sofrimento e ciúme com paixão.

Talvez porque fomos ensinados a acreditar que, quando alguém gosta realmente de nós, tem medo de nos perder.E esse medo, em algumas relações, acaba transformado numa espécie de certificado de amor.

“Se tem ciúmes, é porque gosta.” - Mas será?Será que amar alguém significa querer saber onde está, com quem está, porque demorou a responder, quem comentou aquela fotografia ou porque é que olhou para determinada pessoa?

Será que o ciúme aproxima?

Ou vai, pouco a pouco, diminuindo o espaço que cada um precisa para continuar a ser quem é?

Uma relação tóxica nem sempre começa com alguém que controla e alguém que sofre.

Às vezes começa com duas pessoas que aprenderam a chamar amor a coisas que, vistas de fora, nos parecem completamente diferentes.

E talvez seja essa uma das partes mais difíceis das relações: perceber que nem tudo aquilo que sentimos é necessariamente saudável só porque é intenso.

Voltei a nadar. Depois saí da água e aproveitei os poucos raios de sol que finalmente apareceram para me deitar na espreguiçadeira e secar.

Talvez a verdadeira piscina infinita de uma relação seja ter alguém ao lado sem deixar de ter espaço para ser quem somos.

Mundo Utópico da Dri

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Killing Me Softly

Killing Me Softly

Há encontros que começam com um copo.

E depois há aqueles que começam com um copo e acabam por nos dar uma história inteira para contar.

Foi num bar de hotel, algures no Alentejo.

O ambiente era daqueles em  que estão famílias jovens espalhadas pelas mesas, casais a conversar, grupos de amigos, copos a tilintar….

Ao fundo, uma cantora começou a cantar Killing Me Softly. 

E foi então que reparei neles, sentados ao balcão, lado a lado.

Ele, de whisky na mão.

Ela, com um Baileys.

Ambos vestidos de branco, num contraste quase cinematográfico com a madeira escura do bar.

Ele falava.

Ela ouvia.

Ele continuava a falar.

Ela continuava a olhar.

E a música dizia killing me softly…

Não sei se ele estava a contar a história da vida dele , a explicar o mundo, a falar do trabalho, de uma viagem ou simplesmente a aproveitar uma audiência particularmente paciente.

Ela, entretanto, tinha desenvolvido uma técnica admirável: olhar 

Olhava para ele.

De vez em quando sorria.

Dava um gole no Baileys.

E voltava a olhar.

há qualquer coisa fascinante nos encontros que observamos de longe, pois nunca sabemos a história toda.

Por isso não sei se ela estava encantada com aquilo que ele dizia ou se, interiormente, já estava a cantar:Strumming my pain with his fingers…”

Porque, afinal, ninguém quer ser “killed softly” logo no primeiro encontro.

Ou quer?

Mundo Utópico da Dri


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Mulheres conservadoras: uma nova conversa sobre o que significa ser mulher

 Nos últimos tempos, começou a surgir com cada vez mais força uma expressão que me desperta curiosidade: “mulheres conservadoras”.

Não porque me identifique com o conceito. Não sou uma mulher conservadora. Mas porque acho interessante observar aquilo que esta nova temática está a revelar sobre a forma como as mulheres estão a olhar para a sua própria vida.

Nas redes sociais, multiplicam-se mulheres que falam de família, casamento, maternidade, feminilidade, cuidado da casa, papéis tradicionais e de uma vontade de recuperar determinados valores que consideram ter-se perdido. Algumas apresentam esta escolha como uma espécie de regresso às origens. Outras como uma reação ao cansaço de uma sociedade onde parece que temos de ser tudo ao mesmo tempo.

E talvez seja precisamente aí que esteja a parte mais interessante desta conversa:

  • Porque é que este discurso está a encontrar tanto espaço agora?

  • Será apenas uma tendência das redes sociais?

  • Será uma reação a algumas mudanças sociais das últimas décadas?

  • Ou será que existe realmente uma geração de mulheres cansada da ideia de que tem de conquistar tudo, provar tudo e conseguir conciliar tudo?

Não tenho respostas definitivas. Gosto mais de observar esta mudança e pensar sobre ela.

Durante muitos anos, a luta das mulheres esteve muito ligada à possibilidade de escolher: estudar, trabalhar, ter independência, amar quem quisessem, decidir se queriam ou não ser mães, construir uma vida diferente daquela que lhes estava destinada.

Por isso, é curioso assistir agora a mulheres que dizem escolher precisamente alguns desses papéis tradicionais, mas por vontade própria. E aqui está a questão que me parece mais importante: Quando uma mulher escolhe uma vida tradicional, essa escolha deixa de ser feminista?

Não sei se a resposta é assim tão simples.

Também não acho que devamos romantizar o passado. Muitas das limitações impostas às mulheres nesse passado eram tudo menos bonitas. Mas também não precisamos de fingir que todas as mulheres desejam exatamente o mesmo tipo de vida.

Talvez o verdadeiro desafio esteja em aceitar que a liberdade também pode produzir escolhas com as quais não concordamos.

Uma mulher pode querer uma carreira exigente. Outra pode querer dedicar-se aos filhos. Outra pode querer as duas coisas. Outra pode não querer nenhuma. E talvez nenhuma delas precise de uma etiqueta para justificar a sua escolha.

O que me interessa nesta nova conversa sobre as “mulheres conservadoras” não é decidir quem tem razão.É perceber o que esta tendência diz sobre o nosso tempo.

Porque todas as tendências sociais nascem de alguma coisa. E quando tantas mulheres começam a falar de uma vida mais simples, de família, de feminilidade ou de papéis tradicionais, talvez valha a pena perguntar o que estão realmente a procurar. Será pertença? Será estabilidade?Será uma reação à velocidade do mundo. Será uma escolha?

Não sou conservadora.Mas acredito que devemos conseguir olhar para esta temática sem medo, sem rótulos e sem transformar imediatamente uma escolha diferente da nossa numa ameaça.

Afinal, se lutámos tanto para que as mulheres pudessem escolher o seu caminho, talvez devêssemos também aprender a respeitar os caminhos que não escolheríamos para nós.

E essa reflexão, para mim, é muito mais interessante do que decidir quem é conservadora e quem não é.

Mundo Utópico da Dri



sábado, 22 de agosto de 2026

Alentejo

 Entre campos dourados, oliveiras antigas, aldeias brancas e estradas que parecem não ter fim, existe uma tranquilidade difícil de explicar. Aqui, o tempo parece andar mais devagar e cada paisagem convida a parar, respirar e simplesmente estar.

No Alentejo, há beleza nas coisas simples: um café bebido numa praça tranquila, o cheiro da terra aquecida pelo sol, o sabor de um pão alentejano acabado de cortar ou o silêncio de um fim de tarde pintado de laranja.

É uma terra de horizontes largos e de histórias guardadas nas pedras dos castelos, nas ruas estreitas das aldeias e nas mãos de quem mantém vivas as tradições.

Talvez seja isso que torna o Alentejo tão especial: a capacidade de nos lembrar que não precisamos de correr sempre. Que viajar também pode ser parar para olhar, escutar e sentir .

E quando o sol se põe sobre os campos, deixando o céu em tons de fogo, percebemos que há lugares que ficam connosco muito depois de partirmos.

O Alentejo é assim: uma pausa bonita no caminho, um lugar onde o coração aprende novamente a andar devagar.

 


Mundo utópico da Dri 



sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Essa Tal Liberdade: quando a música nos devolve a nós próprios

 Há músicas que não se ouvem apenas. Sentem-se.

Quando começam a tocar e, sem percebermos muito bem como, alguma coisa dentro de nós muda. O corpo abranda, a memória desperta e somos levados para lugares que já não existem da mesma forma, mas que continuam a viver dentro de nós.

Foi assim que voltei a ouvir “Essa Tal Liberdade”, na voz de Alexandre Pires e Seu Jorge.

A liberdade de fechar os olhos e deixar que uma música nos leve para outro tempo. Para aqueles anos em que tudo parecia possível, em que as emoções eram vividas sem tantas reservas e em que certas canções ficaram ligadas a pessoas, noites, viagens, amores, encontros e despedidas.

Há músicas que guardam pedaços da nossa história. Basta ouvirmos os primeiros acordes para uma memória aparecer inteira: uma rua, uma casa, uma voz, um abraço, uma gargalhada. Às vezes até nos lembramos de quem éramos naquele momento — e percebemos o quanto mudámos desde então.

“Essa Tal Liberdade” fala-nos precisamente dessa vontade de sermos livres, de deixarmos para trás aquilo que nos prende e de voltarmos a escolher a nossa própria vida.Mas talvez exista uma outra liberdade, mais silenciosa, que a música nos oferece: A liberdade de sentir sem explicar.

A liberdade:

  • De voltar atrás por alguns minutos.

  • De matar saudades sem precisar de dizer de quem.

  • De sorrir por uma lembrança que ninguém mais conhece.

  • De dançar, mesmo quando o dia lá fora está cinzento.

  • De deixar o coração viajar para onde quiser.

E talvez seja por isso que algumas músicas nunca envelhecem. Nós envelhecemos. As nossas vidas mudam. As pessoas seguem caminhos diferentes. Os lugares transformam-se. Mas há canções que permanecem exatamente onde as deixámos — à espera de que um dia voltemos a carregá-las no coração.

Hoje, ao ouvir “Essa Tal Liberdade”, pensei em todas essas pequenas versões de mim que ficaram espalhadas pelo caminho.

Mas senti gratidão pelas memórias bonitas, por aquelas que me doeram e me fizeram crescer, pelas pessoas que passaram pela minha vida e sobretudo, pela liberdade de ainda podermos sentir tudo isso através de uma simples música.

Porque talvez a verdadeira liberdade seja esta: podermos fechar os olhos, ouvir uma canção e, durante alguns minutos, sermos novamente quem quisermos.

Hoje, escolho ser aquela pessoa que ainda sabe dançar com as memórias e que ainda acredita que há músicas que não se ouvem porque apenas se sentem.

Bj Utópico Dri



terça-feira, 11 de agosto de 2026

Sobre diárias e menus .....

Foi durante um café que começámos a falar de diárias. Não de despesas, nem de contas, nem propriamente do valor que se recebe para almoçar. Falávamos das diárias como conceito. Daqueles menus que aparecem à porta dos restaurantes e que dizem, de uma forma muito simples, o que há para comer naquele dia.

O conceito de diária, tem qualquer coisa de simples, pois não promete experiências, não fala em degustações e não anuncia desconstruções, pois é apenas uma refeição. E talvez seja precisamente aí que começa o que é bom na gastronomia portuguesa.

Se falarmos de gastronomia portuguesa, de repente tínhamos uma lista enorme de coisas que são boas: o pão, o azeite, os queijos, o peixe, os mariscos, a carne, as sopas, os enchidos, o arroz, as batatas..... Porque talvez a nossa riqueza não esteja apenas nos produtos, mas na forma como os juntamos e no tempero

Talvez a gastronomia portuguesa tenha pormenor de não precisar de explicar demasiado, pois um bom peixe não precisa de uma história de vinte linhas ou um caldo verde não precisa de ser reinventado. Aliás há pratos que são tão nossos que basta dizermos o nome e já sabemos quase tudo.

Falámos também dos menus e fiquei a pensar que talvez a diária seja uma pequena instituição portuguesa. Há qualquer coisa de reconfortante em chegar a um restaurante e perguntar:

— O que é a diária hoje?

E alguém responder. Sem grandes cerimónias. Sem precisarmos de escolher entre vinte e sete possibilidades. Ou seja, a capacidade de nos fazer felizes sem grande complicação com uma mesa, um prato, uma conversa e um café no fim. Se déssemos mais valor a estas pequenas coisas, não transformaríamos necessariamente todos os restaurantes em restaurantes de luxo.

Talvez o nosso maior património gastronómico continuasse a estar naqueles lugares onde se come bem sem ser preciso explicar porquê.

Sem dúvida, que há conversas que começam num café, mas há ideias que ficam connosco muito depois de a chávena estar vazia.

Até porque uma boa refeição raramente acaba quando se termina o prato. Às vezes continua na conversa. Na memória. E, claro, na vontade de voltar.

Foi assim que terminou o café.

A diária ficou por ali.

Mas a gastronomia ficou na conversa.

E talvez tenha sido essa a melhor parte.

Bj utópico,

Dri



quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A sopa com gelo e outras lições improváveis

Há dias que começam com um plano. Outros começam com uma publicação nas redes sociais.

Foi assim que tudo aconteceu: uma loja descoberta quase por acaso, daquelas que nos fazem pensar: "Como é que eu ainda não conhecia isto?". Uma conversa, um convite para almoçar e a certeza de que, às vezes, o algoritmo até acerta.

Depois veio a viagem de Uber. Digamos apenas que o percurso teve mais emoção do que o esperado pois entre desvios, trânsito e aquele momento em que nos perguntamos se o GPS e o motorista estão mesmo a viver a mesma realidade, lá chegámos mas inteiros. E isso já conta como uma vitória.

Mas o verdadeiro protagonista do dia ainda estava para aparecer. O calor apertava tanto que alguém resolveu inovar e servir... sopa com gelo.

Há quem diga que a criatividade não tem limites. Eu acrescentaria que o calor também não. A partir daí, a questão deixou de ser se fazia sentido, mas passou a ser simplesmente aceitar que há dias em que a realidade consegue ser mais criativa do que qualquer guião.

E talvez seja essa a maior reflexão.

Passamos tanto tempo à procura de planos perfeitos que nos esquecemos de que são os momentos inesperados que acabam por ficar na memória. Não foi a loja, nem sequer o Uber atribulado que tornaram este dia especial mas foi a sucessão de pequenas histórias, o riso partilhado e a capacidade de transformar um detalhe tão improvável como uma sopa com gelo numa daquelas recordações que serão contadas vezes sem conta.

Porque, no fim de contas, há dias em que o melhor investimento não está nas compras, nem nas deslocações, nem no almoço: está  na boa disposição.

Bj utópico 

Dri








Piscina Infinita

  Há lugares onde o silêncio parece fazer parte da decoração. Uma piscina infinita, rodeada de palmeiras, água morna e um céu nublado que, a...