Ontem, num jantar, dei por mim a olhar para as paredes.
Não eram quadros, nem fotografias, nem aquelas decorações que normalmente tentamos interpretar num restaurante. Eram gravatas.
Gravatas às riscas, às bolas, lisas, mais discretas, outras bastante exuberantes.
E cada uma tinha uma história.
Ou pelo menos era isso que a decoração nos convidava a imaginar.
Fiquei a pensar como é curioso aquilo que escolhemos vestir e como, muitas vezes, acaba por dizer qualquer coisa sobre nós.
As riscas parecem-me organizadas. Pessoas que gostam de saber para onde vão, que fazem listas, que têm planos , mesmo que depois a vida trate de os alterar.
As bolas são outra coisa. Têm qualquer coisa de descontraído, de divertido. Talvez pertençam a quem não leva tudo tão a sério e ainda consegue encontrar graça no meio da confusão.
As lisas parecem mais seguras. Discretas. Não precisam de chamar a atenção.
E depois há as gravatas que não cabem em nenhuma destas categorias.
Talvez sejam as melhores.
Porque também nós somos assim.
Temos dias às riscas e dias às bolas.
Dias em que sabemos exatamente o que queremos e outros em que andamos completamente às voltas.
Há momentos em que somos discretos e outros em que precisamos de ocupar espaço.
Há fases em que queremos controlar tudo e outras em que simplesmente deixamos acontecer.
E talvez seja essa a graça de olhar para aquelas gravatas penduradas numa parede: perceber que não existe uma gravata que defina uma pessoa inteira.
Somos feitos de muitas versões.
Do profissional que aparece durante o dia, do pai ou da mãe ao jantar, do amigo que faz rir, da pessoa que chega a casa cansada e já não quer falar com ninguém.
Somos aquilo que mostramos e também aquilo que ninguém vê.
Por isso, talvez a pergunta não seja “que gravata usarias?” Mas parte de ti está hoje ao comando?A das riscas?A das bolas?A mais discreta?Ou aquela que decidiu, simplesmente, aparecer sem seguir padrão nenhum?
No fundo, talvez aquelas gravatas nas paredes fossem apenas decoração.
Mas fiquei a pensar que, se cada uma pudesse realmente contar uma história, provavelmente descobriríamos que por trás de cada padrão existe uma pessoa cheia de contradições, escolhas, memórias e dias bons e maus.
Tal como nós e talvez seja isso que torna cada pessoa interessante: nao o padrão que escolheu mostrar, mas tudo aquilo que existe por baixo da gravata.
Mundo Utópico da Dri


