sábado, 7 de novembro de 2026

Tardes de Outono: cha , sol e uma mulher que sabia fazer reis

 Há tardes que parecem pedir muito pouco: uma chávena de chá, uma manta sobre as pernas, um raio de sol a atravessar a janela e um livro que nos faça esquecer, por algumas horas, as urgências do mundo.

É assim que tenho hoje passei a minha tarde de outono. Mais devagar, sem grandes planos, acompanhada por uma boa leitura: A Fazedora de Reis, de Sonia Purnell.

E que mulher é esta que entrou na minha tarde!

Pamela Churchill Harriman: Um nome que talvez, para muitos, esteja associado ao glamour, à sedução e às histórias amorosas que marcaram a sua vida. Mas, à medida que avanço na leitura, vou descobrindo uma mulher muito mais interessante do que a imagem social que tantas vezes a acompanhou.

Pamela viveu rodeada de algumas das figuras mais poderosas e influentes do século XX. Foi nora de Winston Churchill, cruzou-se com políticos, artistas, personalidades da cultura e da moda, e construiu uma rede de relações que atravessou gerações e continentes.

Mas o que verdadeiramente me desperta a curiosidade é perceber como conseguiu transformar aquilo que muitos poderiam considerar apenas uma vida social privilegiada numa forma de influência política e diplomática.

A sedução, neste contexto, não é apenas uma questão de beleza ou de romance. É também inteligência, capacidade de ler as pessoas, perceber os seus interesses, construir relações e saber estar nos lugares certos.

Pamela parece ter compreendido algo que continua tão atual: o poder nem sempre está nas mãos de quem ocupa o cargo mais importante. Por vezes, está na pessoa que consegue influenciar quem toma as decisões.

E isso faz-me pensar.

Quantas mulheres terão sido reduzidas, ao longo da História, às suas relações amorosas, à aparência ou à vida social, enquanto a sua inteligência, ambição e capacidade de intervenção ficavam em segundo plano?

A história de Pamela leva-me precisamente a questionar essa fronteira entre a mulher que é observada e a mulher que observa, entre aquela de quem se fala e aquela que, discretamente, participa na construção dos acontecimentos.

Não estou a dizer que tenha sido uma mulher sem contradições, nem que todas as suas escolhas sejam admiráveis. Aliás, são precisamente as suas contradições que tornam esta biografia tão interessante. Gosto de conhecer personagens que não cabem facilmente numa definição, que nos provocam curiosidade e que nos obrigam a olhar para além da primeira impressão.

Talvez seja essa a razão pela qual me tenho deixado envolver tanto nesta leitura.

Enquanto lá fora o outono vai pintando os dias de tons mais suaves, cá dentro acompanho uma mulher que atravessou um século de grandes transformações, entre salões elegantes, bastidores políticos e relações que ajudaram a desenhar a história contemporânea.

E há uma ironia deliciosa nisto tudo: estou tranquilamente sentada no sofá, com uma manta e uma chávena de chá, a ler sobre uma mulher que parece nunca ter tido uma vida propriamente tranquila.

O chá arrefece, o sol muda de posição e eu continuo a virar páginas. Há qualquer coisa de extraordinário em descobrir que, por detrás de uma figura tantas vezes associada ao glamour e à sedução, existia uma mulher que queria muito mais do que ser lembrada por quem amou.

Talvez quisesse ser lembrada pelo poder que exerceu.

E, pelo menos nesta leitura, está a conseguir.

Há livros que nos levam a outros lugares. E há mulheres que, mesmo depois de terem vivido, continuam a dar-nos muito que pensar.

Hoje, a minha tarde pertenceu a Pamela Churchill Harriman. Amanhã, logo se vê quem se senta comigo à mesa do chá.

Mundo Utópico da Dri 

sábado, 31 de outubro de 2026

Cara de Anjo Mau: nesta noite de Halloween, nem todos os anjos são inocentes!

 Há noites em que os monstros saem à rua, as bruxas ganham protagonismo e os vampiros procuram companhia. Mas, convenhamos, os verdadeiros personagens assustadores nem sempre precisam de disfarce.

Nesta noite de Halloween, apetece-me ouvir a música do Jorge Palma, Cara de Anjo Mau.

Porque todos conhecemos alguém com aquele ar angelical, sorriso tranquilo e olhar de quem nunca partiu um prato. Mas basta dar-lhe um bocadinho de confiança para percebermos que a auréola é apenas um acessório decorativo.

Há quem tenha cara de anjo e ideias de diabo. Quem diga «eu sou muito tranquilo» enquanto prepara mentalmente a próxima travessura. E quem consiga fazer uma asneira monumental com a expressão mais inocente do mundo.

A verdade é que todos temos um lado doce e outro mais atrevido. Uns escondem-no melhor, outros nem se dão ao trabalho.

E talvez seja isso que torna a vida interessante: não sermos sempre previsíveis, certinhos ou absolutamente angelicais.

Por isso, esta noite, se alguém vos aparecer com uma cara de anjo, desconfiem pois não vá a criatura trazer uma travessura escondida debaixo das asas!

Quanto a mim, fico com a música do Jorge Palma, um sorriso maroto e a certeza de que, às vezes, ao diabo … basta-lhe uma cara de anjo. 

Feliz Halloween! 🎃

Mundo Utópico da Dri 

sábado, 24 de outubro de 2026

Entre faraós, planetas e o mundo de pernas para o ar

 Hoje, o sábado foi passado a estudar com o adolescente.

Começámos pelos egípcios, a descobrir uma civilização que, milhares de anos depois, continua a desafiar a nossa curiosidade. Pirâmides, faraós, mistérios e a capacidade extraordinária de transformar conhecimento em construções que atravessaram o tempo.

Depois, mudámos de matéria.

Passámos para o sistema solar, porque o teste de Física não se prepara sozinho. Entre planetas, órbitas, gravidade e movimentos, fomos tentando compreender as leis que governam aquilo que existe muito para além de nós.

E é curioso pensar que, enquanto estudamos estas matérias, estamos também a aprender a olhar para o mundo de outra maneira.

A História ensina-nos que as civilizações nascem, crescem, transformam-se e deixam marcas. A Física mostra-nos que o universo tem leis, equilíbrios e movimentos que nem sempre conseguimos compreender à primeira.

Mas basta olhar para a realidade que nos rodeia para perceber que nem tudo parece obedecer a uma lógica tão clara.

Estudamos os movimentos dos planetas, mas há movimentos na sociedade que parecem impossíveis de explicar.

Falamos de gravidade, enquanto a crise da habitação nos puxa cada vez mais para baixo. Tentamos perceber como os planetas se mantêm nas suas órbitas, enquanto tantas pessoas procuram apenas um lugar onde possam construir a sua vida.

E talvez seja esta a parte mais inquietante: conseguimos estudar civilizações antigas, compreender fenómenos físicos e explorar os mistérios do universo, mas continuamos a ter dificuldade em resolver problemas tão essenciais como garantir que as pessoas conseguem viver numa casa.

Os egípcios construíram pirâmides que resistiram ao tempo. Nós, com todo o conhecimento que acumulámos, ainda procuramos construir uma sociedade onde viver não seja um luxo.

Talvez estudar seja também isto: aprender a fazer perguntas.

Não apenas sobre os faraós, os planetas ou as leis da Física, mas sobre o mundo que estamos a construir e aquele que queremos deixar às próximas gerações.

Porque, no fundo, o conhecimento só ganha verdadeiro sentido quando nos ajuda a compreender melhor a vida.

E hoje, entre uma matéria e outra, ficou-me esta ideia: Podemos conhecer a história da humanidade e estudar as leis do universo, mas o maior desafio continua a ser perceber como queremos viver neste pequeno planeta que é a nossa casa.

Por agora, voltamos aos livros. O teste de Física está à porta, os egípcios continuam cheios de mistérios e o sistema solar não vai deixar de existir só porque precisamos de fazer uma pausa.

Quanto ao mundo de pernas para o ar… esse fica para o próximo período de estudo.

Ou talvez para a próxima conversa à mesa. 

Mundo Utópico da Dri 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Almoço de sexta-feira: pataniscas, vinho branco e rosas

 Há almoços que alimentam o corpo, outros que alimentam a alma e os nossos, felizmente, alimentam também a curiosidade, a imaginação e a vontade de pedir mais um copo de vinho branco.

À mesa, temos pataniscas, vinho branco e gindungo. Uma combinação que, por si só, já promete emoções fortes. O gindungo apimenta a comida, o vinho aquece a conversa e nós tratamos de apimentar o resto.

Falamos de música, de pirâmides do Egito, de expressões idiomáticas e de tudo aquilo que começa num assunto perfeitamente normal e acaba numa discussão que nem a Wikipédia conseguiria acompanhar.

E, pelo meio, há músicas que nos ficam no ouvido e que dão outro ritmo à conversa. Foi então que, pela esplanada, passou alguém com rosas vermelhas. 

As rosas vermelhas não passam despercebidas. Muito menos numa mesa onde a curiosidade é um talento coletivo.

Amor? Amante? Aniversário de namoro? Pedido de casamento? Ou pedido de perdão por alguma coisa que ainda não chegou ao conhecimento público?

Talvez fosse um romântico incurável. Talvez um amante a cumprir calendário. Ou talvez alguém tivesse chegado à conclusão de que um simples «desculpa» não ia resolver o problema e que era melhor investir na floricultura.

E nós, naturalmente, começámos a construir cenários. Porque uma pessoa pode não saber nada sobre a vida de quem passa, mas isso nunca foi impedimento para uma boa investigação de esplanada. 

Entretanto, o vinho branco continuava fresco, as pataniscas não se comiam sozinhas e o gindungo lembrava-nos que, mesmo sem conhecermos a história toda, havia sempre maneira de tornar o almoço mais picante.

E lá ficou a dúvida: será que as rosas eram para conquistar alguém ou para evitar que alguém fizesse as malas?

Nunca saberemos. Mas, na nossa mesa, a história já tinha elenco, argumento e banda sonora.

Afinal, há dias em que a vida nos oferece música. Noutros, oferece-nos rosas vermelhas a passar pela esplanada. E há sextas-feiras em que nos oferece tudo isto, acompanhado de pataniscas e vinho branco.

Bonito, bonito… é conseguir transformar um almoço banal numa novela romântica sem conhecer sequer os protagonistas! 

Mundo Utópico da Dri



sábado, 10 de outubro de 2026

Chère Céline Dion, une lettre à mon adolescence

 O regresso de Celine Dion aos palcos foi o tema da conversa ao jantar. A verdade é que, sendo mãe de um adolescente, tento sempre acompanhar os seus interesses, o que me leva a falar de música, artistas e concertos com alguma frequência.

Desta vez, porém, a conversa transportou-me diretamente para a minha própria adolescência. Lembro-me de ouvir certas músicas (no meu walkman, no meu discman e depois no meu mp3) e de acreditar que o amor tinha de ser extraordinário, que as paixões eram para sempre e que cada desilusão amorosa merecia a sua própria banda sonora.
Bastavam os primeiros acordes de “The Power of Love” para que o amor parecesse algo grandioso. Não importava se tínhamos vivido uma grande paixão ou se o nosso interesse romântico mal sabia da nossa existência.
Depois tínhamos “Because You Loved Me”, que parecia expressar tudo o que desejaríamos ouvir de alguém: que acreditava em nós, que nos apoiava e que nos fazia sentir capazes de conquistar o mundo.
Depois em francês porque “On ne change pas” soa quase como uma provocação. Porque mudamos, claro que mudamos. A vida faz questão disso em relação as prioridades, aos sonhos, as responsabilidades que mudam, e até a forma como ouvimos uma canção é diferente.
Então, no meio destas conversas com o meu filho, dou por mim a recordar “It’s All Coming Back to Me Now”, naquela altura, uma paixão era uma paixão. Um desgosto era uma tragédia. E uma música romântica funcionava quase como uma sessão de terapia, embora ninguém lhe chamasse isso.
E depois há “My Heart Will Go On” com o Titanic, o romance, a tragédia e a ideia de que o amor tinha de ser inesquecível, capaz de resistir ao tempo e a todas as adversidades.
É justo dizer que crescemos com expectativas bastante elevadas. Não bastava gostar de alguém. Era quase preciso atravessar oceanos, sobreviver a um naufrágio e ter uma música épica a tocar ao fundo.
Mas a adolescência tem esse privilégio pois ainda acreditamos que tudo é possível e não pede provas antes de sonhar. E é interessante perceber que, enquanto eu recordo o passado, o meu filho está a formar as suas próprias memórias musicais.
Ele pertence a uma geração que descobre artistas de uma forma diferente, que ouve música através de plataformas digitais e que tem referências que nem sempre são as minhas.
Mas, de repente, estamos os três (eu, ele e o pai) à mesa a falar de uma cantora que marcou a minha adolescência (e a do pai também…) e que continua a despertar emoções tantos anos depois. Pelo menos até ele me olhar com aquela expressão adolescente que pode significar tanto “interessante” como “mãe, já acabaste?”.
Quando penso em “That’s the Way It Is”, lembro-me também de como a música nos acompanha nas diferentes fases da vida. Evoluímos, expandimo-nos, adquirimos conhecimento. E, por vezes, certas melodias adquirem novas interpretações, simplesmente porque nós mesmos nos transformámos.
O meu adolescente terá as suas próprias melodias, as suas recordações e os seus relatos a partilhar. Mas por enquanto, deparamo-nos com estes jantares, onde uma notícia sobre espetáculos em Paris acaba por despoletar uma viagem à memória.
Não tenho a certeza se ele irá apreciar todas as melodias que lhe sugiro, pois cada nova geração merece a sua própria banda sonora.
No entanto, aprecio a ideia de que, mesmo que os nossos gostos musicais sejam diferentes, estamos a partilhar algo que transcende a música, pois estamos a partilhar histórias em conjunto.
E, quem sabe, um dia, ao escutar uma destas músicas, ele recordará esta mãe que, no meio de um diálogo, optou por revisitar a juventude sem sequer se levantar da mesa de jantar.

Mundo Utópico da Dri


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Almoço de sexta-feira: passar camisas e outras decisões difíceis da vida

 Almoço de sexta-feira, chegámos a um dos grandes dilemas da humanidade: passar camisas. E, se sim, como? E porquê? E será que a forma como passamos uma camisa diz alguma coisa sobre a nossa personalidade? Eu acho que sim. Ou, pelo menos, acho que dá uma conversa magnífica à mesa.

Temos os perfeccionistas do ferro: uma camisa não está passada enquanto não estiver absolutamente impecável. Tudo tem uma ordem, um método e, provavelmente, um manual de procedimentos. São pessoas que não descansam enquanto o tecido não estiver mais liso do que uma estrada acabada de alcatroar.

Temos os minimalistas: Passam a parte da frente, dão um jeito à gola e consideram que as costas são um detalhe secundário. Afinal, quem é que anda a observar as costas de uma camisa? Se a reunião for por videoconferência, o esforço concentra-se na zona visível do ecrã. As costas podem continuar a viver a sua própria vida.

Temos os defensores da teoria da cadeira: A camisa sai da máquina, vai para um cabide, passa pela cadeira do quarto e, eventualmente, acaba vestida. O método é simples: se ficar pendurada tempo suficiente, as rugas acabam por se cansar e desaparecem.

Temos os que delegam : Passar camisas? Claro que sim. Desde que seja outra pessoa a fazê-lo. Estas pessoas descobriram que a vida é demasiado curta para perder tempo com um ferro de engomar. Preferem investir esse tempo em atividades mais nobres, como escolher o destino das próximas férias ou decidir onde vão almoçar.

Temos os aventureiros do ferro: Estes pegam numa camisa e começam com confiança. Depois percebem que a manga tem uma costura, que a gola tem duas pontas e que a parte da frente parece ter sido desenhada para testar a paciência humana

Temos os que compram camisas que não precisam de passar: Escolhem tecidos que não amarrotam facilmente, seguem as instruções da etiqueta e vivem sem o peso emocional de uma tábua de engomar no meio da casa.

Mas o verdadeiro dilema não é a camisa…é o que fazemos com ela. Porque há camisas de cerimónia, camisas de trabalho, camisas de férias e camisas que comprámos numa promoção e que continuam no armário à espera de uma ocasião que nunca chega.

Há camisas que nos fazem sentir importantes e outras que nos fazem parecer funcionários de uma companhia aérea dos anos 80.

Há camisas às riscas, aos quadrados, lisas, de linho, de algodão e aquelas que, depois de lavadas, ficam com um tamanho que nos obriga a reconsiderar todas as decisões tomadas na vida.

E depois há a questão fundamental: será que a camisa deve adaptar-se à pessoa ou a pessoa deve adaptar-se à camisa?

Porque uma camisa impecavelmente passada pode esconder uma personalidade completamente amarrotada. E uma camisa ligeiramente enrugada pode ser apenas sinal de que alguém tem coisas mais interessantes para fazer.

Depois de tanta análise, porque tudo isto é entre pratos, copos e conversas que começam num assunto e acabam noutro completamente diferente, concluímos que os almoços de sexta-feira têm esta capacidade extraordinária de transformar uma camisa numa tese, um telefonema num mistério e uma simples conversa numa tarde inteira de entretenimento.

E eu continuo com uma dúvida.

Será que somos nós que passamos as camisas ou são as camisas que acabam por passar a ferro a nossa paciência?

Mundo utópico da Dri



segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O meu discurso de 5 de Outubro : E se Portugal fosse uma casa?

 Hoje é 5 de Outubro. Uma data que nos lembra que, em 1910, Portugal deixou de ser uma Monarquia e passou a ser uma República. Passaram 116 anos.

E eu começo por fazer uma pergunta talvez pouco conveniente para uma cerimónia como esta:O que fizemos nós com a casa que recebemos? Porque gosto de imaginar Portugal como uma casa.

Uma casa antiga com paredes cheias de histórias, retratos de antepassados, móveis que já ninguém sabe muito bem quem comprou, algumas janelas que precisam de ser arranjadas e uma quantidade impressionante de coisas guardadas em gavetas.

É uma casa com reis, com navegadores, com poetas, com revoluções, com República, com ditadura, com democracia e, felizmente, com muita gente que ainda sabe contar histórias.

Em 1910 mudámos a placa da porta, mas casa continuou. A República mudou o regime político, mas não apagou os séculos que estavam antes dela. Continuamos a viver rodeados de símbolos, património e tradições de uma Monarquia que já não existe.E não há nenhuma contradição nisso.

Podemos viver numa República e visitar um palácio.

Podemos não querer um rei e gostar de ouvir histórias sobre reis.

Podemos defender a República e, ao mesmo tempo, reconhecer que a Monarquia faz parte da nossa História.

A História não desaparece porque mudamos de regime.

É como uma fotografia de família.Podemos não gostar de toda a gente que aparece na fotografia. Mas rasgá-la não altera o facto de terem feito parte da família. E talvez seja aqui que começa a minha inquietação.

Porque discutimos muito sobre aquilo que somos politicamente: Monárquicos, Republicanos, Esquerda, Direita, Centro....

Às vezes parece que Portugal é uma rotunda enorme e passamos a vida a discutir qual é a saída certa e enquanto discutimos...a casa vai ficando sem algumas das suas paredes.

Ou seja, 

  • Desaparecem tradições.
  • Mudam bairros.
  • Fecham lojas antigas.
  • Desaparecem profissões.
  • Mudam as cidades.
  • Há lugares que os nossos filhos vão conhecer apenas através de fotografias.
E nós continuamos a discutir com uma extraordinária capacidade portuguesa para discutir durante três horas sem chegar sequer ao café.

Por isso,  talvez precisemos de falar mais sobre identidade. Não aquela identidade feita de discursos bonitos. Mas a identidade do quotidiano ou aquela que está numa festa popular ou num mercado, ou num café antigo ou uma receita que passa de avó para neta ou num sotaque ou num azulejo.

É também aí que está Portugal. Fernando Pessoa escreveu: “Senhor, falta cumprir-se Portugal.”

E talvez esta frase continue estranhamente atual. Porque Portugal parece ser sempre um país a meio de qualquer coisa. Ou seja, a meio do passado e do futuro ou a meio da tradição e da modernidade ou a meio da vontade de preservar e da vontade de mudar.

Um país completamente acabado seria, provavelmente, um país bastante aborrecido. O problema é quando confundimos modernização com destruição. Quando achamos que tudo o que é antigo está ultrapassado. E quando só percebemos o valor de uma coisa depois de ela desaparecer

Hoje celebramos a República e devemos celebrá-la. Mas talvez o melhor tributo que podemos fazer à República não seja apenas olhar para 1910. É olhar para 2026 e perguntar:

  • Que país estamos a construir?
  • Que cidades queremos?
  • Que tradições queremos transmitir?
  • Que património queremos proteger?
  • Que memória queremos deixar?

E, sobretudo:

  • quando os nossos filhos olharem para Portugal daqui a cinquenta anos, vão reconhecer a casa?

Espero que sim.

Hoje é 5 de Outubro.

Há 116 anos mudámos de regime.

Talvez esteja na altura de não nos esquecermos de que um país não se muda apenas através das instituições.

Também se muda através daquilo que escolhemos preservar.

E talvez Portugal não precise de escolher entre o passado e o futuro.

Precise apenas de aprender a caminhar para o futuro sem deixar o passado caído pelo caminho.

Mundo Utópico da Dri 



Tardes de Outono: cha , sol e uma mulher que sabia fazer reis

  Há tardes que parecem pedir muito pouco: uma chávena de chá, uma manta sobre as pernas, um raio de sol a atravessar a janela e um livro qu...