O regresso de Celine Dion aos palcos foi o tema da conversa ao jantar. A verdade é que, sendo mãe de um adolescente, tento sempre acompanhar os seus interesses, o que me leva a falar de música, artistas e concertos com alguma frequência.
Desta vez, porém, a conversa transportou-me diretamente para a minha própria adolescência. Lembro-me de ouvir certas músicas (no meu walkman, no meu discman e depois no meu mp3) e de acreditar que o amor tinha de ser extraordinário, que as paixões eram para sempre e que cada desilusão amorosa merecia a sua própria banda sonora.
Bastavam os primeiros acordes de “The Power of Love” para que o amor parecesse algo grandioso. Não importava se tínhamos vivido uma grande paixão ou se o nosso interesse romântico mal sabia da nossa existência.
Depois tínhamos “Because You Loved Me”, que parecia expressar tudo o que desejaríamos ouvir de alguém: que acreditava em nós, que nos apoiava e que nos fazia sentir capazes de conquistar o mundo.
Depois em francês porque “On ne change pas” soa quase como uma provocação. Porque mudamos, claro que mudamos. A vida faz questão disso em relação as prioridades, aos sonhos, as responsabilidades que mudam, e até a forma como ouvimos uma canção é diferente.
Então, no meio destas conversas com o meu filho, dou por mim a recordar “It’s All Coming Back to Me Now”, naquela altura, uma paixão era uma paixão. Um desgosto era uma tragédia. E uma música romântica funcionava quase como uma sessão de terapia, embora ninguém lhe chamasse isso.
E depois há “My Heart Will Go On” com o Titanic, o romance, a tragédia e a ideia de que o amor tinha de ser inesquecível, capaz de resistir ao tempo e a todas as adversidades.
É justo dizer que crescemos com expectativas bastante elevadas. Não bastava gostar de alguém. Era quase preciso atravessar oceanos, sobreviver a um naufrágio e ter uma música épica a tocar ao fundo.
Mas a adolescência tem esse privilégio pois ainda acreditamos que tudo é possível e não pede provas antes de sonhar. E é interessante perceber que, enquanto eu recordo o passado, o meu filho está a formar as suas próprias memórias musicais.
Ele pertence a uma geração que descobre artistas de uma forma diferente, que ouve música através de plataformas digitais e que tem referências que nem sempre são as minhas.
Mas, de repente, estamos os três (eu, ele e o pai) à mesa a falar de uma cantora que marcou a minha adolescência (e a do pai também…) e que continua a despertar emoções tantos anos depois. Pelo menos até ele me olhar com aquela expressão adolescente que pode significar tanto “interessante” como “mãe, já acabaste?”.
Quando penso em “That’s the Way It Is”, lembro-me também de como a música nos acompanha nas diferentes fases da vida. Evoluímos, expandimo-nos, adquirimos conhecimento. E, por vezes, certas melodias adquirem novas interpretações, simplesmente porque nós mesmos nos transformámos.
O meu adolescente terá as suas próprias melodias, as suas recordações e os seus relatos a partilhar. Mas por enquanto, deparamo-nos com estes jantares, onde uma notícia sobre espetáculos em Paris acaba por despoletar uma viagem à memória.
Não tenho a certeza se ele irá apreciar todas as melodias que lhe sugiro, pois cada nova geração merece a sua própria banda sonora.
No entanto, aprecio a ideia de que, mesmo que os nossos gostos musicais sejam diferentes, estamos a partilhar algo que transcende a música, pois estamos a partilhar histórias em conjunto.
E, quem sabe, um dia, ao escutar uma destas músicas, ele recordará esta mãe que, no meio de um diálogo, optou por revisitar a juventude sem sequer se levantar da mesa de jantar.






