Almoço de sexta-feira, chegámos a um dos grandes dilemas da humanidade: passar camisas. E, se sim, como? E porquê? E será que a forma como passamos uma camisa diz alguma coisa sobre a nossa personalidade? Eu acho que sim. Ou, pelo menos, acho que dá uma conversa magnífica à mesa.
Temos os perfeccionistas do ferro: uma camisa não está passada enquanto não estiver absolutamente impecável. Tudo tem uma ordem, um método e, provavelmente, um manual de procedimentos. São pessoas que não descansam enquanto o tecido não estiver mais liso do que uma estrada acabada de alcatroar.
Temos os minimalistas: Passam a parte da frente, dão um jeito à gola e consideram que as costas são um detalhe secundário. Afinal, quem é que anda a observar as costas de uma camisa? Se a reunião for por videoconferência, o esforço concentra-se na zona visível do ecrã. As costas podem continuar a viver a sua própria vida.
Temos os defensores da teoria da cadeira: A camisa sai da máquina, vai para um cabide, passa pela cadeira do quarto e, eventualmente, acaba vestida. O método é simples: se ficar pendurada tempo suficiente, as rugas acabam por se cansar e desaparecem.
Temos os que delegam : Passar camisas? Claro que sim. Desde que seja outra pessoa a fazê-lo. Estas pessoas descobriram que a vida é demasiado curta para perder tempo com um ferro de engomar. Preferem investir esse tempo em atividades mais nobres, como escolher o destino das próximas férias ou decidir onde vão almoçar.
Temos os aventureiros do ferro: Estes pegam numa camisa e começam com confiança. Depois percebem que a manga tem uma costura, que a gola tem duas pontas e que a parte da frente parece ter sido desenhada para testar a paciência humana
Temos os que compram camisas que não precisam de passar: Escolhem tecidos que não amarrotam facilmente, seguem as instruções da etiqueta e vivem sem o peso emocional de uma tábua de engomar no meio da casa.
Mas o verdadeiro dilema não é a camisa…é o que fazemos com ela. Porque há camisas de cerimónia, camisas de trabalho, camisas de férias e camisas que comprámos numa promoção e que continuam no armário à espera de uma ocasião que nunca chega.
Há camisas que nos fazem sentir importantes e outras que nos fazem parecer funcionários de uma companhia aérea dos anos 80.
Há camisas às riscas, aos quadrados, lisas, de linho, de algodão e aquelas que, depois de lavadas, ficam com um tamanho que nos obriga a reconsiderar todas as decisões tomadas na vida.
E depois há a questão fundamental: será que a camisa deve adaptar-se à pessoa ou a pessoa deve adaptar-se à camisa?
Porque uma camisa impecavelmente passada pode esconder uma personalidade completamente amarrotada. E uma camisa ligeiramente enrugada pode ser apenas sinal de que alguém tem coisas mais interessantes para fazer.
Depois de tanta análise, porque tudo isto é entre pratos, copos e conversas que começam num assunto e acabam noutro completamente diferente, concluímos que os almoços de sexta-feira têm esta capacidade extraordinária de transformar uma camisa numa tese, um telefonema num mistério e uma simples conversa numa tarde inteira de entretenimento.
E eu continuo com uma dúvida.
Será que somos nós que passamos as camisas ou são as camisas que acabam por passar a ferro a nossa paciência?
Mundo utópico da Dri





