sábado, 11 de julho de 2026

O nosso ritual ..............

Há coisas que fazem bem à alma. Para mim, uma delas é este nosso compromisso: tentar juntar as seis, uma vez por mês, à volta de uma mesa.

Nem sempre é fácil. As agendas atropelam-se, os imprevistos aparecem e, desta vez, fomos apenas cinco. Mas quando nos sentamos juntas, a conversa acontece naturalmente.

Somos seis mulheres completamente diferentes. Diferentes nas idades, nos signos, nas profissões, nos feitios, nos ritmos de vida e até na forma como olhamos para o mundo. Há quem seja mais racional, quem decida sempre com o coração, quem fale pelos cotovelos, quem observe primeiro e só depois dê a sua opinião. Há quem viva rodeada de listas e quem prefira improvisar. Quem nunca dispense um bom plano e quem transforme qualquer plano numa aventura.

Talvez seja precisamente essa diversidade que torna estes encontros tão especiais. Não pensamos todas da mesma forma, nem temos de pensar. Discordamos, debatemos, rimos, aprendemos e, muitas vezes, acabamos por sair da mesa com uma perspetiva diferente daquela com que chegámos.

No almoço de hoje houve de tudo um pouco: assuntos sérios, desabafos, gargalhadas, histórias que já conhecíamos mas que adoramos voltar a ouvir, dicas que levamos connosco, algumas fofocas (porque também fazem parte da vida!) e muitos brindes. Pelo meio, uma sangria de pepino bem fresca que soube ainda melhor acompanhada da melhor companhia.

Há uma leveza difícil de explicar nestes encontros. É aquela sensação de podermos ser exatamente quem somos, sem filtros, sem pressas e sem julgamentos. De celebrar as conquistas umas das outras, de ouvir quando é preciso ouvir, de dar colo quando faz falta e de rir até doer a barriga.

Hoje éramos cinco, mas o espírito continuou completo. Porque mais do que o número, importa a vontade de continuar a criar memórias, mês após mês.

No fundo, estes momentos são o nosso pequeno ritual. Um lembrete de que a amizade não precisa de pessoas iguais para ser verdadeira. Precisa apenas de respeito, tempo, disponibilidade e da vontade de continuar presente na vida umas das outras.

E já estamos a contar os dias para o próximo… de preferência, com as seis.

Bj utópico 
Dri


quinta-feira, 9 de julho de 2026

Evita no Coliseu: quando Porto me devolveu Buenos Aires



Hoje a noite foi preenchida com uma ida ao Coliseu para ver Evita foi uma dessas experiências raras em que a cidade muda de temperatura, de ritmo, de alma. Ir ao Coliseu ver Evita com o meu pai tornou‑se uma dessas travessias raras em que o presente se abre, o passado regressa, e uma cidade inteira muda de respiração.

Entrámos no Coliseu como quem entra num lugar que já conhece, mas que guarda sempre uma surpresa. E antes mesmo de o musical começar, o meu pai sorriu com aquele sorriso que anuncia uma memória antiga..

O primeiro acorde abriu uma porta que eu já não sabia que ainda existia. A voz que se ergueu no palco não trouxe apenas Eva Perón, mas  trouxe a minha história com aquela cidade que me ensinou a olhar o mundo com outra intensidade. Buenos Aires tem essa capacidade estranha de nos marcar com uma melancolia bonita, uma espécie de saudade que não dói, mas que pulsa. 

As luzes do palco tinham o brilho das noites de San Telmo, onde o tango se dança com o corpo, mas também com a alma. Os gestos dos atores tinham a cadência do tango que aprendi a reconhecer nas esquinas, nos cafés antigos, nos passos cruzados que contam histórias de amor, perda e reencontro. E a música tinha aquela força que mistura elegância, intensidade e uma certa tristeza luminosa que só Buenos Aires sabe ter.

Enquanto Eva Perón ganhava vida no palco, eu revivia a minha viagem: as ruas coloridas do Caminito, os cafés onde o tempo parece ficar suspenso, as conversas demoradas, os silêncios que dizem mais do que palavras, e aquela sensação de que a cidade nos observa como se soubesse segredos sobre nós.

O Coliseu tornou-se um espelho emocional. Porto respirava com o coração de Buenos Aires. E eu, sentada ali, sentia que as duas cidades  se tocavam por instantes. Aliás  como se o mundo tivesse decidido alinhar memórias, geografias e afetos só para me lembrar de quem eu fui, de quem sou e de quem continuo a ser.

O musical trouxe uma saudade da minha viagem, do tango, da mística, da forma como Buenos Aires me ensinou que há lugares que ficam para sempre dentro de nós, mesmo quando voltamos. Saí do Coliseu com a sensação de ter regressado sem ter viajado. E talvez seja isso que a arte faz: devolve-nos às cidades que amamos, às versões de nós que lá ficaram, às histórias que continuam a dançar dentro de nós.

Hoje Buenos Aires ficou mais perto e a vontade de voltar também .

Bj utópico

Dri



terça-feira, 7 de julho de 2026

Quando o Futebol se Torna Esperança

Há algo de profundamente humano no momento em que começa um Mundial de Futebol. As ruas ganham outra respiração, os cafés tornam-se pequenas assembleias populares, e as casas transformam-se em arquibancadas improvisadas onde três gerações se sentam lado a lado. O avô que recorda Eusébio, o pai que fala de Figo, o filho que sonha com o próximo herói, mas todos encontram no futebol uma língua comum, uma ponte que atravessa décadas e que, por instantes, faz do mundo um lugar mais simples.

O futebol tem esta força rara: une sem pedir tradução, convoca sem exigir explicação. É uma espécie de liturgia laica onde cada golo é uma epifania e cada jogo, uma narrativa que nos devolve ao essencial ao desejo de pertencermos a algo maior do que nós.

Mas o Mundial também nos lembra outra verdade, menos luminosa e igualmente necessária: a perda.
A derrota, esse território que ninguém quer habitar, mas que todos visitamos mais cedo ou mais tarde. No livro Esperança, o Papa Francisco escreve que a esperança “não é otimismo ingénuo, mas a coragem de continuar apesar das sombras”. E talvez seja isso que o futebol nos ensina com mais honestidade: que a esperança é teimosa. Que ela resiste mesmo quando o marcador não nos favorece, mesmo quando o apito final nos corta o fôlego, mesmo quando o sonho fica por cumprir.
A perda no futebol não é apenas um resultado, mas sim um espelho que nos mostra quem somos quando o aplauso se cala ou nos mostra a grandeza de levantar a cabeça, de reconhecer o esforço, de agradecer o caminho ou mesmo que a dignidade não está apenas na vitória, mas na forma como atravessamos a derrota.

E é por isso que o futebol continua a ser tão nosso, porque nele cabem as lágrimas e os abraços, a frustração e a festa, o silêncio e o grito. Mas também cabem as histórias que contamos aos nossos filhos e as memórias que herdámos dos nossos pais.

Que este Mundial nos lembre isso: que a vitória é bela, mas a perda também educa e que, no fim, o que fica não é apenas o resultado, mas sim é a história que construímos juntos.

Bj utópico

Dri



sexta-feira, 3 de julho de 2026

Leques: a arte de abrir a alma

Há objetos que carregam histórias, memórias e gestos que atravessam séculos. O leque é um deles. Um artefacto aparentemente simples, mas que, quando observado com atenção, revela uma coreografia íntima entre forma, movimento e intenção. No Mundo Utópico da Dri, gosto de pensar nos leques como extensões da própria humanidade: cada pessoa, tal como cada leque, abre‑se ao mundo de maneira única — umas vezes com suavidade, outras com estrondo, sempre com significado.

O leque oriental, por exemplo, nasce da delicadeza. Abre-se como quem respira fundo antes de falar, com um silêncio que antecede a palavra certa. É o símbolo das pessoas de temperamento calmo, aquelas que se revelam devagar, sem pressa de ocupar espaço, mas com a profundidade de quem sabe que a força não precisa de ruído. Já o leque que se abre com estalo — firme, decidido, quase teatral — lembra-nos as personalidades intensas, assertivas, que chegam ao mundo com presença e deixam marca. São almas que não temem o impacto, que se afirmam com clareza e que, tal como o estalar do leque, anunciam a sua verdade sem hesitação.

Há também os leques ornamentados, rendados, trabalhados com paciência artesanal. São como pessoas cheias de camadas: complexas, densas, feitas de detalhes que só se revelam a quem observa com cuidado. Cada filigrana é uma história, cada cor é uma memória, cada curva é uma emoção guardada. Em contraste, os leques minimalistas — monocromáticos, de linhas limpas — representam aqueles seres humanos de essência direta, que não precisam de adornos para serem inteiros. São a simplicidade que não é ausência, mas clareza.

E depois existem os leques frágeis, quase etéreos, que se desfazem com o tempo ou com o uso. São as sensibilidades profundas, aquelas que sentem o mundo com intensidade e que, por isso mesmo, exigem cuidado. Não são frágeis por falta de força, mas porque carregam uma perceção tão fina da vida que qualquer vento mais brusco se torna excesso. Por outro lado, os leques resistentes — de madeira robusta, articulados com precisão — são a imagem da resiliência. Pessoas que se dobram, mas não quebram; que se fecham para se proteger, mas que sabem sempre reencontrar o gesto de se abrir.

No fim, todos os leques, independentemente da forma, cumprem a mesma função: refrescar, aliviar, acompanhar. Assim também os seres humanos, tão diferentes entre si, procuram sentido, pertença e harmonia. Cada um abre o seu “leque interior” à sua maneira, revelando o que é, o que sente, o que sonha. E talvez a verdadeira utopia esteja nisso: reconhecer que a beleza da humanidade reside precisamente na diversidade dos seus movimentos.

Por aqui, imagino um lugar onde o gesto de abrir o leque é também o gesto de abrir a alma. gosto de imaginar que cada pessoa carrega um leque invisível. Uns têm-no pintado de cores vibrantes, outros guardam-no em tons neutros. Uns abrem-no com ousadia, outros com pudor. Mas todos, sem exceção, possuem esse instrumento silencioso que lhes permite regular a intensidade com que se oferecem ao mundo. E talvez a verdadeira utopia seja esta: aprender a reconhecer o leque do outro, respeitar o seu ritmo, honrar o seu movimento.

Porque, no fim, a filosofia dos leques é a filosofia da humanidade: abrir-se é sempre um ato de coragem, fechar-se é sempre um ato de cuidado. E viver é aprender a dançar entre os dois.

Bj utópico

Dri



domingo, 28 de junho de 2026

Santos Populares: onde o verão sabe a felicidade

Há qualquer coisa de mágico nas noites de junho.

Talvez sejam as ruas vestidas de cor. Talvez sejam os manjericos que transportam desejos em silêncio. Ou talvez seja apenas o verão a lembrar-nos que a felicidade raramente precisa de muito.

No mundo utópico, os Santos Populares não são apenas uma festa. São uma pausa. Um daqueles momentos em que deixamos o relógio descansar e passamos a medir o tempo pelas gargalhadas, pelos brindes e pelas conversas que insistem em prolongar-se noite dentro.

O cheiro das sardinhas acabadas de assar mistura-se com o dos pimentos na brasa. Há caldo verde servido em malgas que aquecem mais do que as mãos. Há bifanas, febras, chouriço assado e broa sobre a mesa. Petiscos simples, mas capazes de reunir gerações inteiras à volta da mesma vontade: estar juntos.

E talvez seja esse o verdadeiro sabor do verão.

Não está apenas na praia ou no calor dos dias compridos. Está na cadeira que aparece para quem chega sem avisar. Na música que todos sabem cantar, mesmo desafinados. Na mesa onde há sempre espaço para mais um prato e mais uma história.

Vivemos tempos em que tudo parece correr depressa. Mas junho lembra-nos que algumas tradições continuam a vencer o tempo. Porque há memórias que se fazem entre bandeirinhas coloridas, copos erguidos e o fumo das grelhas que sobe para um céu ainda morno.

Aqui o verão não se mede em graus. Mede-se em afetos.

E enquanto houver uma rua em festa, um petisco para partilhar e alguém disposto a brindar à vida, haverá sempre razões para acreditar que a utopia pode, afinal, existir.

Bj utópico

Dri



sexta-feira, 12 de junho de 2026

Novo Almoço de Sexta

Mais uma sexta-feira, mais um almoço…. O calor estava tão intenso que até os cubos de gelo pareciam pedir baixa médica. A missão do dia era simples: encontrar sombra, sobreviver às temperaturas e desfrutar do almoço.

As conversas seguiram os temas habituais: comida, histórias da semana, planos para o fim de semana e aquelas teorias que só fazem sentido à mesa de almoço de sexta-feira. 

Para ajudar ao ambiente, os leques entraram em ação. Uns abanavam-se com elegância, outros com tal entusiasmo que pareciam estar a tentar alterar a direção do vento.

Entre garfadas, risos e copos constantemente reabastecidos, o calor continuava a subir. E foi aí que começou o verdadeiro incêndio. Não daqueles que aparecem nas notícias, mas dos outros: as gargalhadas que se espalham pela mesa, as histórias que ganham proporções épicas a cada nova versão e as conversas que aquecem mais depressa do que o próprio verão.

Quando uma piada pega fogo, já se sabe como é. Um comentário leva a outro, alguém acrescenta um detalhe improvável, outro faz de conta que acredita e, de repente, ninguém consegue apagar as chamas da boa disposição.

Os leques mantinham-se em serviço permanente e o almoço avançava entre pequenas explosões de humor. Felizmente, ninguém chamou os bombeiros. Afinal, há incêndios que não vale a pena apagar.

E assim passou mais almoço de sexta-feira com muito calor, algumas labaredas de imaginação e a certeza de que a melhor forma de enfrentar as altas temperaturas continua a ser uma boa refeição acompanhada de boa companhia.

Bj utópico 

Dri

sexta-feira, 22 de maio de 2026

A quinta dos Animais ao almoço



Sexta-feira tem ganho um estatuto quase litúrgico. Não pela pressa do fim de semana, nem pelo alívio burocrático das horas que terminam, mas por aqueles almoços onde a conversa se estende para lá da mesa e nos devolve a estranha sensação de que ainda é possível pensar o mundo com tempo. Entre garfadas, cafés demorados e livros espalhados como pequenos manifestos, viajámos do ronronar — esse som primitivo e reconfortante que parece guardar a essência inteira do animal — até Orwell e à inevitável brutalidade da frase: “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”.

Falou-se da quinta dos animais, mas também da nossa. Das hierarquias invisíveis, dos instintos que fingimos domesticar, da delicada fronteira entre civilização e natureza. E como sempre acontece nestes encontros, a conversa desviou-se para aquilo que verdadeiramente importa: a diferença dos sexos, os equilíbrios impossíveis entre o que é biológico, cultural, desejado ou imposto. Não para encontrar respostas definitivas — felizmente ainda desconfiamos delas — mas para manter viva a possibilidade de perguntar.

Há qualquer coisa de profundamente raro nestes almoços: a capacidade de saltar do ensaio político para o comportamento felino, da literatura para o corpo, da teoria para o riso, sem perder coerência. Como se pensar também pudesse ser uma forma de amizade. Como se os livros servissem precisamente para isto: abrir portas inesperadas entre pessoas que ainda se permitem conversar sem cronómetros.

No fim, ficou a sensação de que talvez a verdadeira utopia esteja aqui. Não nas grandes revoluções, mas nestas mesas de sexta-feira onde ainda há tempo para discutir Orwell, animais, homens, mulheres e o mundo — enquanto a comida arrefece.

Um bj utópico

Dri

O nosso ritual ..............

Há coisas que fazem bem à alma. Para mim, uma delas é este nosso compromisso: tentar juntar as seis, uma vez por mês, à volta de uma mesa. N...