Foi durante um café que começámos a falar de diárias. Não de despesas, nem de contas, nem propriamente do valor que se recebe para almoçar. Falávamos das diárias como conceito. Daqueles menus que aparecem à porta dos restaurantes e que dizem, de uma forma muito simples, o que há para comer naquele dia.
O conceito de diária, tem qualquer coisa de simples, pois não promete experiências, não fala em degustações e não anuncia desconstruções, pois é apenas uma refeição. E talvez seja precisamente aí que começa o que é bom na gastronomia portuguesa.
Se falarmos de gastronomia portuguesa, de repente tínhamos uma lista enorme de coisas que são boas: o pão, o azeite, os queijos, o peixe, os mariscos, a carne, as sopas, os enchidos, o arroz, as batatas..... Porque talvez a nossa riqueza não esteja apenas nos produtos, mas na forma como os juntamos e no tempero
Talvez a gastronomia portuguesa tenha pormenor de não precisar de explicar demasiado, pois um bom peixe não precisa de uma história de vinte linhas ou um caldo verde não precisa de ser reinventado. Aliás há pratos que são tão nossos que basta dizermos o nome e já sabemos quase tudo.
Falámos também dos menus e fiquei a pensar que talvez a diária seja uma pequena instituição portuguesa. Há qualquer coisa de reconfortante em chegar a um restaurante e perguntar:
— O que é a diária hoje?
E alguém responder. Sem grandes cerimónias. Sem precisarmos de escolher entre vinte e sete possibilidades. Ou seja, a capacidade de nos fazer felizes sem grande complicação com uma mesa, um prato, uma conversa e um café no fim. Se déssemos mais valor a estas pequenas coisas, não transformaríamos necessariamente todos os restaurantes em restaurantes de luxo.
Talvez o nosso maior património gastronómico continuasse a estar naqueles lugares onde se come bem sem ser preciso explicar porquê.
Sem dúvida, que há conversas que começam num café, mas há ideias que ficam connosco muito depois de a chávena estar vazia.
Até porque uma boa refeição raramente acaba quando se termina o prato. Às vezes continua na conversa. Na memória. E, claro, na vontade de voltar.
Foi assim que terminou o café.
A diária ficou por ali.
Mas a gastronomia ficou na conversa.
E talvez tenha sido essa a melhor parte.
Bj utópico,
Dri



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