sexta-feira, 3 de julho de 2026

Leques: a arte de abrir a alma

Há objetos que carregam histórias, memórias e gestos que atravessam séculos. O leque é um deles. Um artefacto aparentemente simples, mas que, quando observado com atenção, revela uma coreografia íntima entre forma, movimento e intenção. No Mundo Utópico da Dri, gosto de pensar nos leques como extensões da própria humanidade: cada pessoa, tal como cada leque, abre‑se ao mundo de maneira única — umas vezes com suavidade, outras com estrondo, sempre com significado.

O leque oriental, por exemplo, nasce da delicadeza. Abre-se como quem respira fundo antes de falar, com um silêncio que antecede a palavra certa. É o símbolo das pessoas de temperamento calmo, aquelas que se revelam devagar, sem pressa de ocupar espaço, mas com a profundidade de quem sabe que a força não precisa de ruído. Já o leque que se abre com estalo — firme, decidido, quase teatral — lembra-nos as personalidades intensas, assertivas, que chegam ao mundo com presença e deixam marca. São almas que não temem o impacto, que se afirmam com clareza e que, tal como o estalar do leque, anunciam a sua verdade sem hesitação.

Há também os leques ornamentados, rendados, trabalhados com paciência artesanal. São como pessoas cheias de camadas: complexas, densas, feitas de detalhes que só se revelam a quem observa com cuidado. Cada filigrana é uma história, cada cor é uma memória, cada curva é uma emoção guardada. Em contraste, os leques minimalistas — monocromáticos, de linhas limpas — representam aqueles seres humanos de essência direta, que não precisam de adornos para serem inteiros. São a simplicidade que não é ausência, mas clareza.

E depois existem os leques frágeis, quase etéreos, que se desfazem com o tempo ou com o uso. São as sensibilidades profundas, aquelas que sentem o mundo com intensidade e que, por isso mesmo, exigem cuidado. Não são frágeis por falta de força, mas porque carregam uma perceção tão fina da vida que qualquer vento mais brusco se torna excesso. Por outro lado, os leques resistentes — de madeira robusta, articulados com precisão — são a imagem da resiliência. Pessoas que se dobram, mas não quebram; que se fecham para se proteger, mas que sabem sempre reencontrar o gesto de se abrir.

No fim, todos os leques, independentemente da forma, cumprem a mesma função: refrescar, aliviar, acompanhar. Assim também os seres humanos, tão diferentes entre si, procuram sentido, pertença e harmonia. Cada um abre o seu “leque interior” à sua maneira, revelando o que é, o que sente, o que sonha. E talvez a verdadeira utopia esteja nisso: reconhecer que a beleza da humanidade reside precisamente na diversidade dos seus movimentos.

Por aqui, imagino um lugar onde o gesto de abrir o leque é também o gesto de abrir a alma. gosto de imaginar que cada pessoa carrega um leque invisível. Uns têm-no pintado de cores vibrantes, outros guardam-no em tons neutros. Uns abrem-no com ousadia, outros com pudor. Mas todos, sem exceção, possuem esse instrumento silencioso que lhes permite regular a intensidade com que se oferecem ao mundo. E talvez a verdadeira utopia seja esta: aprender a reconhecer o leque do outro, respeitar o seu ritmo, honrar o seu movimento.

Porque, no fim, a filosofia dos leques é a filosofia da humanidade: abrir-se é sempre um ato de coragem, fechar-se é sempre um ato de cuidado. E viver é aprender a dançar entre os dois.

Bj utópico

Dri



domingo, 28 de junho de 2026

Santos Populares: onde o verão sabe a felicidade

Há qualquer coisa de mágico nas noites de junho.

Talvez sejam as ruas vestidas de cor. Talvez sejam os manjericos que transportam desejos em silêncio. Ou talvez seja apenas o verão a lembrar-nos que a felicidade raramente precisa de muito.

No mundo utópico, os Santos Populares não são apenas uma festa. São uma pausa. Um daqueles momentos em que deixamos o relógio descansar e passamos a medir o tempo pelas gargalhadas, pelos brindes e pelas conversas que insistem em prolongar-se noite dentro.

O cheiro das sardinhas acabadas de assar mistura-se com o dos pimentos na brasa. Há caldo verde servido em malgas que aquecem mais do que as mãos. Há bifanas, febras, chouriço assado e broa sobre a mesa. Petiscos simples, mas capazes de reunir gerações inteiras à volta da mesma vontade: estar juntos.

E talvez seja esse o verdadeiro sabor do verão.

Não está apenas na praia ou no calor dos dias compridos. Está na cadeira que aparece para quem chega sem avisar. Na música que todos sabem cantar, mesmo desafinados. Na mesa onde há sempre espaço para mais um prato e mais uma história.

Vivemos tempos em que tudo parece correr depressa. Mas junho lembra-nos que algumas tradições continuam a vencer o tempo. Porque há memórias que se fazem entre bandeirinhas coloridas, copos erguidos e o fumo das grelhas que sobe para um céu ainda morno.

Aqui o verão não se mede em graus. Mede-se em afetos.

E enquanto houver uma rua em festa, um petisco para partilhar e alguém disposto a brindar à vida, haverá sempre razões para acreditar que a utopia pode, afinal, existir.

Bj utópico

Dri



sexta-feira, 12 de junho de 2026

Novo Almoço de Sexta

Mais uma sexta-feira, mais um almoço…. O calor estava tão intenso que até os cubos de gelo pareciam pedir baixa médica. A missão do dia era simples: encontrar sombra, sobreviver às temperaturas e desfrutar do almoço.

As conversas seguiram os temas habituais: comida, histórias da semana, planos para o fim de semana e aquelas teorias que só fazem sentido à mesa de almoço de sexta-feira. 

Para ajudar ao ambiente, os leques entraram em ação. Uns abanavam-se com elegância, outros com tal entusiasmo que pareciam estar a tentar alterar a direção do vento.

Entre garfadas, risos e copos constantemente reabastecidos, o calor continuava a subir. E foi aí que começou o verdadeiro incêndio. Não daqueles que aparecem nas notícias, mas dos outros: as gargalhadas que se espalham pela mesa, as histórias que ganham proporções épicas a cada nova versão e as conversas que aquecem mais depressa do que o próprio verão.

Quando uma piada pega fogo, já se sabe como é. Um comentário leva a outro, alguém acrescenta um detalhe improvável, outro faz de conta que acredita e, de repente, ninguém consegue apagar as chamas da boa disposição.

Os leques mantinham-se em serviço permanente e o almoço avançava entre pequenas explosões de humor. Felizmente, ninguém chamou os bombeiros. Afinal, há incêndios que não vale a pena apagar.

E assim passou mais almoço de sexta-feira com muito calor, algumas labaredas de imaginação e a certeza de que a melhor forma de enfrentar as altas temperaturas continua a ser uma boa refeição acompanhada de boa companhia.

Bj utópico 

Dri

sexta-feira, 22 de maio de 2026

A quinta dos Animais ao almoço



Sexta-feira tem ganho um estatuto quase litúrgico. Não pela pressa do fim de semana, nem pelo alívio burocrático das horas que terminam, mas por aqueles almoços onde a conversa se estende para lá da mesa e nos devolve a estranha sensação de que ainda é possível pensar o mundo com tempo. Entre garfadas, cafés demorados e livros espalhados como pequenos manifestos, viajámos do ronronar — esse som primitivo e reconfortante que parece guardar a essência inteira do animal — até Orwell e à inevitável brutalidade da frase: “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”.

Falou-se da quinta dos animais, mas também da nossa. Das hierarquias invisíveis, dos instintos que fingimos domesticar, da delicada fronteira entre civilização e natureza. E como sempre acontece nestes encontros, a conversa desviou-se para aquilo que verdadeiramente importa: a diferença dos sexos, os equilíbrios impossíveis entre o que é biológico, cultural, desejado ou imposto. Não para encontrar respostas definitivas — felizmente ainda desconfiamos delas — mas para manter viva a possibilidade de perguntar.

Há qualquer coisa de profundamente raro nestes almoços: a capacidade de saltar do ensaio político para o comportamento felino, da literatura para o corpo, da teoria para o riso, sem perder coerência. Como se pensar também pudesse ser uma forma de amizade. Como se os livros servissem precisamente para isto: abrir portas inesperadas entre pessoas que ainda se permitem conversar sem cronómetros.

No fim, ficou a sensação de que talvez a verdadeira utopia esteja aqui. Não nas grandes revoluções, mas nestas mesas de sexta-feira onde ainda há tempo para discutir Orwell, animais, homens, mulheres e o mundo — enquanto a comida arrefece.

Um bj utópico

Dri

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Entre o Estreito de Ormuz e a Esperança: Pensar o Mundo Hoje


 Num tempo em que o mundo parece oscilar entre a incerteza e o medo, a leitura do livro Esperança, do Papa Francisco, surge como um convite profundo à reflexão e, sobretudo, à resistência interior. Não uma resistência feita de força bruta, mas de uma confiança teimosa na possibilidade de um futuro mais humano.

As palavras do Papa ecoam com uma simplicidade desarmante: a esperança não é ingenuidade, é escolha. E talvez nunca tenha sido tão urgente escolhê-la como agora. Hoje, ao vermos notícias sobre o agravamento do conflito no Irão e a abertura do Estreito de Ormuz — um dos pontos mais sensíveis do equilíbrio geopolítico mundial —, somos confrontados com a fragilidade das estruturas que sustentam a paz.

O mundo parece, mais uma vez, inclinar-se para a tensão, para a divisão, para o medo do outro. E é precisamente neste cenário que a mensagem de Esperança ganha ainda mais força. O Papa Francisco recorda-nos que a esperança não ignora a dor nem fecha os olhos à realidade. Pelo contrário, nasce no meio dela. Cresce nas fissuras da história, onde ainda é possível escolher o bem.

Mas o que significa falar de utopia num mundo assim?

Durante muito tempo, a palavra “utopia” foi tratada como sinónimo de algo inalcançável, quase infantil. No entanto, talvez devêssemos resgatá-la. Não como fuga à realidade, mas como horizonte. A utopia é aquilo que nos impede de aceitar a injustiça como normal, a guerra como inevitável, a indiferença como destino.

A utopia é, afinal, uma forma de esperança em movimento.

Num mundo marcado por conflitos, crises energéticas, desigualdades profundas e medos coletivos, pensar num “mundo melhor” pode parecer distante. Mas é precisamente esse pensamento que nos mantém humanos. Cada gesto de solidariedade, cada escolha ética, cada palavra que constrói em vez de destruir , tudo isso são pequenas expressões de uma utopia possível.

Talvez não possamos fechar estreitos nem evitar guerras com as nossas próprias mãos. Mas podemos abrir caminhos dentro de nós e à nossa volta. Podemos escolher não alimentar o ódio, não ceder ao cinismo, não desistir do outro.

O livro Esperança não oferece soluções mágicas. Oferece algo mais exigente: um convite à transformação interior que, lentamente, pode transformar o mundo.

E talvez seja aí que tudo começa.

Entre o ruído das notícias e o peso da realidade, a esperança continua a ser um ato radical. E a utopia, longe de ser um sonho distante, pode ser o primeiro passo concreto para um mundo que ainda não existe,  mas que depende de nós para começar a nascer.

Bj utopico

Dri


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O poder de um post it



Hoje descobri que um post it não é só um quadrado colorido que serve de memorando.

Este quadrado colorido pode ser um sopro ou um começo quando escrevemos a frase certa e o colamos perdido dentro de um livro.
Dentro desse livro, podemos encontrar várias frases escritas em pequenos post-its que, na verdade, ficam ali silenciosas a espera do momento certo de fortalecer quem as lê. Diria mesmo que há um poder secreto em cada frase escrita, pois estes post its, espalhados ao longo do livro, estão carregados de intenções, de pausas para respirar ou simplesmente para fortalecer.

Assim este livro, deixa de ser apenas um conjunto de páginas encadernadas, para se tornar um companheiro , um mapa feito de letras com pulsação, com palavras que respiram e histórias que abraçam,.

Uma frase pode não mudar o mundo inteiro, mas pode mudar um dia. E às vezes, é de um dia que nós precisamos para continuar.

Olhemos para estes posts its como sementes prontas a florir em novas etapas. 

Porque todo o caminho de cuidado começa com uma decisão silenciosa,  uma frase que acende uma luz e a partir de hoje com um post it colorido.

Bj utópico
Dri

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Conhecem o amor que não faz barulho?

14 de fevereiro: o dia dos amor, dos afectos......

Coloquei Barry White na playlist da Apple Music e decidi escrever sobre um tipo de amor que não faz barulho, que não precisa de plateia e não exige promessas eternas porque ele simplesmente fica. É o amor que nasce na amizade.

O Amor na amizade é quando alguém entende o nosso silêncio, que envia mensagem a dizer estou aqui ou simplesmente acredito em ti. 

A amizade é o único amor que começa sem expectativas e, ainda assim, transborda em significado pois não nasce da paixão, mas nasce da nossa escolha diária em ouvir, ficar e entender mesmo quando seria mais fácil fugir.

Se o mundo tivesse mais amizades com amor e menos amores sem amizade, talvez tudo fosse mais leve.

Feliz dia de São Valentim aos meus verdadeiros amigos que são um porto seguro no meio das tempestades e riso nos dias comuns. São aqueles que conhecem as minhas versões mais fortes e também as mais frágeis  e ainda assim permanecem. São casa, mesmo quando o mundo parece estrada. Cada um, da sua maneira, carrega um pedaço da minha história e lembra-me, todos os dias, que não existe riqueza maior do que ter com quem dividir a vida.

Bj utopico
Dri


Leques: a arte de abrir a alma

Há objetos que carregam histórias, memórias e gestos que atravessam séculos. O leque é um deles. Um artefacto aparentemente simples, mas que...