sexta-feira, 22 de maio de 2026

A quinta dos Animais ao almoço



Sexta-feira tem ganho um estatuto quase litúrgico. Não pela pressa do fim de semana, nem pelo alívio burocrático das horas que terminam, mas por aqueles almoços onde a conversa se estende para lá da mesa e nos devolve a estranha sensação de que ainda é possível pensar o mundo com tempo. Entre garfadas, cafés demorados e livros espalhados como pequenos manifestos, viajámos do ronronar — esse som primitivo e reconfortante que parece guardar a essência inteira do animal — até Orwell e à inevitável brutalidade da frase: “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”.

Falou-se da quinta dos animais, mas também da nossa. Das hierarquias invisíveis, dos instintos que fingimos domesticar, da delicada fronteira entre civilização e natureza. E como sempre acontece nestes encontros, a conversa desviou-se para aquilo que verdadeiramente importa: a diferença dos sexos, os equilíbrios impossíveis entre o que é biológico, cultural, desejado ou imposto. Não para encontrar respostas definitivas — felizmente ainda desconfiamos delas — mas para manter viva a possibilidade de perguntar.

Há qualquer coisa de profundamente raro nestes almoços: a capacidade de saltar do ensaio político para o comportamento felino, da literatura para o corpo, da teoria para o riso, sem perder coerência. Como se pensar também pudesse ser uma forma de amizade. Como se os livros servissem precisamente para isto: abrir portas inesperadas entre pessoas que ainda se permitem conversar sem cronómetros.

No fim, ficou a sensação de que talvez a verdadeira utopia esteja aqui. Não nas grandes revoluções, mas nestas mesas de sexta-feira onde ainda há tempo para discutir Orwell, animais, homens, mulheres e o mundo — enquanto a comida arrefece.

Um bj utópico

Dri

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