segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O meu discurso de 5 de Outubro : E se Portugal fosse uma casa?

 Hoje é 5 de Outubro. Uma data que nos lembra que, em 1910, Portugal deixou de ser uma Monarquia e passou a ser uma República. Passaram 116 anos.

E eu começo por fazer uma pergunta talvez pouco conveniente para uma cerimónia como esta:O que fizemos nós com a casa que recebemos? Porque gosto de imaginar Portugal como uma casa.

Uma casa antiga com paredes cheias de histórias, retratos de antepassados, móveis que já ninguém sabe muito bem quem comprou, algumas janelas que precisam de ser arranjadas e uma quantidade impressionante de coisas guardadas em gavetas.

É uma casa com reis, com navegadores, com poetas, com revoluções, com República, com ditadura, com democracia e, felizmente, com muita gente que ainda sabe contar histórias.

Em 1910 mudámos a placa da porta, mas casa continuou. A República mudou o regime político, mas não apagou os séculos que estavam antes dela. Continuamos a viver rodeados de símbolos, património e tradições de uma Monarquia que já não existe.E não há nenhuma contradição nisso.

Podemos viver numa República e visitar um palácio.

Podemos não querer um rei e gostar de ouvir histórias sobre reis.

Podemos defender a República e, ao mesmo tempo, reconhecer que a Monarquia faz parte da nossa História.

A História não desaparece porque mudamos de regime.

É como uma fotografia de família.Podemos não gostar de toda a gente que aparece na fotografia. Mas rasgá-la não altera o facto de terem feito parte da família. E talvez seja aqui que começa a minha inquietação.

Porque discutimos muito sobre aquilo que somos politicamente: Monárquicos, Republicanos, Esquerda, Direita, Centro....

Às vezes parece que Portugal é uma rotunda enorme e passamos a vida a discutir qual é a saída certa e enquanto discutimos...a casa vai ficando sem algumas das suas paredes.

Ou seja, 

  • Desaparecem tradições.
  • Mudam bairros.
  • Fecham lojas antigas.
  • Desaparecem profissões.
  • Mudam as cidades.
  • Há lugares que os nossos filhos vão conhecer apenas através de fotografias.
E nós continuamos a discutir com uma extraordinária capacidade portuguesa para discutir durante três horas sem chegar sequer ao café.

Por isso,  talvez precisemos de falar mais sobre identidade. Não aquela identidade feita de discursos bonitos. Mas a identidade do quotidiano ou aquela que está numa festa popular ou num mercado, ou num café antigo ou uma receita que passa de avó para neta ou num sotaque ou num azulejo.

É também aí que está Portugal. Fernando Pessoa escreveu: “Senhor, falta cumprir-se Portugal.”

E talvez esta frase continue estranhamente atual. Porque Portugal parece ser sempre um país a meio de qualquer coisa. Ou seja, a meio do passado e do futuro ou a meio da tradição e da modernidade ou a meio da vontade de preservar e da vontade de mudar.

Um país completamente acabado seria, provavelmente, um país bastante aborrecido. O problema é quando confundimos modernização com destruição. Quando achamos que tudo o que é antigo está ultrapassado. E quando só percebemos o valor de uma coisa depois de ela desaparecer

Hoje celebramos a República e devemos celebrá-la. Mas talvez o melhor tributo que podemos fazer à República não seja apenas olhar para 1910. É olhar para 2026 e perguntar:

  • Que país estamos a construir?
  • Que cidades queremos?
  • Que tradições queremos transmitir?
  • Que património queremos proteger?
  • Que memória queremos deixar?

E, sobretudo:

  • quando os nossos filhos olharem para Portugal daqui a cinquenta anos, vão reconhecer a casa?

Espero que sim.

Hoje é 5 de Outubro.

Há 116 anos mudámos de regime.

Talvez esteja na altura de não nos esquecermos de que um país não se muda apenas através das instituições.

Também se muda através daquilo que escolhemos preservar.

E talvez Portugal não precise de escolher entre o passado e o futuro.

Precise apenas de aprender a caminhar para o futuro sem deixar o passado caído pelo caminho.

Mundo Utópico da Dri 



sábado, 3 de outubro de 2026

Afinal o que é ser português?

 Será que estamos a dar a devida atenção a tudo o que importa?

Ontem, fui ao cinema assistir a "Santo António, o Casamenteiro de Lisboa", de Ruben Alves.
Este filme, ao explorar os Casamentos de Santo António, aborda temas como Lisboa, as nossas tradições, a memória e, em essência, aquilo que nos define como portugueses. A própria narrativa do filme utiliza uma tradição lisboeta como ponto de partida para questionar o que realmente desejamos manter numa cidade que se encontra em constante transformação.
Ao sair da sala, fiquei a pensar numa questão que, curiosamente, ganhou ainda mais força quando comecei a acompanhar as notícias sobre Cristiano Ronaldo e toda a polémica à volta da Seleção Nacional.
Não foi a polémica em si que me fez refletir.
Mas sim a enorme proporção que ela atingiu.
Ronaldo deixa o estágio, após um desentendimento com o selecionador Jorge Jesus, e anuncia que, a seu tempo, contará a sua versão dos factos. Rapidamente, somos inundados por manchetes, debates acalorados, opiniões diversas, comentários sem fim e discussões por todo o lado.
E eu pergunto-me: estaremos a avaliar as coisas com a perspetiva correta?
É inegável a importância de Ronaldo para o futebol português. Ele é uma figura central na nossa Seleção, e o que aconteceu com ele merece atenção e explicação.Contudo, paralelamente, outras situações importantes estão a decorrer.
As nossas cidades estão a mudar de forma acelerada.
Tradições ancestrais vão desvanecendo-se ou transformando-se radicalmente.
Existem locais que, atualmente, quase não conseguimos reconhecer.
O comércio tradicional desaparece, bairros inteiros mudam de aparência, e festas e costumes que antes marcavam o nosso dia a dia deixam de fazer parte dele.
E estas transformações, por norma, não ocupam as manchetes durante vários dias consecutivos.
Não há conferências de imprensa a respeito.
Não há comentadores a debater o assunto durante horas a fio.
Não há milhares de pessoas a discutir o tema nas redes sociais.
E, possivelmente, reside aqui o cerne do problema.
Damos uma enorme importância ao que acontece durante 90 minutos num campo de futebol, mas dedicamos muito menos atenção ao que se passa ao longo de décadas nas nossas cidades.
O próprio filme de Ruben Alves levanta esta questão fundamental: o que é que pretendemos salvaguardar e o que estamos dispostos a abandonar em nome do progresso?
Não me parece que a preservação de tradições signifique uma aversão ao futuro.
Tampouco acredito que uma cidade precise de permanecer estagnada no tempo para manter a sua identidade portuguesa.
No entanto, existe uma distinção clara entre mudar e perder a nossa essência.Entre evoluir e permitir que tudo o que nos torna únicos se desvaneça.
Talvez seja este o verdadeiro debate que precisamos de ter.
Não se trata de escolher entre a figura de Ronaldo e a salvaguarda das nossas tradições.
Trata-se, antes, de compreendermos por que motivo nos conseguimos mobilizar tanto por uma polémica que pode durar algumas semanas, e tão pouco nos incomodamos com perdas culturais que podem ser irremediáveis.
Hoje, discutimos quem disse o quê, quem saiu da equipa, quem permaneceu, e quem tem razão.
Amanhã, haverá outro jogo, outra controvérsia, outra notícia de destaque.
No entanto, uma tradição que se extingue pode nunca mais regressar.
Um café que fecha as suas portas pode não reabrir jamais.
Uma cidade que vê a sua identidade a desvanecer-se pode continuar atraente, cheia de turistas e de pessoa, mas deixará de ser, precisamente, a mesma cidade.

E talvez seja esta a questão que deveríamos analisar com mais detalhe.

Talvez a pergunta que nos devemos colocar não seja apenas "o que está a acontecer com o Ronaldo?" Talvez a pergunta mais pertinente seja também: "O que é que se passa connosco?"
E, acima de tudo: "O que é que nos escapa enquanto a nossa atenção está focada na mesma coisa?" Essencialmente, talvez a interrogação seja mesmo: será que a nossa perspetiva está correta?

E aí recordo-me de Jorge Palma:
"Ai, Portugal, Portugal, de que estás à espera tens um Pé numa galera e outro no fundo do mar …”

O Mundo Utópico da Dri 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Entre Bogotá e as saudades dos almoços de sexta...

 Hoje, o meu trabalho não me deixou participar do grupo dos almoços de sexta-feira.

Enquanto por aí as conversas, os risos e as histórias da semana se juntavam, e claro, as tão esperadas pataniscas, eu estava a milhares de quilómetros. Estava em Bogotá, a falar de um tema bem diferente: os maus-tratos na infância.

É uma situação que nos faz parar, ouvir e pensar em como é importante proteger quem ainda não consegue se defender sozinho.

Foi um dia de trabalho intenso, com troca de ideias e reflexão.

Mas, confesso, senti saudades.

Sinto falta dos risos à mesa. Sinto falta das conversas que começam com um tema e terminam em outro bem diferente. Sinto falta das piadas que só a gente entende e daquela bagunça típica dos nossos almoços.

Sinto falta até das discussões sobre Inteligência Artificial, das dúvidas existenciais e das conversas sem fim. Às vezes, elas fazem a gente esquecer que o almoço já devia ter acabado há muito tempo.

Hoje, em vez de dividir as pataniscas, dividi ideias sobre uma situação que merece toda a nossa atenção.

E, entre Bogotá e a saudade dos almoços, fiquei certa de que alguns encontros nos ajudam a crescer no trabalho. Outros nos fazem sentir que pertencemos a algum lugar.

Hoje não tive a mesa, mas pensei em vocês. Na próxima semana, espero voltar com histórias, vontade de rir e, se der, umas boas pataniscas à minha espera.

Porque há trabalhos que nos levam longe, mas há pessoas que sempre nos fazem querer voltar.

Mundo Utópico da Dri

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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Será que a IA nos conseguia substituir ?

 Esta foi uma pergunta que ecoou no meu regresso a casa depois do nosso almoço de sexta.

Hoje entre delícias do mar, um vinho novo e as conversas sobre férias, lá fomos parar à Inteligência Artificial.

E a pergunta surgiu-me hoje no trânsito no trajeto para casa: Será que a IA nos conseguia substituir?

A verdade é que, em muitas coisas, já consegue fazer aquilo que antes demorávamos horas a fazer.

Escreve.Resume.Traduz.Calcula.Organiza. Pesquisa.Cria imagens.

Mas depois comecei a pensar no nosso almoço. Será que a IA conseguiria reproduzir aquilo?

Conseguiria juntar cinco pessoas à mesma mesa e fazer com que todas falassem ao mesmo tempo?

Conseguiria alguém começar uma história sobre férias e, cinco minutos depois, estarmos a discutir a origem das delícias do mar?

Conseguiria perceber aquela gargalhada que aparece do nada?

Ou aquela conversa paralela que só duas pessoas entendem?

E, sobretudo, conseguiria criar aquela confusão maravilhosa em que ninguém sabe exatamente quem está a responder a quem, mas toda a gente está a divertir-se?

Talvez a IA consiga imitar muitas coisas. Talvez até consiga inventar uma conversa entre amigos. Mas há coisas que não são apenas informação. Estes nossos momentos são presença, olhares ,gargalhadas, histórias , perguntas ….

Por isso, talvez a pergunta não seja apenas:“Será que a IA nos vai substituir?”

Talvez seja:“O que é que nós fazemos que nenhuma máquina consegue realmente viver por nós?”

E, pensando bem……depois dos nossos almoços de sexta, acho que ainda temos alguma vantagem pelo menos na confusão e na amizade .

Mundo Utópico da Dri 

Mundo Utópico da Dri

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Matemática e outras ciências exatas

 Tudo começou com uma coisa muito simples: um professor de Matemática e uma partilha no grupo de amigas.

Até aqui, nada de extraordinário.

Só que, como acontece frequentemente nestes grupos, uma simples partilha rapidamente evoluiu para uma investigação científica.

Primeira pergunta:

— Quantos anos terá?

E pronto.

Entrou a Matemática.

Porque uma idade, sozinha, não serve para nada. É preciso comparar.

Fazer uma subtração.

Calcular a diferença.

Depois alguém pergunta:

— Mas isso representa que percentagem?

Percentagem?!

E lá fomos nós buscar a calculadora.

Depois veio a regra de três simples .

Depois outra conta.

Depois alguém:

— Espera, fizeste mal.

E outra:

— Não, não. Está certo.

E eu:

— Façam novamente porque agora já não sei nada. 

A esta altura, já não estávamos a falar de um professor de Matemática.

Estávamos perante um problema matemático complexo com múltiplas variáveis.

-Idade.
-Altura.
-Diferenças.
-Proporções.
-Percentagens.

E assim se formou uma espécie de departamento informal de Matemática Aplicada ao Quotidiano.

Método científico:

1. Observar.
2. Comentar.
3. Levantar uma dúvida.
4. Fazer contas.
5. Desconfiar do resultado.
6. Fazer novamente.
7. Mandar para o grupo.

E se ninguém souber a resposta?

Não há problema.

Abrimos uma nova investigação. 

Porque há problemas de Matemática com uma solução.

E depois há aqueles que envolvem um professor de Matemática e amigas com demasiado tempo para fazer contas.

Esses são claramente os mais complicados.

Mundo Utópico da Dri 

Nota científica: qualquer semelhança com pessoas ou professores reais é pura coincidência. A Matemática, essa, é rigorosamente aplicada.


Imagem criada por IA

sábado, 12 de setembro de 2026

Recomeçar é voltar a pintar

 Hoje na festa de anos do meu filho , enquanto via os adolescentes a pintar , descobri que a vida pode ser uma tela.

Começamos a pintá-la sem saber muito bem o que estamos a fazer. Escolhemos cores, fazemos riscos, experimentamos formas. Algumas resultam. Outras nem por isso.

Há fases em que olhamos para a tela e pensamos: isto não era nada o que eu tinha imaginado.

Podemos mudar a cor. Acrescentar uma camada. Cobrir aquilo de que já não gostamos. Fazer um risco por cima de outro. Recomeçar.

Na vida fazemos exatamente o mesmo.Mudamos de ideias. Mudamos de pessoas. Mudamos de sonhos. Mudamos de caminho.E, às vezes, aquilo a que chamamos “recomeçar” é simplesmente continuar a pintar com outras cores.

Tenho cada vez mais vontade de ser como Miró: não ter medo de deixar espaço para o inesperado, de misturar cores improváveis, de desenhar sem precisar que tudo faça sentido para os outros.

Talvez a vida seja uma tela que tenha a nossa marca com as cores dos dias felizes, os riscos dos dias difíceis, os borrões dos erros e aquelas pequenas manchas que, vistas de longe, acabam por fazer parte da composição.

E se amanhã não gostar do que pintei hoje?

Posso sempre pegar novamente no pincel.

Recomeçar não é apagar a nossa história.
É acrescentar-lhe uma nova cor. 

Mundo Utópico da Dri

Nota : não é um Miro mas para mim são sempre as pinturas mais bonitas : as do meu filho

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O regresso dos almoços de sexta-feira

 Há tradições que regressam sem precisarem de grande anúncio.E os almoços de sexta-feira são uma delas.

Depois de uma pausa, voltámos à estrada. E rapidamente percebi que estes almoços têm muito de corrida de rali.

Há curvas apertadas.Contracurvas.Acelerações inesperadas.
Momentos em que o carro vai mais baixo do que gostaríamos.

E, como em qualquer bom rali, o importante não é evitar todas as curvas, mas saber controlá-las.

Porque num almoço de sexta nunca sabemos bem o que vai acontecer. Começamos com uma conversa tranquila, passamos por um tema mais complicado, aceleramos numa opinião, travamos numa decisão e, quando damos por isso, já estamos noutra curva completamente diferente.

Mas uma boa equipa sabe que não precisa de ter uma estrada direita, mas precisa é de saber navegar.

E aqui entra uma figura fundamental: o fiel da balança.

Aquela pessoa que mantém a cabeça fria quando o resto da equipa já está a fazer drift.

Protege os dados, segura a informação, chama-nos à realidade quando é preciso e, sobretudo, ajuda a manter a equipa dentro da estrada.

Porque num rali, tal como na vida e no trabalho, não basta ter um bom piloto.

É preciso uma boa equipa: uns aceleram, outros travam, uns arriscam a curva, outros avisam que talvez seja melhor não abusar e há sempre aquele que, no meio da confusão, consegue dizer:“Calma. Vamos lá controlar isto.”

E talvez seja essa a verdadeira magia dos nossos almoços de sexta, pois não é apenas comer parar, mas para:

  • conversar;

  • alinhar ideias;

  • rir;

  • resolver coisas que durante a semana parecem enormes.

E, sobretudo, é voltar à estrada juntos com algumas curvas pelo caminho. Mas com a certeza de que, enquanto houver equipa e um bom fiel da balança, conseguimos chegar ao fim da etapa.

Sexta-feira voltou.
A equipa também.
E o rali está oficialmente aberto.

Mundo Utópico da Dri




quinta-feira, 3 de setembro de 2026

As gravatas da nossa vida

 Ontem, num jantar, dei por mim a olhar para as paredes.

Não eram quadros, nem fotografias, nem aquelas decorações que normalmente tentamos interpretar num restaurante. Eram gravatas.

Gravatas às riscas, às bolas, lisas, mais discretas, outras bastante exuberantes.

E cada uma tinha uma história.

Ou pelo menos era isso que a decoração nos convidava a imaginar.

Fiquei a pensar como é curioso aquilo que escolhemos vestir e como, muitas vezes, acaba por dizer qualquer coisa sobre nós.

As riscas parecem-me organizadas. Pessoas que gostam de saber para onde vão, que fazem listas, que têm planos , mesmo que depois a vida trate de os alterar.

As bolas são outra coisa. Têm qualquer coisa de descontraído, de divertido. Talvez pertençam a quem não leva tudo tão a sério e ainda consegue encontrar graça no meio da confusão.

As lisas parecem mais seguras. Discretas. Não precisam de chamar a atenção.

E depois há as gravatas que não cabem em nenhuma destas categorias.

Talvez sejam as melhores.

Porque também nós somos assim.

Temos dias às riscas e dias às bolas.

Dias em que sabemos exatamente o que queremos e outros em que andamos completamente às voltas.

Há momentos em que somos discretos e outros em que precisamos de ocupar espaço.

Há fases em que queremos controlar tudo e outras em que simplesmente deixamos acontecer.

E talvez seja essa a graça de olhar para aquelas gravatas penduradas numa parede: perceber que não existe uma gravata que defina uma pessoa inteira.

Somos feitos de muitas versões.

Do profissional que aparece durante o dia, do pai ou da mãe ao jantar, do amigo que faz rir, da pessoa que chega a casa cansada e já não quer falar com ninguém.

Somos aquilo que mostramos e também aquilo que ninguém vê.

Por isso, talvez a pergunta não seja “que gravata usarias?” Mas parte de ti está hoje ao comando?A das riscas?A das bolas?A mais discreta?Ou aquela que decidiu, simplesmente, aparecer sem seguir padrão nenhum?

No fundo, talvez aquelas gravatas nas paredes fossem apenas decoração.

Mas fiquei a pensar que, se cada uma pudesse realmente contar uma história, provavelmente descobriríamos que por trás de cada padrão existe uma pessoa cheia de contradições, escolhas, memórias e dias bons e maus.

Tal como nós e talvez seja isso que torna cada pessoa interessante: nao o padrão que escolheu mostrar, mas tudo aquilo que existe por baixo da gravata.

Mundo Utópico da Dri



domingo, 30 de agosto de 2026

Montargil

Há lugares que parecem feitos para nos lembrar que a vida também pode ser devagar.

Dias de férias em que o relógio deixa de mandar, o corpo pede descanso e a única preocupação é decidir entre a piscina, uma sesta ou mais um mergulho. 

Montargil tem esse encanto.

O verde, a água, o calor do Alentejo, os finais de tarde dourados… e aquela sensação maravilhosa de que, por alguns dias, não precisamos de ir a lado nenhum.

Só ficar.

Ficar na conversa.
Ficar dentro de água.
Ficar a ver o pôr do sol.
Ficar com quem gostamos.

E talvez seja isso que procuramos nas férias: não fazer mais, mas sentir mais.

Guardar imagens como esta, que daqui a uns anos nos façam fechar os olhos e voltar exatamente àquele momento.

Porque há férias que passam.

E há férias que ficam. ❤️

Montargil, verão e a doce arte de não ter pressa.

Bj Utópico Dri 



sábado, 29 de agosto de 2026

Feliz 12.º aniversário!

 Ok… chegámos oficialmente à fase em que a mãe já não percebe metade do vocabulário.

“Farmar aura”, “sigma”, “bro”, “cringe”, “W”, “L”…

Agora temos um pré-adolescente a entrar oficialmente na adolescência, com opiniões fortes, respostas rápidas e com uma capacidade extraordinária para dizer “já vou” e aparecer 40 minutos depois.

Mas, no meio de todo este novo idioma, das mudanças de humor e desta maravilhosa aventura chamada adolescência, continuo a olhar para ti e a pensar: como é possível aquele bebé ter chegado já aos 12 anos?

Espero que continues a “farmar aura” pela vida fora, mas que seja aura de pessoa boa, divertida, generosa, corajosa e com personalidade própria. Que tenhas confiança para seres tu, mesmo quando todos à tua volta parecem querer ser iguais. Que saibas rir de ti próprio, porque isso vai dar muito jeito nos próximos anos. E que nunca percas essa capacidade de te entusiasmares, de sonhar e de viver as coisas à tua maneira.

A adolescência chegou e eu prometo tentar acompanhar as trends, perceber o vocabulário e não passar demasiada vergonha em público.

Feliz 12.º aniversário!

Que este novo nível seja um verdadeiro W. E lembra-te: podes até ser o rei de “farmar aura”… mas para mim vais ser sempre o meu menino. ❤️

Amo-te daqui até à lua e sim, isso ainda é uma expressão permitida.

Bj utópico

Dri

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O Pianista

 Esta manhã, enquanto “Shallow” tocava ao piano, as pessoas serpenteavam entre o buffet: umas com pratos na mão, outras à procura do café, algumas ainda meio adormecidas.

Havia conversas, risos, cadeiras a arrastar e, aqui e ali, o choro de um bebé.

Porque um pequeno-almoço de hotel com crianças também pode, em certos momentos, ser uma espécie de cenário de guerra. 

A minha mesa ficava perto do pianista. Bebia o meu americano devagar e fiquei a observá-lo.E pensei: qual será a sensação de tocar piano neste cenário? O pianista  sabe que não tem propriamente uma plateia. As pessoas estão ali para comer. Algumas conversam, outras procuram os ovos mexidos, há crianças a pedir sumo e bebés que decidiram anunciar ao mundo que já acordaram.

E ele toca.

Foi impossível não me lembrar do filme  O Pianista de Roman Polanski, e da imagem tão forte de um homem agarrado à música quando tudo à sua volta parecia ter perdido o sentido. A lembrança do filme não será pela história deste, naturalmente — as situações são incomparáveis — mas pela imagem de alguém agarrado ao piano enquanto tudo acontece à sua volta.

Aqui, felizmente, a “guerra” é apenas a do pequeno-almoço familiar. 

Mas há qualquer coisa de bonita naquele pianista continuar a tocar, mesmo sabendo que provavelmente será ouvido por muito menos pessoas do que aquelas que estão na sala.

Ele toca.

Nós comemos.

As crianças fazem barulho.

As conversas continuam.

E, no meio de tudo, há música.

Pensei que talvez seja essa a particularidade de alguns músicos: conseguem transformar-se em banda sonora da vida dos outros, mesmo quando quase ninguém dá por isso.

Mundo Utópico da Dri

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Piscina Infinita

 Há lugares onde o silêncio parece fazer parte da decoração.

Uma piscina infinita, rodeada de palmeiras, água morna e um céu nublado que, apesar de tudo, não consegue roubar o calor ao dia.

À volta, quase ninguém fala.

Há pessoas nas espreguiçadeiras a ler. Um bebé dorme tranquilamente ao colo da mãe. Outro, mais adiante, parece ter decidido que o melhor lugar do mundo é precisamente aquele onde está, embalado pelo som da água.

Entro na piscina. A água está morna, o corpo agradece e começo a nadar. Umas piscinas para cá, outras para lá. Sem pressa. Só o som discreto da água e a minha respiração.

Até que, enquanto recupero o fôlego junto à borda, começo a ouvir uma conversa.

Um casal jovem que falava da sua relação Mais concretamente, de ciúmes ( Eu não queria ouvir. Juro. Mas há conversas que chegam até nós sem pedir licença.) 

Ele parecia incrédulo com alguma coisa que ela dizia.E então ouvi: Eu gosto que tenhas ciúmes.

Parei! 

Ela continuou a explicar.Para ela, o ciúme era uma prova de amor. Uma demonstração de interesse. Uma espécie de confirmação de que o outro se importa.

Ele parecia cada vez mais abismado. Eu, confesso, também.Mas ela tinha uma coleção inteira de argumentos para defender aquela ideia.

Comecei a pensar que neste discurso se está a confundir, amor com posse, preocupação com controlo, intensidade com sofrimento e ciúme com paixão.

Talvez porque fomos ensinados a acreditar que, quando alguém gosta realmente de nós, tem medo de nos perder.E esse medo, em algumas relações, acaba transformado numa espécie de certificado de amor.

“Se tem ciúmes, é porque gosta.” - Mas será?Será que amar alguém significa querer saber onde está, com quem está, porque demorou a responder, quem comentou aquela fotografia ou porque é que olhou para determinada pessoa?

Será que o ciúme aproxima?

Ou vai, pouco a pouco, diminuindo o espaço que cada um precisa para continuar a ser quem é?

Uma relação tóxica nem sempre começa com alguém que controla e alguém que sofre.

Às vezes começa com duas pessoas que aprenderam a chamar amor a coisas que, vistas de fora, nos parecem completamente diferentes.

E talvez seja essa uma das partes mais difíceis das relações: perceber que nem tudo aquilo que sentimos é necessariamente saudável só porque é intenso.

Voltei a nadar. Depois saí da água e aproveitei os poucos raios de sol que finalmente apareceram para me deitar na espreguiçadeira e secar.

Talvez a verdadeira piscina infinita de uma relação seja ter alguém ao lado sem deixar de ter espaço para ser quem somos.

Mundo Utópico da Dri

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Killing Me Softly

Killing Me Softly

Há encontros que começam com um copo.

E depois há aqueles que começam com um copo e acabam por nos dar uma história inteira para contar.

Foi num bar de hotel, algures no Alentejo.

O ambiente era daqueles em  que estão famílias jovens espalhadas pelas mesas, casais a conversar, grupos de amigos, copos a tilintar….

Ao fundo, uma cantora começou a cantar Killing Me Softly. 

E foi então que reparei neles, sentados ao balcão, lado a lado.

Ele, de whisky na mão.

Ela, com um Baileys.

Ambos vestidos de branco, num contraste quase cinematográfico com a madeira escura do bar.

Ele falava.

Ela ouvia.

Ele continuava a falar.

Ela continuava a olhar.

E a música dizia killing me softly…

Não sei se ele estava a contar a história da vida dele , a explicar o mundo, a falar do trabalho, de uma viagem ou simplesmente a aproveitar uma audiência particularmente paciente.

Ela, entretanto, tinha desenvolvido uma técnica admirável: olhar 

Olhava para ele.

De vez em quando sorria.

Dava um gole no Baileys.

E voltava a olhar.

há qualquer coisa fascinante nos encontros que observamos de longe, pois nunca sabemos a história toda.

Por isso não sei se ela estava encantada com aquilo que ele dizia ou se, interiormente, já estava a cantar:Strumming my pain with his fingers…”

Porque, afinal, ninguém quer ser “killed softly” logo no primeiro encontro.

Ou quer?

Mundo Utópico da Dri


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Mulheres conservadoras: uma nova conversa sobre o que significa ser mulher

 Nos últimos tempos, começou a surgir com cada vez mais força uma expressão que me desperta curiosidade: “mulheres conservadoras”.

Não porque me identifique com o conceito. Não sou uma mulher conservadora. Mas porque acho interessante observar aquilo que esta nova temática está a revelar sobre a forma como as mulheres estão a olhar para a sua própria vida.

Nas redes sociais, multiplicam-se mulheres que falam de família, casamento, maternidade, feminilidade, cuidado da casa, papéis tradicionais e de uma vontade de recuperar determinados valores que consideram ter-se perdido. Algumas apresentam esta escolha como uma espécie de regresso às origens. Outras como uma reação ao cansaço de uma sociedade onde parece que temos de ser tudo ao mesmo tempo.

E talvez seja precisamente aí que esteja a parte mais interessante desta conversa:

  • Porque é que este discurso está a encontrar tanto espaço agora?

  • Será apenas uma tendência das redes sociais?

  • Será uma reação a algumas mudanças sociais das últimas décadas?

  • Ou será que existe realmente uma geração de mulheres cansada da ideia de que tem de conquistar tudo, provar tudo e conseguir conciliar tudo?

Não tenho respostas definitivas. Gosto mais de observar esta mudança e pensar sobre ela.

Durante muitos anos, a luta das mulheres esteve muito ligada à possibilidade de escolher: estudar, trabalhar, ter independência, amar quem quisessem, decidir se queriam ou não ser mães, construir uma vida diferente daquela que lhes estava destinada.

Por isso, é curioso assistir agora a mulheres que dizem escolher precisamente alguns desses papéis tradicionais, mas por vontade própria. E aqui está a questão que me parece mais importante: Quando uma mulher escolhe uma vida tradicional, essa escolha deixa de ser feminista?

Não sei se a resposta é assim tão simples.

Também não acho que devamos romantizar o passado. Muitas das limitações impostas às mulheres nesse passado eram tudo menos bonitas. Mas também não precisamos de fingir que todas as mulheres desejam exatamente o mesmo tipo de vida.

Talvez o verdadeiro desafio esteja em aceitar que a liberdade também pode produzir escolhas com as quais não concordamos.

Uma mulher pode querer uma carreira exigente. Outra pode querer dedicar-se aos filhos. Outra pode querer as duas coisas. Outra pode não querer nenhuma. E talvez nenhuma delas precise de uma etiqueta para justificar a sua escolha.

O que me interessa nesta nova conversa sobre as “mulheres conservadoras” não é decidir quem tem razão.É perceber o que esta tendência diz sobre o nosso tempo.

Porque todas as tendências sociais nascem de alguma coisa. E quando tantas mulheres começam a falar de uma vida mais simples, de família, de feminilidade ou de papéis tradicionais, talvez valha a pena perguntar o que estão realmente a procurar. Será pertença? Será estabilidade?Será uma reação à velocidade do mundo. Será uma escolha?

Não sou conservadora.Mas acredito que devemos conseguir olhar para esta temática sem medo, sem rótulos e sem transformar imediatamente uma escolha diferente da nossa numa ameaça.

Afinal, se lutámos tanto para que as mulheres pudessem escolher o seu caminho, talvez devêssemos também aprender a respeitar os caminhos que não escolheríamos para nós.

E essa reflexão, para mim, é muito mais interessante do que decidir quem é conservadora e quem não é.

Mundo Utópico da Dri



O meu discurso de 5 de Outubro : E se Portugal fosse uma casa?

 Hoje é 5 de Outubro. Uma data que nos lembra que, em 1910, Portugal deixou de ser uma Monarquia e passou a ser uma República. Passaram 116 ...