Há objetos que carregam histórias, memórias e gestos que atravessam séculos. O leque é um deles. Um artefacto aparentemente simples, mas que, quando observado com atenção, revela uma coreografia íntima entre forma, movimento e intenção. No Mundo Utópico da Dri, gosto de pensar nos leques como extensões da própria humanidade: cada pessoa, tal como cada leque, abre‑se ao mundo de maneira única — umas vezes com suavidade, outras com estrondo, sempre com significado.
O leque oriental, por exemplo, nasce da delicadeza. Abre-se como quem respira fundo antes de falar, com um silêncio que antecede a palavra certa. É o símbolo das pessoas de temperamento calmo, aquelas que se revelam devagar, sem pressa de ocupar espaço, mas com a profundidade de quem sabe que a força não precisa de ruído. Já o leque que se abre com estalo — firme, decidido, quase teatral — lembra-nos as personalidades intensas, assertivas, que chegam ao mundo com presença e deixam marca. São almas que não temem o impacto, que se afirmam com clareza e que, tal como o estalar do leque, anunciam a sua verdade sem hesitação.
Há também os leques ornamentados, rendados, trabalhados com paciência artesanal. São como pessoas cheias de camadas: complexas, densas, feitas de detalhes que só se revelam a quem observa com cuidado. Cada filigrana é uma história, cada cor é uma memória, cada curva é uma emoção guardada. Em contraste, os leques minimalistas — monocromáticos, de linhas limpas — representam aqueles seres humanos de essência direta, que não precisam de adornos para serem inteiros. São a simplicidade que não é ausência, mas clareza.
E depois existem os leques frágeis, quase etéreos, que se desfazem com o tempo ou com o uso. São as sensibilidades profundas, aquelas que sentem o mundo com intensidade e que, por isso mesmo, exigem cuidado. Não são frágeis por falta de força, mas porque carregam uma perceção tão fina da vida que qualquer vento mais brusco se torna excesso. Por outro lado, os leques resistentes — de madeira robusta, articulados com precisão — são a imagem da resiliência. Pessoas que se dobram, mas não quebram; que se fecham para se proteger, mas que sabem sempre reencontrar o gesto de se abrir.
No fim, todos os leques, independentemente da forma, cumprem a mesma função: refrescar, aliviar, acompanhar. Assim também os seres humanos, tão diferentes entre si, procuram sentido, pertença e harmonia. Cada um abre o seu “leque interior” à sua maneira, revelando o que é, o que sente, o que sonha. E talvez a verdadeira utopia esteja nisso: reconhecer que a beleza da humanidade reside precisamente na diversidade dos seus movimentos.
Por aqui, imagino um lugar onde o gesto de abrir o leque é também o gesto de abrir a alma. gosto de imaginar que cada pessoa carrega um leque invisível. Uns têm-no pintado de cores vibrantes, outros guardam-no em tons neutros. Uns abrem-no com ousadia, outros com pudor. Mas todos, sem exceção, possuem esse instrumento silencioso que lhes permite regular a intensidade com que se oferecem ao mundo. E talvez a verdadeira utopia seja esta: aprender a reconhecer o leque do outro, respeitar o seu ritmo, honrar o seu movimento.
Porque, no fim, a filosofia dos leques é a filosofia da humanidade: abrir-se é sempre um ato de coragem, fechar-se é sempre um ato de cuidado. E viver é aprender a dançar entre os dois.
Bj utópico
Dri
