quinta-feira, 9 de julho de 2026

Evita no Coliseu: quando Porto me devolveu Buenos Aires



Hoje a noite foi preenchida com uma ida ao Coliseu para ver Evita foi uma dessas experiências raras em que a cidade muda de temperatura, de ritmo, de alma. Ir ao Coliseu ver Evita com o meu pai tornou‑se uma dessas travessias raras em que o presente se abre, o passado regressa, e uma cidade inteira muda de respiração.

Entrámos no Coliseu como quem entra num lugar que já conhece, mas que guarda sempre uma surpresa. E antes mesmo de o musical começar, o meu pai sorriu com aquele sorriso que anuncia uma memória antiga..

O primeiro acorde abriu uma porta que eu já não sabia que ainda existia. A voz que se ergueu no palco não trouxe apenas Eva Perón, mas  trouxe a minha história com aquela cidade que me ensinou a olhar o mundo com outra intensidade. Buenos Aires tem essa capacidade estranha de nos marcar com uma melancolia bonita, uma espécie de saudade que não dói, mas que pulsa. 

As luzes do palco tinham o brilho das noites de San Telmo, onde o tango se dança com o corpo, mas também com a alma. Os gestos dos atores tinham a cadência do tango que aprendi a reconhecer nas esquinas, nos cafés antigos, nos passos cruzados que contam histórias de amor, perda e reencontro. E a música tinha aquela força que mistura elegância, intensidade e uma certa tristeza luminosa que só Buenos Aires sabe ter.

Enquanto Eva Perón ganhava vida no palco, eu revivia a minha viagem: as ruas coloridas do Caminito, os cafés onde o tempo parece ficar suspenso, as conversas demoradas, os silêncios que dizem mais do que palavras, e aquela sensação de que a cidade nos observa como se soubesse segredos sobre nós.

O Coliseu tornou-se um espelho emocional. Porto respirava com o coração de Buenos Aires. E eu, sentada ali, sentia que as duas cidades  se tocavam por instantes. Aliás  como se o mundo tivesse decidido alinhar memórias, geografias e afetos só para me lembrar de quem eu fui, de quem sou e de quem continuo a ser.

O musical trouxe uma saudade da minha viagem, do tango, da mística, da forma como Buenos Aires me ensinou que há lugares que ficam para sempre dentro de nós, mesmo quando voltamos. Saí do Coliseu com a sensação de ter regressado sem ter viajado. E talvez seja isso que a arte faz: devolve-nos às cidades que amamos, às versões de nós que lá ficaram, às histórias que continuam a dançar dentro de nós.

Hoje Buenos Aires ficou mais perto e a vontade de voltar também .

Bj utópico

Dri



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