Há dias em que penso que a língua é uma espécie de casa antiga: tem portas que já não abrimos, tem janelas que deixámos de usar, tem divisões onde antes vivíamos e agora apenas passamos. Os idiomas que falamos, os que herdámos, os que aprendemos, os que inventamos com quem amamos, na realidade são mapas da nossa história. E, no entanto, às vezes deixamos que a pressa do mundo nos roube a delicadeza de os habitar.
E com o tempo fomos perdendo: o hábito da escrita antiga, da letra desenhada com cuidado, do tempo de escrever sem urgência e das cartas que eram quase um abraço. Hoje escrevemos mensagens rápidas, frases curtas, palavras que chegam mas não pousam. E, quando damos por isso, percebemos que a língua mudou ou fomos nós que mudámos dentro dela.
Nas amizades, a língua é mais do que comunicação: é cuidado. Há amigos com quem falamos num idioma que só existe ali . Diria mesmo que seria uma mistura de memórias, piadas internas, silêncios confortáveis e palavras que não precisam de tradução. É uma língua secreta, feita de confiança. E quando cuidamos dessa língua estamos a cuidar da amizade, a responder com atenção, a escrever com presença, a escolher palavras que não ferem e a oferecer frases que acolhem.
E talvez o melhor exemplo dessa língua que cuida esteja naquele nosso grupo de WhatsApp dos almoços de sexta. Ali, a amizade tem gramática própria: piadas que só fazem sentido para quem viveu as mesmas histórias, indiretas que são mais carinho do que crítica, stickers que substituem abraços, emojis que dizem “estou aqui” sem precisar de mais nada.
Por vezes, é uma língua imperfeita, rápida, cheia de riso, mas profundamente humana.
E cada mensagem, por mais simples que pareça, é uma forma de cuidado. No fundo, a língua é o lugar onde a amizade se torna visível e cuidar da língua, mesmo num grupo de WhatsApp, é cuidar da amizade , da vida e uns dos outros.
Bj utópico
Dri

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