Há músicas que não se ouvem apenas. Sentem-se.
Quando começam a tocar e, sem percebermos muito bem como, alguma coisa dentro de nós muda. O corpo abranda, a memória desperta e somos levados para lugares que já não existem da mesma forma, mas que continuam a viver dentro de nós.
Foi assim que voltei a ouvir “Essa Tal Liberdade”, na voz de Alexandre Pires e Seu Jorge.
A liberdade de fechar os olhos e deixar que uma música nos leve para outro tempo. Para aqueles anos em que tudo parecia possível, em que as emoções eram vividas sem tantas reservas e em que certas canções ficaram ligadas a pessoas, noites, viagens, amores, encontros e despedidas.
Há músicas que guardam pedaços da nossa história. Basta ouvirmos os primeiros acordes para uma memória aparecer inteira: uma rua, uma casa, uma voz, um abraço, uma gargalhada. Às vezes até nos lembramos de quem éramos naquele momento — e percebemos o quanto mudámos desde então.
“Essa Tal Liberdade” fala-nos precisamente dessa vontade de sermos livres, de deixarmos para trás aquilo que nos prende e de voltarmos a escolher a nossa própria vida.Mas talvez exista uma outra liberdade, mais silenciosa, que a música nos oferece: A liberdade de sentir sem explicar.
A liberdade:
De voltar atrás por alguns minutos.
De matar saudades sem precisar de dizer de quem.
De sorrir por uma lembrança que ninguém mais conhece.
De dançar, mesmo quando o dia lá fora está cinzento.
De deixar o coração viajar para onde quiser.
E talvez seja por isso que algumas músicas nunca envelhecem. Nós envelhecemos. As nossas vidas mudam. As pessoas seguem caminhos diferentes. Os lugares transformam-se. Mas há canções que permanecem exatamente onde as deixámos — à espera de que um dia voltemos a carregá-las no coração.
Hoje, ao ouvir “Essa Tal Liberdade”, pensei em todas essas pequenas versões de mim que ficaram espalhadas pelo caminho.
Mas senti gratidão pelas memórias bonitas, por aquelas que me doeram e me fizeram crescer, pelas pessoas que passaram pela minha vida e sobretudo, pela liberdade de ainda podermos sentir tudo isso através de uma simples música.
Porque talvez a verdadeira liberdade seja esta: podermos fechar os olhos, ouvir uma canção e, durante alguns minutos, sermos novamente quem quisermos.
Hoje, escolho ser aquela pessoa que ainda sabe dançar com as memórias e que ainda acredita que há músicas que não se ouvem porque apenas se sentem.
Bj Utópico Dri
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