Esta manhã, enquanto “Shallow” tocava ao piano, as pessoas serpenteavam entre o buffet: umas com pratos na mão, outras à procura do café, algumas ainda meio adormecidas.
Havia conversas, risos, cadeiras a arrastar e, aqui e ali, o choro de um bebé.
Porque um pequeno-almoço de hotel com crianças também pode, em certos momentos, ser uma espécie de cenário de guerra.
A minha mesa ficava perto do pianista. Bebia o meu americano devagar e fiquei a observá-lo.E pensei: qual será a sensação de tocar piano neste cenário? O pianista sabe que não tem propriamente uma plateia. As pessoas estão ali para comer. Algumas conversam, outras procuram os ovos mexidos, há crianças a pedir sumo e bebés que decidiram anunciar ao mundo que já acordaram.
E ele toca.
Foi impossível não me lembrar do filme O Pianista de Roman Polanski, e da imagem tão forte de um homem agarrado à música quando tudo à sua volta parecia ter perdido o sentido. A lembrança do filme não será pela história deste, naturalmente — as situações são incomparáveis — mas pela imagem de alguém agarrado ao piano enquanto tudo acontece à sua volta.
Aqui, felizmente, a “guerra” é apenas a do pequeno-almoço familiar.
Mas há qualquer coisa de bonita naquele pianista continuar a tocar, mesmo sabendo que provavelmente será ouvido por muito menos pessoas do que aquelas que estão na sala.
Ele toca.
Nós comemos.
As crianças fazem barulho.
As conversas continuam.
E, no meio de tudo, há música.
Pensei que talvez seja essa a particularidade de alguns músicos: conseguem transformar-se em banda sonora da vida dos outros, mesmo quando quase ninguém dá por isso.
Mundo Utópico da Dri
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