Há lugares onde o silêncio parece fazer parte da decoração.
Uma piscina infinita, rodeada de palmeiras, água morna e um céu nublado que, apesar de tudo, não consegue roubar o calor ao dia.
À volta, quase ninguém fala.
Há pessoas nas espreguiçadeiras a ler. Um bebé dorme tranquilamente ao colo da mãe. Outro, mais adiante, parece ter decidido que o melhor lugar do mundo é precisamente aquele onde está, embalado pelo som da água.
Entro na piscina. A água está morna, o corpo agradece e começo a nadar. Umas piscinas para cá, outras para lá. Sem pressa. Só o som discreto da água e a minha respiração.
Até que, enquanto recupero o fôlego junto à borda, começo a ouvir uma conversa.
Um casal jovem que falava da sua relação Mais concretamente, de ciúmes ( Eu não queria ouvir. Juro. Mas há conversas que chegam até nós sem pedir licença.)
Ele parecia incrédulo com alguma coisa que ela dizia.E então ouvi: Eu gosto que tenhas ciúmes.
Parei!
Ela continuou a explicar.Para ela, o ciúme era uma prova de amor. Uma demonstração de interesse. Uma espécie de confirmação de que o outro se importa.
Ele parecia cada vez mais abismado. Eu, confesso, também.Mas ela tinha uma coleção inteira de argumentos para defender aquela ideia.
Comecei a pensar que neste discurso se está a confundir, amor com posse, preocupação com controlo, intensidade com sofrimento e ciúme com paixão.
Talvez porque fomos ensinados a acreditar que, quando alguém gosta realmente de nós, tem medo de nos perder.E esse medo, em algumas relações, acaba transformado numa espécie de certificado de amor.
“Se tem ciúmes, é porque gosta.” - Mas será?Será que amar alguém significa querer saber onde está, com quem está, porque demorou a responder, quem comentou aquela fotografia ou porque é que olhou para determinada pessoa?
Será que o ciúme aproxima?
Ou vai, pouco a pouco, diminuindo o espaço que cada um precisa para continuar a ser quem é?
Uma relação tóxica nem sempre começa com alguém que controla e alguém que sofre.
Às vezes começa com duas pessoas que aprenderam a chamar amor a coisas que, vistas de fora, nos parecem completamente diferentes.
E talvez seja essa uma das partes mais difíceis das relações: perceber que nem tudo aquilo que sentimos é necessariamente saudável só porque é intenso.
Voltei a nadar. Depois saí da água e aproveitei os poucos raios de sol que finalmente apareceram para me deitar na espreguiçadeira e secar.
Talvez a verdadeira piscina infinita de uma relação seja ter alguém ao lado sem deixar de ter espaço para ser quem somos.
Mundo Utópico da Dri
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