Nos últimos tempos, começou a surgir com cada vez mais força uma expressão que me desperta curiosidade: “mulheres conservadoras”.
Não porque me identifique com o conceito. Não sou uma mulher conservadora. Mas porque acho interessante observar aquilo que esta nova temática está a revelar sobre a forma como as mulheres estão a olhar para a sua própria vida.
Nas redes sociais, multiplicam-se mulheres que falam de família, casamento, maternidade, feminilidade, cuidado da casa, papéis tradicionais e de uma vontade de recuperar determinados valores que consideram ter-se perdido. Algumas apresentam esta escolha como uma espécie de regresso às origens. Outras como uma reação ao cansaço de uma sociedade onde parece que temos de ser tudo ao mesmo tempo.
E talvez seja precisamente aí que esteja a parte mais interessante desta conversa:
Porque é que este discurso está a encontrar tanto espaço agora?
Será apenas uma tendência das redes sociais?
Será uma reação a algumas mudanças sociais das últimas décadas?
Ou será que existe realmente uma geração de mulheres cansada da ideia de que tem de conquistar tudo, provar tudo e conseguir conciliar tudo?
Não tenho respostas definitivas. Gosto mais de observar esta mudança e pensar sobre ela.
Durante muitos anos, a luta das mulheres esteve muito ligada à possibilidade de escolher: estudar, trabalhar, ter independência, amar quem quisessem, decidir se queriam ou não ser mães, construir uma vida diferente daquela que lhes estava destinada.
Por isso, é curioso assistir agora a mulheres que dizem escolher precisamente alguns desses papéis tradicionais, mas por vontade própria. E aqui está a questão que me parece mais importante: Quando uma mulher escolhe uma vida tradicional, essa escolha deixa de ser feminista?
Não sei se a resposta é assim tão simples.
Também não acho que devamos romantizar o passado. Muitas das limitações impostas às mulheres nesse passado eram tudo menos bonitas. Mas também não precisamos de fingir que todas as mulheres desejam exatamente o mesmo tipo de vida.
Talvez o verdadeiro desafio esteja em aceitar que a liberdade também pode produzir escolhas com as quais não concordamos.
Uma mulher pode querer uma carreira exigente. Outra pode querer dedicar-se aos filhos. Outra pode querer as duas coisas. Outra pode não querer nenhuma. E talvez nenhuma delas precise de uma etiqueta para justificar a sua escolha.
O que me interessa nesta nova conversa sobre as “mulheres conservadoras” não é decidir quem tem razão.É perceber o que esta tendência diz sobre o nosso tempo.
Porque todas as tendências sociais nascem de alguma coisa. E quando tantas mulheres começam a falar de uma vida mais simples, de família, de feminilidade ou de papéis tradicionais, talvez valha a pena perguntar o que estão realmente a procurar. Será pertença? Será estabilidade?Será uma reação à velocidade do mundo. Será uma escolha?
Não sou conservadora.Mas acredito que devemos conseguir olhar para esta temática sem medo, sem rótulos e sem transformar imediatamente uma escolha diferente da nossa numa ameaça.
Afinal, se lutámos tanto para que as mulheres pudessem escolher o seu caminho, talvez devêssemos também aprender a respeitar os caminhos que não escolheríamos para nós.
E essa reflexão, para mim, é muito mais interessante do que decidir quem é conservadora e quem não é.
Mundo Utópico da Dri

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