segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O meu discurso de 5 de Outubro : E se Portugal fosse uma casa?

 Hoje é 5 de Outubro. Uma data que nos lembra que, em 1910, Portugal deixou de ser uma Monarquia e passou a ser uma República. Passaram 116 anos.

E eu começo por fazer uma pergunta talvez pouco conveniente para uma cerimónia como esta:O que fizemos nós com a casa que recebemos? Porque gosto de imaginar Portugal como uma casa.

Uma casa antiga com paredes cheias de histórias, retratos de antepassados, móveis que já ninguém sabe muito bem quem comprou, algumas janelas que precisam de ser arranjadas e uma quantidade impressionante de coisas guardadas em gavetas.

É uma casa com reis, com navegadores, com poetas, com revoluções, com República, com ditadura, com democracia e, felizmente, com muita gente que ainda sabe contar histórias.

Em 1910 mudámos a placa da porta, mas casa continuou. A República mudou o regime político, mas não apagou os séculos que estavam antes dela. Continuamos a viver rodeados de símbolos, património e tradições de uma Monarquia que já não existe.E não há nenhuma contradição nisso.

Podemos viver numa República e visitar um palácio.

Podemos não querer um rei e gostar de ouvir histórias sobre reis.

Podemos defender a República e, ao mesmo tempo, reconhecer que a Monarquia faz parte da nossa História.

A História não desaparece porque mudamos de regime.

É como uma fotografia de família.Podemos não gostar de toda a gente que aparece na fotografia. Mas rasgá-la não altera o facto de terem feito parte da família. E talvez seja aqui que começa a minha inquietação.

Porque discutimos muito sobre aquilo que somos politicamente: Monárquicos, Republicanos, Esquerda, Direita, Centro....

Às vezes parece que Portugal é uma rotunda enorme e passamos a vida a discutir qual é a saída certa e enquanto discutimos...a casa vai ficando sem algumas das suas paredes.

Ou seja, 

  • Desaparecem tradições.
  • Mudam bairros.
  • Fecham lojas antigas.
  • Desaparecem profissões.
  • Mudam as cidades.
  • Há lugares que os nossos filhos vão conhecer apenas através de fotografias.
E nós continuamos a discutir com uma extraordinária capacidade portuguesa para discutir durante três horas sem chegar sequer ao café.

Por isso,  talvez precisemos de falar mais sobre identidade. Não aquela identidade feita de discursos bonitos. Mas a identidade do quotidiano ou aquela que está numa festa popular ou num mercado, ou num café antigo ou uma receita que passa de avó para neta ou num sotaque ou num azulejo.

É também aí que está Portugal. Fernando Pessoa escreveu: “Senhor, falta cumprir-se Portugal.”

E talvez esta frase continue estranhamente atual. Porque Portugal parece ser sempre um país a meio de qualquer coisa. Ou seja, a meio do passado e do futuro ou a meio da tradição e da modernidade ou a meio da vontade de preservar e da vontade de mudar.

Um país completamente acabado seria, provavelmente, um país bastante aborrecido. O problema é quando confundimos modernização com destruição. Quando achamos que tudo o que é antigo está ultrapassado. E quando só percebemos o valor de uma coisa depois de ela desaparecer

Hoje celebramos a República e devemos celebrá-la. Mas talvez o melhor tributo que podemos fazer à República não seja apenas olhar para 1910. É olhar para 2026 e perguntar:

  • Que país estamos a construir?
  • Que cidades queremos?
  • Que tradições queremos transmitir?
  • Que património queremos proteger?
  • Que memória queremos deixar?

E, sobretudo:

  • quando os nossos filhos olharem para Portugal daqui a cinquenta anos, vão reconhecer a casa?

Espero que sim.

Hoje é 5 de Outubro.

Há 116 anos mudámos de regime.

Talvez esteja na altura de não nos esquecermos de que um país não se muda apenas através das instituições.

Também se muda através daquilo que escolhemos preservar.

E talvez Portugal não precise de escolher entre o passado e o futuro.

Precise apenas de aprender a caminhar para o futuro sem deixar o passado caído pelo caminho.

Mundo Utópico da Dri 



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