Será que estamos a dar a devida atenção a tudo o que importa?
Ontem, fui ao cinema assistir a "Santo António, o Casamenteiro de Lisboa", de Ruben Alves.
Este filme, ao explorar os Casamentos de Santo António, aborda temas como Lisboa, as nossas tradições, a memória e, em essência, aquilo que nos define como portugueses. A própria narrativa do filme utiliza uma tradição lisboeta como ponto de partida para questionar o que realmente desejamos manter numa cidade que se encontra em constante transformação.
Ao sair da sala, fiquei a pensar numa questão que, curiosamente, ganhou ainda mais força quando comecei a acompanhar as notícias sobre Cristiano Ronaldo e toda a polémica à volta da Seleção Nacional.
Não foi a polémica em si que me fez refletir.
Mas sim a enorme proporção que ela atingiu.
Ronaldo deixa o estágio, após um desentendimento com o selecionador Jorge Jesus, e anuncia que, a seu tempo, contará a sua versão dos factos. Rapidamente, somos inundados por manchetes, debates acalorados, opiniões diversas, comentários sem fim e discussões por todo o lado.
E eu pergunto-me: estaremos a avaliar as coisas com a perspetiva correta?
É inegável a importância de Ronaldo para o futebol português. Ele é uma figura central na nossa Seleção, e o que aconteceu com ele merece atenção e explicação.Contudo, paralelamente, outras situações importantes estão a decorrer.
As nossas cidades estão a mudar de forma acelerada.
Tradições ancestrais vão desvanecendo-se ou transformando-se radicalmente.
Existem locais que, atualmente, quase não conseguimos reconhecer.
O comércio tradicional desaparece, bairros inteiros mudam de aparência, e festas e costumes que antes marcavam o nosso dia a dia deixam de fazer parte dele.
E estas transformações, por norma, não ocupam as manchetes durante vários dias consecutivos.
Não há conferências de imprensa a respeito.
Não há comentadores a debater o assunto durante horas a fio.
Não há milhares de pessoas a discutir o tema nas redes sociais.
E, possivelmente, reside aqui o cerne do problema.
Damos uma enorme importância ao que acontece durante 90 minutos num campo de futebol, mas dedicamos muito menos atenção ao que se passa ao longo de décadas nas nossas cidades.
O próprio filme de Ruben Alves levanta esta questão fundamental: o que é que pretendemos salvaguardar e o que estamos dispostos a abandonar em nome do progresso?
Não me parece que a preservação de tradições signifique uma aversão ao futuro.
Tampouco acredito que uma cidade precise de permanecer estagnada no tempo para manter a sua identidade portuguesa.
No entanto, existe uma distinção clara entre mudar e perder a nossa essência.Entre evoluir e permitir que tudo o que nos torna únicos se desvaneça.
Talvez seja este o verdadeiro debate que precisamos de ter.
Não se trata de escolher entre a figura de Ronaldo e a salvaguarda das nossas tradições.
Trata-se, antes, de compreendermos por que motivo nos conseguimos mobilizar tanto por uma polémica que pode durar algumas semanas, e tão pouco nos incomodamos com perdas culturais que podem ser irremediáveis.
Hoje, discutimos quem disse o quê, quem saiu da equipa, quem permaneceu, e quem tem razão.
Amanhã, haverá outro jogo, outra controvérsia, outra notícia de destaque.
No entanto, uma tradição que se extingue pode nunca mais regressar.
Um café que fecha as suas portas pode não reabrir jamais.
Uma cidade que vê a sua identidade a desvanecer-se pode continuar atraente, cheia de turistas e de pessoa, mas deixará de ser, precisamente, a mesma cidade.
E talvez seja esta a questão que deveríamos analisar com mais detalhe.
Talvez a pergunta que nos devemos colocar não seja apenas "o que está a acontecer com o Ronaldo?" Talvez a pergunta mais pertinente seja também: "O que é que se passa connosco?"
E, acima de tudo: "O que é que nos escapa enquanto a nossa atenção está focada na mesma coisa?" Essencialmente, talvez a interrogação seja mesmo: será que a nossa perspetiva está correta?
E aí recordo-me de Jorge Palma:
"Ai, Portugal, Portugal, de que estás à espera tens um Pé numa galera e outro no fundo do mar …”
O Mundo Utópico da Dri

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